Um riso zen ?
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Um riso zen ?

22 de fevereiro de 2022
5min
Um riso zen ?

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Em artigo do livro intitulado Além do riso: reflexões sobre o humor em toda parte, o historiador Elias Thomé Saliba, debruçando-se sobre a relação entre humor e esfera pública em uma dimensão historiográfica, assim se pronuncia sobre o tempo presente:

"Com a internet e os efeitos impactantes do Big Data, a escala do humor produzido intencionalmente aumentou de forma exponencial: o riso hoje está em todo lugar e os noticiários misturam notícias com entretenimento. Políticos se consideram experts em trocadilhos canhestros. Robôs se encarregam de virilizar frases jocosas no twitter. A princípio, as redes sociais exerceram um papel pluralista e aparentemente “democrático”, pois qualquer um pode se manifestar, embora alcançar uma grande audiência seja algo bastante diferente. Os algoritmos favorecem declarações e chistes que incitem emoções fortes e conflituosas: são elas que chamam mais atenção e incrementam os milhares de “cliques”. Pode ser uma tecnologia libertadora, mas é certo que ela não premia a moderação, premia os extremismos e a agressividade".

De fato, observando qualquer instância dessa grande “praça pública” que é a internet, é fácil logo dar de cara com alguma sacada que se propõe risível (ainda que muita gente possa não achar engraçado).

Nessa relação junto ao humor, estou me dedicando, ultimamente, a buscar materiais digitais que manifestem uma tentativa do cômico a partir de um tema em particular, que nomeio de maneira geral como espiritualidade, com tudo o que se pode desdobrar a partir daí: esoterismo, misticismo, neopaganismo e tendências religiosas da Nova Era, terapias alternativas etc. e tal.

Tomo como exemplo alguns casos tirados de páginas da rede social Instagram. Numa primeira busca meio aleatória, encontrei os seguintes perfis: Acordei meio mística, O ego pira, Ametysta e Oca das Pedrinhas. Nas duas primeiras páginas, a dimensão humorística se encontra explícita não só no próprio título, como também na autodefinição:

O sagrado está em muitos lugares. Lei da Atração, Plano Espiritual, Misticismo e Deboche.

O segredo é saber rir de si mesma na jornada do autoconhecimento.

Mas todos esses quatro perfis do Instagram, sem exceção, fazem uso, vez ou outra, de um texto humorístico. O que define um texto pelo humor, basicamente, implica uma discrepância e incongruência, com o uso de cenas (uma mostrada e uma implícita) necessariamente contraditórias. Nessa contradição, muitos procedimentos de linguagem podem ser utilizados: ironias, exageros, estereótipos, paródias, dentre outros.

Neste artigo, quero destacar um desses procedimentos em específico: a autoderrisão.

A autoderrisão manifesta uma atitude de rir de si próprio, ou seja, ocorre quando o próprio “eu” é tomado como objeto de riso. Essa atitude pode ser encarada de muitas maneiras, tais como a manifestação de um riso “bom” (como propõe Vladimir Propp no livro Comicidade e Riso) e a tentativa de um comportamento de empatia (como propõe Claudine Haroche em artigo do livro Humor contra a violência na cidade”).

Vejamos:

A incongruência (por exemplo, o sério e concentrado versus o risível e abobalhado) é o elemento fundamental de humor.
A paródia, que consiste em subverter um texto anterior (no caso, um desenho animado da Disney), é um procedimento clássico em textos humorísticos.
O exagero cômico alia-se a temas da contemporaneidade.

Certamente, o humor nessas páginas do Instagram pode ser encarado como estratégia publicitária e comercial para atrair “curtidas” e potenciais “clientes”. Também é certo que, ao explorar o riso de si próprio, tais postagens parecem ir na contramão do que o historiador Saliba sugere pela citação apresentada no começo deste artigo.

Mas o que me parece mais importante de se aferir é que nesse humor há um quê de “disciplinador” e “civilizatório”, no sentido de propor certas formas de ser e estar em sociedade em detrimento de outras supostamente condenáveis (tomar decisões impulsivamente, complicar coisas simples, causar discórdia pela internet, por exemplo).

Esse “quê” disciplinador e civilizatório é próprio de discursos religiosos desde que o mundo é mundo. Seja na Bíblia, na Torá, no Alcorão ou na memória oral de tradições ameríndias ou de matriz africana, as religiosidades sugerem maneiras de agir consigo, com o outro e com o meio ao redor.

Estarão certas? Estarão erradas? Não cabe aqui especular a esse respeito, mas tão somente atentar para o fato de que o riso, até mesmo o riso aparentemente mais “inocente” ou “zen”, está necessariamente atrelado a valores, crenças, ideologias e visões de mundo de um determinado grupo. Para além do Bem e do Mal.

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