OPINIÃO

Quem mandou matar Glênio Sá ?

Mais de três décadas após a tragédia que tirou a vida do líder comunista potiguar Glênio Fernandes de Sá, em 26 de julho de 1990, a dúvida que tanto inquietou a família por todo esse tempo agora tem tudo para ganhar a pressão da opinião pública. No sábado (30), data em que Glênio completaria 72 anos de idade, os jornalistas Jana e Gilson Sá, filhos do comunista, lançaram um documentário expondo fatos, indícios e trazendo à luz da razão revelações inéditas sobre o caso.

Em “Não foi acidente, mataram meu pai”, Jana e Gilson montam um quebra-cabeça que leva o espectador a questionar se realmente o desastre automobilístico que matou Glênio e Alírio Guerra há 32 anos foi, de fato, um acidente, versão oficial jamais aceita pela família.

Entre os documentos acessados e expostos por Jana durante o processo de pesquisa está o reconhecimento pelo Exército brasileiro de que Glênio Sá foi eleito vereador de Natal em 1982, fato nunca oficializado pela Justiça Eleitoral do Rio Grande do Norte, um atentado à democracia do país.

Outra informação que chama a atenção é a de que o inquérito da morte de Glênio e Alírio foi dado por encerrado com erros bizarros e sem que a família tivesse tido acesso aos autos. Uma certidão da delegacia de acidentes de veículos, por exemplo, diz que não foi possível o reconhecimento da placa do Opala que colidiu com o fusca onde estavam as vítimas. Porém, como prova o documentário, a placa foi estampada, de forma inteiramente legível, nas capas de todos os jornais que cobriram a tragédia e aparece também no laudo emitido pelo Itep.

Numa das cenas mais tocantes, Jana lembra um assalto à residência dos pais poucos meses após a morte de Glênio. Os bandidos só levaram fotografias e documentos. A filha do comunista, que tinha apenas 6 anos de idade na época e perdeu toda a memória anterior à tragédia, conseguiu guardar apenas uma fotografia ao lado do pai, imagem que não estava junto às demais nos álbuns roubados. Fátima, a esposa, relata que sentiu falta logo de uma pasta em que o marido guardava muitas informações sobre o período em que foi perseguido.

Em “Não foi acidente, mataram meu pai”, o espectador é informado, com provas documentais, que as perseguições aos adversários da ditadura continuaram a acontecer mesmo após a lei da Anistia, assinada pelo ditador João Batista Figueiredo em 1979. Um ofício assinado pelo Exército revela que Glênio Sá continuou a ser monitorado pelo menos até 1988.

Outra peça que deixa o espectador com uma pulga atrás da orelha é um depoimento do pastor evangélico e ex-torturador do DOPS Cláudio Guerra. Ele revela no livro “Memórias de uma Guerra Suja” que os militares forjaram um acidente automobilístico no interior do Nordeste no mesmo período em que Glênio e Alírio morreram. Guerra não lembra o nome do político morto nem a data exata do “acidente”. Mas na pesquisa realizada por Jana Sá não há registro de outro desastre automobilístico que tenha vitimado um adversário dos militares.

O ódio que Glênio despertava entre os militares tinha relação com a participação na luta armada. Natural de Caraúbas (RN), ele foi o único potiguar a integrar a Guerrilha do Araguaia, principal ação de luta armada no campo contra a ditadura. Até hoje os agentes da repressão e os defensores do regime tentam esconder o que aconteceu naquela região.

Ao contrário de seus opositores, Glênio nunca se furtou em dar entrevistas sobre o período e, em um evento na OAB, nominou um a um os militares que o torturaram enquanto esteve preso. Para Fátima Sá, essa denúncia foi a motivação para a trama que o mataria pouco depois.

O filme “Não foi acidente, mataram meu pai” leva o caso Glênio Sá para outro patamar a partir de agora. É urgente que a OAB se posicione e encampe essa luta por memória e justiça, uma batalha que deixa de ser apenas da família. Há no documentário de 50 minutos informações e indícios suficientes para o Governo do Rio Grande do Norte autorizar a reabertura do inquérito sobre a morte do líder comunista.

Os documentos atestados pelo Estado brasileiro revelados no filme também exigem que o Tribunal Regional Eleitoral repare outro erro histórico, apure o resultado das eleições de 1982 e entregue o diploma de Glênio como vereador eleito à família Sá, sob pena de continuar cúmplice de tempos imundos.

O filme de Jana é um grito pela memória do pai e uma pergunta às autoridades que carece de resposta há mais de 30 anos:

Quem mandou matar Glênio Sá ?

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Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"