OPINIÃO

A cantilena do capitão covarde

Andam tão superlativas as tentativas de Jair Bolsonaro em ampliar os limites da resiliência do brasileiro ao absurdo institucional a que o país está submetido nos últimos quatro anos que provavelmente os livros de história do futuro terão de dedicar mais de um capítulo para explicar esse desconcertante fenômeno diplomático que suja a imagem do país no exterior.

Como se não bastassem o genocídio da pandemia, a inoperância administrativa, o chafurdo do orçamento secreto, a decomposição da economia, as filas de famintos procurando ossos nos lixões e as denuncias de corrupção nunca apuradas nem investigadas no governo; o presidente resolve bater mais um recorde mundial no quesito vexame público.

O chefe do executivo brasileiro (que também é chefe de Estado no sistema republicano), convocou embaixadores do mundo inteiro para uma reunião em Brasília a fim de desacreditar o sistema eleitoral do país, divulgar uma série de fake news de grupos de whats app sobre urnas fraudadas, e, já que para bom entendedor meia palavra basta, indicar que pretende não aceitar o resultado das eleições que (segundo ficou bem claro em seu discurso) ele já perdeu.

Perguntei aqui agora a pouco, na tarde de quarta feira de fins de inverno do ano da graça de nosso Senhor Jesus Cristo de 2022, ao amigo Giancarlo Vieira, professor de história do campus do IFRN Natal Central, se ele recordava de algum caso na história recente da humanidade em que um chefe de Estado tenha se prestado a reunir embaixadores estrangeiros para denegrir a imagem do próprio país e anunciar claramente, a torto e a direito, suas intenções golpistas.

Ficamos uns minutos passando a limpo listas de figuras ilustres, de Napoleão III, a Mussolini, passando por Muammar al-Gaddafi e Idi Amim Dada; e nada de achar um caso semelhante.

Do ponto de vista político, o signo mais evidente dessa cantilena constante do bolsonarismo contra o sistema eleitoral brasileiro é o da fragilidade.

Como toda liderança fascista que se preza Bolsonaro se projetou na política nacional vendendo uma imagem de força. O “mito” é alguém que não respeita leis. Faz motociata sem capacete, pesca em reserva ambiental, protege os filhos rasgando a constituição, causa caos no equilibro dos poderes do Estado pra defender seus interesses mesquinhos, interfere nas instituições para livrar os seus das investigações de corrupção, grita o tempo todo, fala palavrão, imita gente morrendo sufocada, estimula assassinatos políticos, condena a morte, com sua omissão, milhares de brasileiros e sempre escapa ileso.

Todos esses sinais, do ponto de vista psicosocial, indicam que Bolsonaro não se reduz a moralidade social nem a legalidade política do país, estando acima do plano ordinário do homem comum. É assim que o líder fascista projeta uma imagem divinizada de força sobre humana que seduz parcelas infantilizadas da sociedade. São justamente essas parcelas que acabam por clamar, masoquisticamente, pelo chicote de um pai abusador que os possa proteger contra seus inimigos imaginários.

Como justificar, então, que um sujeito sobre humano desses tenha tanto medo de uma eleição? Como é possível aceitar que esse herói fascista, incensado por uma seita apocalíptica de machos complexados, trema de medo diante de um debate na TV, de uma campanha eleitoral convencional, de um enfrentamento nas urnas com um antípoda arquetípico como Lula?

Só há uma resposta possível: o capitão é, na verdade, um covarde.

O mito treme na hora luta. Foge da batalha.

Como todo covarde, sua única estratégia é humilhar os mais fracos. Enfrentar uma outra potência política equivalente, de igual para igual, na arena eleitoral, ele não consegue.

É por isso que é fundamental desacreditar o sistema de urnas eletrônicas, já que é exatamente esse sistema que vai demonstrar, de modo cabal, a fraqueza do mito.

A cantilena do capitão covarde diante de embaixadores do mundo todo soa, em função disso, como uma capitulação, um cagaço, um humilhante e desesperado pedido de socorro de um fanfarrão assustado diante de uma derrota inevitável.

É por isso que o vexame geopolítico dessa semana foi lido por alguns dos agentes políticos que ainda apoiam o “mito” como um erro monstruoso. Faz muito sentido, afinal um fascista pode ser louco, obsceno, perverso, hediondo e ainda sim não perder o apoio de seus milicianos (tão loucos, perversos, obscenos e hediondos quanto seu líder). Um fascista só não pode mostrar fraqueza.

Para uma sociedade sequestrada pelo pavor diante do abuso político o único pecado sem perdão que um líder autoritário jamais pode cometer é a covardia diante da luta.

Mussolini que o diga…

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Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.