CIDADANIA

Conheça Ivan Baron, o potiguar que se tornou referência ao usar humor para corrigir falas capacitistas

Ivan Baron I Imagem: reprodução redes sociais

Depois de uma meningite viral aos três anos de idade, Ivan Baron teve paralisia infantil. A doença não afetou seu cérebro, mas acabou provocando atrofia muscular. Foi preciso tempo para não se deixar intimidar pelos olhares estranhos que percebia. Porém, hoje, aos 24 anos, ele se tornou uma referência nas redes sociais ao corrigir, com muito bom humor e educação, falas capacitistas que acabam escapando nas falas cotidianas, inclusive, de alguns famosos.

Isso começou em 2018, no auge de movimentos políticos e quando a eleição foi muito influenciada pela internet. Se falava muito na luta pelo feminismo, lgbtfobia e contra o racismo, mas não via debate sobre a inclusão de pessoas com deficiência e isso me intrigou. Eu era estudante de pedagogia, fui pra internet pesquisar e notei que o tema não era muito divulgado, havia poucas matérias e quando havia, eram feitas por pessoas sem deficiência. A partir daí, fui me empoderando e comecei a gravar vídeos para internet de maneira didática. No início só atingia amigos e os vídeos eram pouco profissionais. Foi em 2020, com a pandemia, quando tive mais tempo, postei um vídeo no Tik Tok sobre a máscara inclusiva, que ajudava as pessoas a fazer leitura labial, que tive mais de cinco milhões de visualizações em uma semana, o que me deu ânimo”, lembra Ivan.

Em seu instagram, onde tem mais de 231 mil seguidores, Ivan se descreve como um potiguar politizado. Apesar de ter se tornado conhecido falando sobre a máscara facial de proteção à covid-19 inclusiva, parece que foi corrigindo falas capacitistas, que ele fidelizou o público. Mesmo sendo fã de realities shows e cacto assumido, que é como são chamados os fiéis fãs da ex-BBB Juliette, Ivan não deixou escapar nem a escorregada que a moça deu no programa.

Vi que dava para falar sobre inclusão, mas de maneira engraçada. Procurei fazer do meu jeito, normalizar. Veio 2021 e, com ele, o BBB. Sou fã do programa, mas assistia com senso crítico. Notei que as pessoas questionavam falas racistas e fóbicas, mas as falas capacitistas passavam despercebidas. Sou cacto raiz (ri) e vi que Juliette fez uma fala capacitista ao falar algo sobre retardado. Corrigi de um jeito didático e pedagógico. O pessoal das redes dela adorou e eles repostaram, o que impulsionou ainda mais minhas redes”, detalha Baron que, depois disso, até já se encontrou pessoalmente com a artista e teve direito a declaração em redes sociais.

Ivan não se esquiva a falar sobre nada! Ele participou da mais recente parada do Orgulho LGBT realizada em São Paulo, no dia 19 de junho. No evento, ele subiu no trio elétrico e se encontrou com a cantora Luíza Sonza.

Por causa de seu protagonismo e desenvoltura para falar de assuntos delicados, mas sempre de maneira bem humorada, como quem está mais interessado em acolher e ensinar, do que fazer qualquer estardalhaço, Ivan acabou chamando, também, a atenção do ex-presidente Lula que, em sua última passagem por Natal no mês de junho, conversou com o jovem entre os compromissos da apertada agenda.

Ele só atendeu a mim e a uma pessoa do Ceará [o agricultor Pedro Félix], fiquei até surpreso! Jamais esperei que, em tão em pouco tempo, conseguiria ter contato com pessoas de quem sou fã”, conta Ivan que, mesmo com posicionamento político à esquerda, não deixou que a admiração pelo ex-presidente confundisse seu senso crítico.

Lula cometeu uma gafe capacitista, claro que todo mundo pode errar, mas é preciso falar. Ele disse ‘portadores de deficiência’, fui na minha rede e expliquei. Fui muito criticado porque disseram que eu estava dando argumento para a direita. Mas eu não concordo, o momento é agora e vamos construir juntos, não dá pra repetir erros dos anos 90. Acho q não dei argumentos, porque a direita não está nem aí para isso, eles querem mais é que tenhamos pensamentos capacitistas”, avalia.

No encontro com Lula, Ivan conta que agradeceu os avanços do governo do ex-presidente e pré-candidato às eleições de 2022 para as pessoas com deficiência, mas também exigiu um compromisso firme com a luta anticapacitista.

Falei: bora acordar, não vamos dar motivo para a direita se apropriar dessa fala. Isso não é legal, porque eles usam das pessoas, do assistencialismo”.

Ivan Baron com Lula durante passagem do ex-presidente por Natal em junho de 2022 I Foto: cedida

Apesar do envolvimento com tantas causas, Ivan diz que, por enquanto, não pretende se envolver com a política institucional e se candidatar a nenhum cargo. Mas, planeja se preparar para, num futuro não tão distante, estar pronto para atuar de maneira mais efetiva pela sociedade.

Muita gente fala para entrar na política, mas não é o momento. Quero ampliar meu trabalho da internet para um grande veículo de comunicação. Sinto prazer em ensinar, mas também quero curtir. Não sou militante 24h. É prazer e não trabalho. Mais pra frente, penso na política porque é importante ocupar esses espaços. É preciso elegermos pessoas comprometidas com a luta anticapacitista, não basta ter deficiência, ela tem que ser progressista, lute pelos Direitos Humanos e contra desigualdade”, resume.

Mas, o mundo nem sempre foi tão inspirador e cheio de cores para Ivan. Antes de chegar até aqui e demonstrar tanta força para encorajar outras pessoas, ele também precisou enfrentar preconceitos.

Parece que tenho que fazer duas vezes melhor do que as outras pessoas, que não tenho potencial, capacidade e o capacitismo vem, justamente, daí. Somos muito infantilizados, invisibilizados. Agora, mesmo depois de todo esse reconhecimento, ainda teve um humorista que compartilhou um vídeo meu fazendo chacota da minha voz só porque eu tinha feito um vídeo mostrando que ele foi capacitista. Mas, ele não teve a humildade de aprender, lamenta Ivan.

O influencer segue com a mesma disposição para enfrentar as barreiras tanto do mundo virtual, quanto do físico. Uma das dificuldades que ele precisa lidar diariamente é conseguir chegar aos compromissos em cidades sem acessibilidade, como a nossa.

Moro em Parnamirim, mas preciso ir a Natal diariamente. A capital ficaria ainda mais bonita se fosse acessível pra todo mundo. Os pontos turísticos, como Ponta Negra, têm zero acessibilidade. O principal problema é a falta de planejamento arquitetônico. Além disso, também é preciso acessibilidade atitudinal, que é a mudança de atitude das pessoas para nos receber, o problema não está em mim, mas no lugar, nas pessoas”, critica o jovem que, mais do que um futuro, já tem um grande presente pela frente.

Ivan Baron com roupa feita por potiguares na Para do Orgulho LGBT de 2022 I Foto: cedida
Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo