OPINIÃO

Cultura não é necessidade extraordinária, é ordinária e deve estar à mesa

Por João Lucas do Nascimento Neto e Francisco Augusto Cruz

O Brasil e principalmente o Nordeste, acabou de viver os tradicionais festejos juninos, alusivos aos santos de devoção luso-brasileira Santo Antônio, São João e São Pedro, após quase dois anos de Pandemia da Covid-19. As lives e streams que receberam tanta audiência nos últimos dois anos foram substituídas quase integralmente pelo encontro corpo a corpo, pelo arrastado da chinela e pelos encontros e confraternizações tão marcantes deste período.

Na tradição católica nordestina, os patronos estão ligados ao imaginário da fartura, das boas chuvas, da boa colheita e da barriga cheia. É tempo de celebrar a fartura após a estiagem e o “fim” da fome, com muito forró, quadrilhas, festas e tradições.

No cenário atual vivido no Brasil, a fartura e a bonança estão cada vez mais longe. O Brasil registrou dados de volta ao Mapa da Fome, com aproximadamente 30 milhões de brasileiros vivendo bem longe da fartura, aliás vivendo sem o mínimo diante da necropolítica ultraliberal do Presidente Bolsonaro.

Este mandatário, que vende o pseudopatriotismo Chicago Boy, é inimigo ferrenho de seu povo e da cultura de seu país. Nos seus primeiros dias de mandato, extinguiu o Ministério da Cultura, reduzindo a uma reles secretaria, entregue a senhora que adorava sentir o odor dos flatos daquele palhaço das manhãs do SBT, na década de 80.

Tão logo se deu a queda da rainha da sucata, subiu ao picadeiro do circo dos horrores o play boy da malhação, que em seus bons hábitos cíveis, tratava das questões mais complexas da cultura portando arma de fogo no seu gabinete de trabalho.

É necessário compreender que neste ano traçaremos um novo rumo para Brasil, no mesmo sentindo em que os países da América Latina estão fazendo ao se libertarem pouco a pouco da farsa neoliberal e neofascista. Não podemos negar que o debate para as grandes questões brasileiras passa inevitavelmente pela resistência cultural, de quem faz arte e de quem a recepta – como afirmava o então Ministro da Cultura do Governo Lula, e atual imortal da Academia Brasileira de Letras, Gilberto Gil: “A cultura é uma necessidade ordinária, diária e necessária, que deve estar à mesa, tanto quanto o alimento”.

Foi justo no momento de crise sanitária mundial, em que arte, a música a cultura nos salvou de nós mesmos e do mundo. A Arte é subversiva, é “arteira” e nunca faltou à política, embora a política muitas vezes falte à arte. Portanto, é necessário que os debates para um novo futuro do Brasil perpassam pelo comprometimento dos novos eleitos com a cultura e com o acesso à arte sem muros ao povo.

A cultura não pode ser mais a última a entrar no orçamento e a primeira a sair, nas crises. É necessário que os gestores eleitos, entendam o poder de transformação e de renda que gira em torno da produção cultural e da arte, bem como sua ausência joga pessoas para a marginalização sob as ordens do segundo estado – o crime organizado.

É necessário que as agendas de campanhas estejam comprometidas com a fartura de alimentos, de água, de vida digna e de acesso à cultura. É preciso estar claro e garantido o direito a se alimentar de comida e de arte – como afirmava Trotsky – Trazendo a todos não só o direito ao pão, mas também à poesia.

João Lucas do Nascimento Neto é produtor cultural e Francisco Augusto Neto é cientista social*

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