CIDADANIA

Duanakaja: projeto quer inserir no mercado brasileiro pano produzido por mães venezuelanas para carregar seus filhos

Empatia. Foi com este sentimento que surgiu o Projeto Duanakaja. A ideia é criar oportunidade de geração de renda para os Warao, povos originários do Nordeste da Venezuela que vivem no Brasil, aproveitando o seu conhecimento e experiência para a criação e produção de um produto artesanal já desenvolvido, produzido e utilizado pelas mães da segunda maior etnia venezuelana.

Todas as vezes que eu via as venezuelanas pedindo doações nas ruas, eu notava que elas carregavam as suas crianças em um tipo de sling e imaginei que fosse produzido por elas”, explica Graziela Quaresma Tonelli, responsável pela pesquisa, criação e desenvolvimento do projeto. Como mãe e consumidora em potencial do produto, “achei que seria algo interessante para ser oferecido ao mercado, já que é algo diferente, sem necessidade de nós, amarras, argolas, fivelas e parecia ser um produto de baixo custo para produzir e vender”.

Isso porque, a Duanakaja, o pano que as mães Warao produzem para carregar seus filhos, é uma peça feita de tecido, onde não é necessária amarração ou argolas para ajuste de tamanho, sendo confeccionada de acordo com o tamanho que melhor se ajusta à mãe e à criança.

Achei bem interessante também a forma como era usado, as crianças ficam de lado, nas ancas da mãe, diferente dos outros slings que a criança fica na frente, o que algumas vezes dificulta o equilíbrio da mãe e a visão”, avalia Tonelli.

Foto: Daniken Fermon | Projeto Dunakaja

A partir dessa percepção, Graziela procurou o Comitê Estadual Intersetorial de Atenção aos Refugiados, Apátridas e Migrantes do Rio Grande do Norte (CERAM) e deu início ao desenvolvimento do projeto. “Expus minha ideia e ele (o presidente do CERAM) me deu total apoio para desenvolver este projeto. Após isso, Thales me levou para falar diretamente com o Warao e conhecer a situação da qual eles se encontravam. Perguntei se realmente as mulheres produziam aqueles sling e eles disseram que sim, e que o nome deste acessório se chamava Duanakaja, que tem como tradução algo parecido com “alça de ombro” e daí surgiu o nome do projeto”.

O objetivo do projeto, segundo Tonelli, é conseguir apoio para viabilizar a compra de máquinas de costuras e material para as mães Warao produzirem a Duanakaja e conseguir inserir os produtos em feiras de artesanato, exposições e lojas que se interessem pela produção. “E com isso oferecer tanto a Duanakaja, como os outros produtos que eles produzem como bijouterias e redes feitas à mão. Os Warao produzem um artesanato muito bonito e rico, que merece ser divulgado”, avalia Garziella.

A produção do material seria no local onde eles estão alojados, no CARE, “assim diminui custo e elas conseguem produzir com maior flexibilidade de horário definidos por eles de acordo com a necessidade da produção”. A ideia é possibilitar a geração de renda com produtos da própria cultura.

Sobre os Warao

O povo Warao tem por costume viver em agrupamentos de até 300 pessoas. Suas comunidades são ribeirinhas e suas casas são palafitas construídas com troncos de árvores e cobertas com folhas de palmeiras. São em sua maioria pescadores/as, agricultores/as coletores/as, artesãos/ãs e carpinteiros/as.

Desde 1965, suas comunidades foram afetadas devido a construção de um dique que obstruiu o Rio Manamo. Este projeto afetou diretamente a vida dos Warao, causando uma súbita salinização da parte baixa do delta. O impacto foi tão forte, causando contaminação da água, que os impossibilitou de terem até água para consumo, tendo assim as condições de vida dos indígenas profundamente afetadas. Com isso, muitas famílias se deslocaram para os centros urbanos.

Atualmente estima-se que aproximadamente 4 mil Waraos estejam no Brasil. Na sua maioria, os venezuelanos têm solicitado a condição de refugiados no Brasil. Desde 2019 vem sendo tomadas medidas no âmbito da administração e políticas públicas especificamente ao povo Warao, devido à situação de vulnerabilidade social no qual se encontram.

No Rio Grande do Norte existem aproximadamente 110 Waraos, a maioria está concentrada entre Natal e Mossoró, mas em outras cidades, como Caicó, também há algumas famílias. A capital potiguar tem uma média de 40 a 50 pessoas, “mas o número muda bastante porque alguns mudam de Estado e também chegam novas famílias”, alerta Tonelli.

Nenhum deles, até o momento, conseguiu se inserir no mercado de trabalho. “Em sua maioria são analfabetos e muitos relatam que gostariam de ter aula de português para que o idioma não seja mais uma das barreiras para conseguirem inserção no mercado de trabalho ou até mesmo comercializar seus produtos”, contextualiza o projeto.

Segundo Tonelli, a ideia será apresentada ao “Sebrae para ver se eles podem indicar algumas empresas parceiras, parlamentares, e vou disponibilizar para quem se interessar em ajudar tanto indicando para outras pessoas como para alguma empresa”.

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