DEMOCRACIA

Após sair de “guerra” da violência doméstica, jornalista Anne Marjorie quer defender mulheres na ALRN

Aos 39 anos, a comunicadora Anne Marjorie passou parte de sua vida sofrendo violações. Foi agredida por seu ex-parceiro, recebia comentários de relativização da violência e chegou a perder todos os bens. A dor da violência, afirma ela ao citar estudos, é semelhante a de soldados que foram para a guerra e sofreram estresse pós-traumático. Ao se ver livre do seu agressor, começou a contar sua experiência para outras pessoas, criou o Movimento Esperançar para ajudar outras mulheres e hoje busca uma vaga como deputada estadual no Rio Grande do Norte para levantar suas bandeiras.  

“Eu fui uma criança que teve uma infância muito desrespeitada. Fui crescendo e em todos os espaços que eu ocupava, é como se esses abusos se repetissem”, lembra. O relacionamento que Anne teve há sete anos, para ela, foi a “linha máxima” da violência doméstica. “Fiquei entre a vida e a morte, sofri todos os tipos de violência: sexual, moral, patrimonial, perdi tudo”, descreve.

Ao frequentar a igreja naquele período e receber comentários de que o marido iria “mudar”, relata que se sentia ainda mais agredida por falta de acolhimento. “Se eu pudesse fazer um raio x no meu corpo naquela hora, era como se ele estivesse todo esfaqueado. Era essa a sensação que eu tinha. Tudo doía. Eu me deitava, doía. Eu pegava meu filho, doía. Mas eu olhava para aquela criança e ia dizendo: ‘é aqui que está minha fonte de esperança’”.

“Eu fui em uma emissora aqui da cidade e falei que estava com depressão, aí houve uma comoção muito grande”, diz Marjorie. Segundo ela, o público estranhava, já que era uma pessoa conhecida e vista na frente das câmeras sorrindo. “Aí já foi um momento também para quebrar alguns tabus, de que a alegria não tem nada a ver com a depressão”.

Com essa bagagem dolorosa e depois de entender “a periculosidade do buraco em que eu estava”, Anne Marjorie passou a dedicar parte de sua vida para ajudar outras pessoas, como mulheres e crianças. Para ela, o trabalho é duro, mas necessário. “Eu acredito muito que essa é uma missão de vida. É uma missão daquelas que não são saborosas. Não tem gosto. Não tem um sabor agradável”, relata.

A comunicadora diz que recebia convites para ser candidata há duas décadas. “Há 20 anos, eu recebo convites para política e sempre disse não porque eu sempre via a política como um lugar endemonizado. Já estou sentindo na pele, porque ao se colocar as pessoas já te demonizam mesmo, ainda mais quando você é mulher. A estruturação é toda em cima de muito machismo e silenciamento”, sentencia.

Apesar de só estar tentando um cargo dentro da política agora, diz que já era uma agente social. Atualmente cursando psicologia, vê no curso uma forma de enxergar o outro de maneira profunda. “Todas as minhas formações dentro e fora do país foram a respeito do comportamento humano. Se eu não entender a dor de quem tá do outro lado, a minha comunicação vai ser em vão”, afirma.

Candidata a deputada estadual pelo MDB, o convite segundo ela veio por meio do prefeito de Natal, Álvaro Dias (PSDB). “Esse ano, pela atuação de alguns governos e do que acontece no nosso país hoje, como a misoginia, os deboches criminosos, a diminuição do valor da mulher, tudo isso me fez pensar que não tinha outra saída”, defende. “Eu tenho que ir [para a ALRN] nem que seja para alardear”, acredita.

Caso seja eleita deputada, quer ver a Assembleia com corpo técnico. “A Assembleia Legislativa dos meus sonhos tem ética, tem técnica, tem acolhimento, tem um corpo de psicólogas extremamente atuantes para entender quem é esse povo que tá chegando”, afirma. Por isso, Anne Marjorie defende também a entrada de outras mulheres na Casa. 

“É necessário que nós tenhamos mulheres, mas não é qualquer mulher. São mulheres preparadas. Tem que ter mulher preta preparada. Tem que ter pessoa com deficiência preparada, para não ser engolido lá dentro”, diz ela. 

“Eu nunca quis ser mais uma. Meus programas sempre tiveram cunhos sociais profundos. Eu nunca me vi nesse lugar de política, mas eu já era uma agente política, e especialmente agora nos últimos anos como militante, como uma pessoa que conhece a dor não de ouvir falar, mas de sentir na pele”, acredita Anne. 

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