DEMOCRACIA

O que defende a UP, partido que lançou sem-teto ao Senado e jovem feminista à ALRN

Uma reforma urbana para “enfrentar os empresários”, reforma agrária para levar alimento às mesas dos brasileiros e o fim do vestibular. Essas são algumas das propostas da Unidade Popular pelo Socialismo (UP), o mais jovem partido brasileiro, que disputa sua segunda eleição no Brasil e no Rio Grande do Norte. No RN, a sigla lançou a candidatura do militante sem-teto Marcos Antônio para o Senado, e da estudante Thalia Lima para a Assembleia Legistlativa, concorrendo como deputada estadual.

A UP foi criada a partir de um trabalho coletivo que envolveu diversas frentes, incluindo o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), organização sem-teto impulsionada pelo partido. Segundo Marcos, uma das principais bandeiras da legenda é uma reforma urbana e agrária profunda. 

“Nós defendemos a reforma urbana, agora uma verdadeira reforma urbana que enfrente os empresários do nosso país, porque tem muitos prédios públicos e privados abandonados nos grandes centros das capitais a décadas e nenhum gestor público tem a coragem de dar esse enfrentamento, de fazer valer as ferramentas legais que a sociedade civil construiu ao longo da luta”, aponta. De acordo com Marcos, se uma propriedade não cumpre a sua função social, “ela está servindo especificamente para especulação imobiliária” e para que um prédio ou terreno abandonado seja vendido “a preço de ouro” no futuro”.

Junto a isso, o partido defende que a reforma urbana seja acompanhada da regularização fundiária e da fiscalização pelo poder público. “É possível fazer essa unificação e implementar o imposto progressivo, porque o dono do imóvel vai ter cinco anos para honrar seu compromisso. Então se ele não paga os seus impostos, ele vai ter um período de carência de cinco anos”. 

Andando por ocupações, ele diz que se depara com um cenário de fome. “A gente não consegue mais comprar uma cesta básica com os mesmos itens que a gente comprava há cinco ou dez anos atrás”, lamenta o senadorável. Marcos ainda critica as propagandas do governo federal em defesa do agronegócio. 

“Nosso país passa por um período muito difícil e contraditório, que é ver a propaganda do governo federal com orgulho de dizer que somos um dos três países que mais exportam alimentos para os outros países, enquanto 33 milhões de brasileiros passam fome e não têm o que comer no outro dia”, opina.

“Não é preciso voltar às periferias porque nós não saímos das periferias”

Thalia Lima, 21, é uma das mais jovens candidatas da eleição. Ela está no partido desde 2020 e tem uma breve trajetória ligada ao movimento feminista. Estudante de Turismo na UFRN, ela saiu da cidade de Santo Antônio-RN para fazer faculdade na capital e atualmente mora na Residência Universitária. Durante o período mais grave da pandemia, ela fez parte da mobilização por alimentos para os alunos residentes, já que o auxílio da universidade havia atrasado. Segundo ela, o partido não vê as eleições como um fim em si mesmo.

“A gente fala que é muito difícil para nós, porque não vivemos numa democracia. Essa ideia de democracia é muito da democracia burguesa. A UP não tem, por exemplo, tempo de TV, e como é que as pessoas vão nos conhecer? Então a gente faz esse trabalho de boca a boca porque é um trabalho que a gente já fazia antes. Não é preciso voltar às periferias porque nós não saímos das periferias. A gente já está nas periferias no cotidiano desde antes das eleições”, observa.

Thalia (centro) e Marcos (à direita) participam de panfletagem no condomínio Village de Prata, conquistado a partir de reivindicação de movimentos sem-teto | Foto: reprodução

Enquanto muitas siglas entram nas eleições apenas com a cota mínima obrigatória de 30% de mulheres, a UP fez o movimento contrário. Nestas eleições, a sigla é nacionalmente a que mais lançou mulheres candidatas: 68,33%. 

“A gente não usa isso como cota, porque nos organizamos com essas pessoas, e essas pessoas que são nossos dirigentes. Então a Unidade Popular vem colocar a importância de organizar principalmente as mulheres que são as que mais sofrem nesse sistema”, afirma. “Eu encontrei um movimento feminista que eu acreditava”, comemora.

Pão, paz e teto

Para Marcos, a organização popular nos movimentos sociais é mais do que pontualidade, e sim um projeto de vida. No MLB há 15 anos, ele foi um dos contemplados com uma casa em 2009, no conjunto Leningrado, bairro do Planalto, junto com as famílias da Ocupação Oito de Outubro. 

“Mas eu vi que não resolveu a nossa situação, porque nós dependíamos de andar a pé para ter transporte, não tínhamos equipamentos que estão inseridos naquele projeto. A única coisa que tem é o CMEI [Centro Municipal de Educação Infantil], mas os outros equipamentos até hoje, 13 anos depois, ainda não chegaram, como a unidade básica de saúde”, critica Na periferia, as linhas de transporte públicas são escassas, e é outro motivo de lamento do candidato. “Ela é falha, é mínima, deixa as pessoas ilhadas de tempos em tempos”. 

Atualmente, Marcos vive na Ocupação Valdete Guerra, também no Planalto. Na convenção nacional da UP em que foi anunciado como pré-candidato ao Senado Federal, um integrante do partido lembrou uma história passada do sem-teto. “Uma vez, o companheiro Marcos foi levar uma reivindicação do povo pobre de Natal a um órgão público”, começou. 

“Chegou lá, o companheiro Marcos estava de chinelo. Aí tinha alguém na portaria que disse: ‘não, aqui não pode entrar de chinelo não’. Marcos se abaixou, tirou as Havaianas, entregou ao guarda e entrou descalço”, afirmou, para o entusiasmo dos militantes presentes.

Marcos usa esse e outros momentos como combustível. “O que nos condicionou a continuar nessa luta foi eu ter percebido a importância de continuar organizando as pessoas para que elas lutem não só pela casa, mas por todos os seus direitos, já que a Constituição Brasileira rege isso. Nós temos direito a uma vida digna e vida digna não significa dizer só você ter casa”, apregoa o candidato a senador.

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