Kika e a estrela encantada: professora paraibana lança primeiro cordel sinalizado com ilustrações de potiguar
Natal, RN 13 de jun 2024

Kika e a estrela encantada: professora paraibana lança primeiro cordel sinalizado com ilustrações de potiguar

28 de setembro de 2022
7min
Kika e a estrela encantada: professora paraibana lança primeiro cordel sinalizado com ilustrações de potiguar

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O primeiro cordel sinalizado tem as digitais da paraibana Klícia de Araújo, que em história autobiográfica, valoriza o protagonismo das pessoas surdas e homenageia a cultura nordestina. “Kika e a estrela encantada” tem coautoria do ilustrador Beto Potyguara, do Rio Grande do Norte, e do professor Danilo Knapik, além de organização da professora Kelly Cezar, ambos da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

A publicação é da Letraria e está disponível gratuitamente. O material traz QR Codes para tradução em Libras de dedicatória, prefácio, apresentação, glossário, depoimento, poesia e entrevista.

Professora assistente do curso de Licenciatura em Letras Libras da UFPR, doutoranda e mestre em Estudos da Tradução, Klícia é autora do projeto de pesquisa “Literatura Surda e Tradução Literária em Libras”, “Literatura de Cordel em Libras” e coordena o “Mãos Arretadas”, que promove a difusão da literatura de cordel para a comunidade surda do país.

“A escola bilíngue de surdos tocou o meu coração pra criar o livro de HQ para crianças surdas, porque não tem material de cordel em Libras para elas”, conta Klícia, ao explicar que o material não tem balões de diálogo, já que surdos são mais visuais e adeptos da linguagem não verbal. “O projeto de Mãos Arretadas motiva a comunidade surda a conhecer o cordel”.

Klícia conta que cresceu no sertão e é neta de cordelista. | Foto: Divulgação
Klícia conta que cresceu no sertão e é neta de cordelista. | Foto: Divulgação

Klícia é de João Pessoa e escolheu a cidade de Teixeira, da Paraíba, onde nasceu o cordel, para ser a casa de Kika e sua família. Na história, quem interage com a menina é Felinto, inspirado no avô da autora, que era cantor e cordelista e lhe contava muitas histórias em gestos.

“Convivia com ele, e com ele aprendi a história de cordel, na cidade de Teixeira-PB uma cidade do sertão paraibano (chamam de terra da poesia) onde ficavam os contadores e cantores). Por ser surda, eu não entendia nada. E meu avô Felinto percebeu e passou a comprar folhetos e ensinar histórias pela linguagem não-verbal com o intuito de ensinar a história do cordel e suas poesias”.
A personagem também tem dificuldades de entender o que se passa, mas ao longo das páginas, conta com a ajuda da Andorinha e seu avô, que percebe a necessidade de aprimorar sua comunicação com a neta.

“Em muitos lugares do Nordeste, os surdos não têm acesso a comunicação, a informação ou mesmo Libras. Dessa forma, esse livro permite ao sujeito surdo explorar o mundo do cordel e suas nuances. A primeira informação importante é que se trata de um livro que possui uma narrativa que transmite a mensagem diretamente ligada à valorização do protagonismo surdo, da emancipação, e participação na sociedade e que o sujeito surdo é capaz de conquistar seus sonhos”, aponta Klícia, ao acrescentar que o objetivo é também de transmitir a realidade do sujeito surdo no contexto da sociedade ouvinte “como os conhecimentos surdos e as lutas do povo surdo, além de legitimar politicamente a identidade surda no mundo”.

Traço

O texto original foi produzido em Libras e traduzido para o português. Para ilustrar, Beto Potyguara buscou elementos da cultura popular nordestina, usando como referências a xilogravura e a Arte Naïf, se mantendo fiel aos versos que originaram cada quadro.

O artista aponta como marcas utilizadas da xilogravura a repetição de figuras, geralmente de perfil, com olhos grandes e expressivos; e a desproporcionalidade na composição dos personagens, com cabeças, mãos e pés grandes.

“Minha função foi a de transformar o texto [traduzido para o português] em um roteiro de história em quadrinhos, fazendo as devidas adequações. E como também fui eu o desenhista, o processo ficou fácil. A execução foi bem tranquila. Com muita comunicação visual”, lembra Beto, ressaltando que todas as etapas eram avaliadas pela autora.
“A cada passo que eu dava, do esboço à finalização de cada página, sempre fiz questão de que a Klícia acompanhasse. Cada etapa do processo só avançava com o aval dela. Existe uma equipe multidisciplinar envolvida no projeto e havia intérpretes de Libras em nossas reuniões”.

Beto Potyguara é formado em História e atualmente trabalha na Gibiteca Potiguar do Centro de Estudos e Biblioteca Escolar Prof. Américo de Oliveira Costa (CEBE), em Natal, onde ministra cursos e oficinas para professores sobre como usar as histórias em quadrinhos em sala de aula como ferramenta educativa. A participação do ilustrador foi garantida por meio de parceria entre o projeto HQs Sinalizadas da UFPR e a biblioteca.

O potiguar conta que o convite foi feito pela professora Kelly Cezar. “Ela conhecia o meu trabalho com ‘Carcará, cabra pió num há’, um quadrinho cordelizado meu, e falou que tinha uma amiga cordelista interessada em publicar uma HQ. No primeiro momento ela não me informou que a autora era surda. Quando soube a natureza do projeto, a importância para a comunidade surda, o ineditismo da proposta, topei na hora. Já produzi quadrinhos, fiz charges esportivas em jornais locais, mas trabalhar em um projeto dessa natureza, foi a primeira vez”.

Além da relevância da publicação para pessoas com deficiência auditiva, Beto pontua que o projeto foi importante também para ele, de forma pessoal.

“Foi a minha tomada de consciência sobre a condição da comunidade surda brasileira. Até então, eu engrossava as fileiras do senso comum, acreditando que todo surdo é alfabetizado em português, pois é assim que os filmes, as séries e algumas novelas nos desinformam. Aí eu fui descobrir que o português é, na verdade, o segundo idioma dos surdos, que nem todos são alfabetizados plenamente”, diz, ressaltando que “não existe entretenimento pensado para os surdos” e que existem vários dialetos no país, além da Libras. “Foi uma grande conscientização e politização”, conclui.

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