ENTREVISTA

Luiz Maranhão: “Apresentar seu legado contribui para o fortalecimento de nossa jovem democracia”, avalia Francerle de Souza

Um reconhecimento ao talento de Luiz em transformar as dores e as mazelas da sociedade potiguar em textos para o Diário de Natal”. É assim que o jornalista Francisco Francerle de Souza classifica o livro “Recortes de Luiz Maranhão”, lançado no último dia 12 de dezembro, durante o debate “Luiz Maranhão vive: democracia brasileira e desenvolvimento do RN”, no auditório da Biblioteca Central Zila Mamede, campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal.

A obra organizada pelos jornalistas Afonso Laurentino Ramos e Francisco Francerle de Souza traz uma coleção de 100 artigos de Luiz Ignácio Maranhão Filho escritos no ano de 1957. “Quando o Diário de Natal fechou suas páginas encerrando as atividades em 2012, Afonso me convidou para conhecer sua biblioteca de quase 20 mil títulos. Foi lá que discutimos a ideia de um trabalho que apresentasse a produção jornalística de Luiz Maranhão no Diário de Natal”, revela Francerle.

Em entrevista para a Agência Saiba Mais, Francerle disse que o livro é diferente de tudo que já se publicou sobre Luiz e é uma contribuição “para o processo de fortalecimento de nossa ainda jovem democracia”. Segundo Francerle, “embora os artigos de Luiz apresentados no livro não façam referência ao drama político que vivemos a partir de 1964 (os artigos foram escritos em 1957), o resgate da produção jornalística de Luiz contribui, inevitavelmente, para o próprio resgate da memória de um de nossos maiores líderes políticos do RN e do Brasil”.

Confira a entrevista na íntegra.

A publicação dessa coletânea de artigos de Luiz Maranhão não é um projeto novo. Trata-se de uma ideia antiga do jornalista Afonso Laurentino Ramos. Como foi esse processo de viabilizar a obra?

Afonso Laurentino foi amigo e colega de redação de Luiz Maranhão no Diário de Natal. Ele testemunhou toda trajetória profissional e política de Luiz atuando como jornalista, professor e advogado. Ele acompanhou todo o sofrimento, perseguição política, prisão e torturas, fruto de sua militância política até o desaparecimento de Luiz em 1974 pelas forças militares em São Paulo. Afonso também testemunhou a via crucies cumprida por Odette Roseli, na busca de qualquer informação sobre o destino do esposo. Mostrar o valor desse cidadão brasileiro que se tornou mártir da democracia, era um verdadeiro compromisso moral de Afonso para com Luiz. Há alguns, Afonso, um leitor voraz e um jornalista sempre dedicado a ajudar amigos a publicar seus escritos e produção acadêmica, colaborou para a publicação do livro “Luiz, o Santo Ateu”, de autoria da ex-deputada pelo Rio de Janeiro, Heloneida Studart. Pelas mãos de Odette, Afonso recebeu os originais do livro e o resultado foi uma belíssima obra. Mas ainda faltava dar um tratamento especial aos recortes dos originais dos artigos de Luiz que, anos a fio, Afonso lembrava com admiração.

E como foi para você integrar esse processo de organização?

Quando o Diário de Natal fechou suas páginas encerrando as atividades em 2012, Afonso me convidou para conhecer sua biblioteca de quase 20 mil títulos. Foi lá que discutimos a ideia de um trabalho que apresentasse a produção jornalística de Luiz Maranhão no Diário de Natal. Quando comecei a ler os artigos, parecia me transportar àquela época, tão genial era a escrita de Luiz. Se eu conseguia me transportar àquela época numa simples leitura, eu percebi que o inverso também seria possível, conseguiria trazer aqueles artigos para os nossos dias, num processo de releitura e comparação com os dias atuais.

Nos fala um pouco dessa experiência na organização da obra?

Eu diria que a publicação desse livro foi o último trabalho do Projeto Ler/DN Educação do Diário de Natal, levando em consideração que a ideia nasceu lá atrás. O Projeto Ler produziu importantes publicações como “A História do Rio Grande do Norte”, “História de Natal” “Atlas Geográfico do Rio Grande do Norte”, o “Atlas Histórico do RN, “Vida e obra de Câmara Cascudo”, “Mártires de Cunhaú e Uruassu”, dentre outras tantas publicações. Tudo em forma de fascículos que vinham encartados no Diário de Natal. Quem comprava os jornais, ganhava até o colecionador para organizar todos os fascículos da obra.  Para viabilização desta obra foi fundamental o apoio que recebemos da Fundação Astrojildo Pereira, de Brasília (DF) que editou o livro e viabilizou a publicação com distribuição gratuita. O livro é composto da coletânea de artigos de Luiz, e vários capítulos destacando a análise de conteúdo dos artigos, depoimentos de pessoas contemporâneas a Luiz, publicações sobre ele na imprensa e um glossário com informações pontuais acerca de personalidades citadas por ele nos textos da época.

Entre os depoimentos durante o lançamento na UFRN, foi destacado o caráter atual dos escritos de Luiz Maranhão. Que diferenças e semelhanças você poderia apontar entre as experiências de Luiz e a atualidade?

Diferente de tudo que já se publicou sobre Luiz que normalmente se exaltava a militância política que culminou com o seu desaparecimento e morte, o livro Recortes de Luiz Maranhão é antes de tudo um reconhecimento ao talento de Luiz em transformar as dores e as mazelas da sociedade potiguar em textos para o Diário de Natal. Nesse trabalho de releitura, queremos destacar um capítulo especial do livro que é a análise de conteúdo realizada pelo professor aposentado da UFRN, João Emanuel Evangelista. Uma reação natural de quem folheia o livro é fazer uma comparação espontânea com os dias atuais, justamente o que o Projeto Ler fazia com o programa “Leitura em Sala de Aula”, levando recortes de jornais até às escolas para debater as notícias do país junto com alunos do Ensino Fundamental e Médio. O programa foi pioneiro no país, chegando a receber vários prêmios a nível nacional.  A ideia do livro é provocar a reflexão sobre o que mudou no cenário do país após 65 anos. Há textos com relatos que parecem se repetir todos os dias no país, tratando sobre o drama da saúde pública, o analfabetismo, o flagelo da seca que provoca o êxodo para os grandes centros, a mendicância na capital, a importância de preservar e valorizar as riquezas naturais para manter a estabilização dos empregos e da economia. Por isso já estamos recebendo convites para apresentação do livro em escolas da Grande Natal e até do interior.

O esquecimento é apontado como o maior problema para a realização da Justiça de Transição no Brasil. Para você, de que forma obras como essa contribuem no enfrentamento ao passado autoritário no Brasil?

Embora os artigos de Luiz apresentados no livro não façam referência ao drama político que vivemos a partir de 1964 (os artigos foram escritos em 1957), o resgate da produção jornalística de Luiz contribui, inevitavelmente, para o próprio resgate da memória de um de nossos maiores líderes políticos do RN e do Brasil. Trata-se de um humanista potiguar cuja vida foi dedicada ao diálogo plural, à construção de alianças para um país melhor, com inclusão e solidariedade. Apresentar esse seu legado contribui, portanto, para o processo de fortalecimento de nossa ainda jovem democracia.

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