Quem é Ruth Venceremos, a drag queen do MST formada pela UFRN que trabalhará no governo Lula
Natal, RN 13 de jul 2024

Quem é Ruth Venceremos, a drag queen do MST formada pela UFRN que trabalhará no governo Lula

13 de janeiro de 2023
9min
Quem é Ruth Venceremos, a drag queen do MST formada pela UFRN que trabalhará no governo Lula

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

“Bixa preta, nordestina, com origem no MST”. Assim se descreve Ruth Venceremos, ou Erivan Hilário dos Santos, uma drag queen do Movimento Sem Terra e formada em Pedagogia pela UFRN. Aos 38 anos, a professora será a nova assessora de diversidade e participação social da Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) do governo Lula (PT). O anúncio já foi feito, mas a nomeação ainda precisa passar pelo Diário Oficial da União (DOU).

O cargo de assessoria para a diversidade será criado em todos os ministérios. A função será garantir uma atenção transversal às pautas tratadas dentro dos órgãos, com olhar para os setores socialmente oprimidos. Essa rede de apoio atuará junto à Secretaria-Geral da Presidência para promover a diversidade nas pastas do governo. Os assessores também poderão ser de qualquer grupo da diversidade, como mulheres, negros, LGBT, pessoas com deficiência, etc.

A artista é natural de Santa Maria da Boa Vista (PE) e atualmente vive em Brasília (DF), onde foi candidata a deputada federal pelo PT no ano passado. A militância no movimento sem-terra iniciou aos 13 anos, ainda em Pernambuco. 

“Eu venho de uma família que tem um total de 12 irmãos vivos, e minha família passava por muitas dificuldades. Então quando o MST foi para a região lá no sertão de Pernambuco, foi a possibilidade que minha família viu de ter um local para morar, viver um pouco mais com dignidade, dada que a origem da minha família vem do campo”, conta.

Com o passar do tempo, diz Ruth, a construção de uma hidrelétrica na região os levaram a sair para a zona urbana de Santa Maria da Boa Vista, mas ainda com forte tradição rural. Lá, junto com o MST, iniciou as primeiras experiências com alfabetização de jovens e adultos.

“Com outros jovens e adolescentes do acampamento decidimos ensinar a ler e escrever a outros trabalhadores que não sabiam. Essa foi uma das primeiras ações que eu fiz no MST junto com outros jovens. Então, de lá para cá eu fui ajudando a construir, a consolidar alguns debates. A docência sempre foi uma coisa que me inspirava, que me chamava atenção, eu queria muito ser professora”, relata a drag, que chegou a estudar na escola do acampamento e concluiu o ensino médio, antes de entrar na graduação.

Erivan Santos desmontado, com uma boneca de crochê de Ruth Venceremos | Foto: reprodução

O amor pelo ensino a levou a outro estado: o Rio Grande do Norte. Através da parceria entre o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) e a UFRN, a artista veio ao RN para cursar Pedagogia em uma turma especial, entre 2002 e 2006.

O programa, que também possui parceria com o MST, permite que jovens e adultos de assentamentos tenham acesso a cursos de educação básica (alfabetização, ensinos fundamental e médio), técnicos profissionalizantes de nível médio, cursos superiores e de pós-graduação (especialização e mestrado).

“Tinha o tempo escola e o tempo comunidade. Um período a gente passava nas dependências da universidade, e em outro período a gente voltava para nossa comunidade para realizar pesquisa, levantamento de informações, seguir um pouco aprofundando o que foi visto na universidade”, explica Ruth.

O início da jornada da graduação foi no polo EaD da UFRN em Nova Cruz, e algumas aulas eram feitas no campus central, em Natal. Depois, quando o MST ocupou a antiga escola agrícola de Ceará-Mirim e formou o Centro de Formação Patativa do Assaré, ela passou a estudar e morar na cidade da região metropolitana. O período, diz, traz boas recordações.

“Como era um curso por módulo, ora eu ficava aí [RN], ora voltava para o meu Estado, mas foi muito importante”, afirma ela, ao lembrar de docentes que se tornaram referência, como Irene Alves, que foi sua orientadora no TCC, além de professores de Pernambuco.

“A gente foi não só cultivando relações, mas também realizando outros projetos, estreitando um pouco as relações. E foi num contexto em que estava se consolidando o debate sobre a educação do campo do Brasil, e esse curso e a relação com a UFRN foram fundamentais para a formulação de políticas públicas em nível nacional”, aponta.

Hoje, Erivan também é mestre em educação pela Unicamp.

Bixa preta, nordestina e do MST

Erivan Santos na formatura em Pedagogia pela UFRN, realizada no Centro de Formação Patativa do Assaré | Foto: cedida

Ao ser perguntada se prefere ser chamada de Ruth ou de Erivan, a assessora diz que não vê diferença. 

“Em geral não costumo mais separar muito quem é a Ruth Venceremos e quem é o Erivan, muito nessa perspectiva de olhar a própria trajetória do Jorge Lafond, da Verão Verão, que me inspirou mesmo. De que as pessoas na rua, mesmo não estando toda paramentada, toda montada, quando viam Jorge Lafond chamavam de Vera Verão, e isso tem acontecido muito comigo. Mesmo quando eu não estou montada, as pessoas vêm e falam ‘oi, Ruth Venceremos’”, comenta.

A descoberta de se montar, feita em 2015, veio também para trazer um novo “oxigênio” à sua vida. Agora, Ruth, ou Erivan, quer ser exemplo também para outras pessoas LGBTQIA+.

“Ser uma bixa preta, nordestina, com essa origem no MST e estar na assessoria da Secom da Presidência da República tem esse impacto muito positivo para que outras manas como eu possam olhar e dizer ‘nós podemos estar em todos os espaços, nós podemos estar na boate performando, nós podemos estar através da nossa arte’, porque foi essa arte que me projetou”, aponta.

“A drag queen foi o ponto de encontro comigo mesmo, com minha própria história, de poder superar algumas cicatrizes que a gente vai tendo ao longo da nossa história como uma bixa preta sendo marcada em virtude da violência, da opressão. Então, para mim, a Ruth Venceremos foi o meu oxigênio para continuar existindo como pessoa e como artista. Ocupar esses espaços é fundamental e projeta o Brasil que a gente quer, a sociedade que a gente quer, uma vez que estamos falando de um corpo que em geral é marginalizado na sociedade e está em um ponto estratégico do Executivo Federal. Está na máquina do Estado ajudando a fomentar e a formular políticas públicas”, ressalta.

Minha carne é de carnaval

Foto: André Gagliardo

Ruth Venceremos nasce em 2015, durante o seminário de diversidade sexual do MST, mas ganha corpo mesmo no ano seguinte, no carnaval de Brasília: “não poderia ter lugar melhor para ter nascido”, brinca Erivan.

“Ali eu vi e entendi que a drag queen, para além de uma artista que performa, tem uma dimensão de comunicação. Ela é uma pedagoga por excelência porque, na medida em que seu corpo começa a transitar pela cidade, é alvo de olhares e de reflexão das pessoas. ‘O que é aquilo dali?’. Então o fato também da drag queen poder brincar e transitar na questão do gênero é fundamental, é um ponto de reflexão muito grande”, aponta.

Ao começar a performar pela capital do Distrito Federal, Ruth afirma que alinhou o ativismo político que aprendeu com o MST à dimensão da arte. O resultado foi uma drag “artivista”, a junção de “arte” com “ativismo”. 

“De maneira que, logo quando eu comecei a me montar, já comecei a palestrar, a ir para alguns espaços, então a drag ampliou a minha voz e minha militância. Aí eu passei aí para escolas, a debater com a juventude, com os estudantes, e você vê que a drag tem um papel educativo muito forte na sociedade, sobretudo da gente começar a romper os tabus, o preconceito”, explica.

Um dos resultados dessa experiência foi a criação do coletivo Distrito Drag, grupo que realiza ações políticas e educativas em Brasília.

“A gente entende que, por excelência, nossa arte é uma arte política. Ela é política porque surge e extrapola o território que é a nossa própria comunidade LGBTQIA+. Quando a gente fala de cultura LGBT, em geral, a primeira coisa que vem na nossa cabeça é uma drag queen, porque ela é esse corpo que ao mesmo tempo fala e projeta nossa própria comunidade”, comenta.

As mais quentes do dia

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.