Filhos da pedra: a maternidade e infância em Serra Pelada
Natal, RN 18 de jun 2024

Filhos da pedra: a maternidade e infância em Serra Pelada

5 de fevereiro de 2023
10min
Filhos da pedra: a maternidade e infância em Serra Pelada

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Por Ana Alvarenga e Pablo Araújo, para a Agência SAIBA MAIS

“Eu nasci e me criei na Pelada, daqui eu vou sair sabe pra onde? Ali [cemitério], se Deus quiser e chegar minha hora.” - Joana Rosa de Oliveira, 93 anos.

Nascidas da pedra, invisibilizadas por todos, as mães de Serra Pelada, choram silenciosamente lágrimas de dor. Delas, foram retiradas a dignidade, as oportunidades e principalmente a vida de seus filhos.

No interior do Rio Grande do Norte, Pelada, como chamam os moradores, distrito do município de Taipu, é palco da pobreza, da insegurança alimentar, da mortalidade e trabalho infantil.

O local é marcado por dor e superação, no olhar de várias mulheres é perceptível a frustração e a angústia. Falar de um passado tão doloroso e de um presente não tão diferente, é um processo difícil, envolto de suspiros, olhos marejados e silêncios que expressam mais do que palavras.

Ao pé do afloramento rochoso por eles chamado de serra, a vida, assim como as pedras que são fonte de sustento de várias famílias e também de exploração, é dura. As estatísticas aqui ganham nome e endereço.

Maternar
“Eu não tinha experiência”, essa frase foi proferida em diferentes vozes, se repetindo como um mantra quando o assunto é a gravidez. As famílias são grandes, nos surge uma dúvida, “Você sempre quis ter essa quantidade de filhos?”, as respostas ouvidas são variações de uma experiência por elas compartilhada.

“Adolescente de dezoito anos já engravidei com aquela complicação né? Minha mãe me expulsou de casa e fui me socorrer nos outros, entendeu? Passei minha gravidez dependendo dos outros”, conta Maria de Lurdes, em sua varanda, com a brisa tocando o
cabelo e amenizando o calor de 33 °C, “Nas outras [gravidezes] eu já esperava, porque eu não tomava o remédio, era caro e eu tinha dificuldade.”

“Ter meu primeiro filho foi uma experiência frustrante, o que me marcou foi a falta de humanidade dos profissionais. Me fizeram ter complexo de vira-lata, me sentir inferior, humilhada. Nosso psicológico já está fragilizado, me senti um nada”, relata Silvanêa, 37, com os olhos brilhando em lágrimas contidas e frustração.

Os olhos marejados acompanham nossa caminhada, em cada casa, em cada história. A dor de perder um filho não pode ser mensurada por palavras, muito menos compreendida em sua totalidade por quem não a viveu. Lurdes, discorre sobre sua experiência como mãe, essa, que se repete dolorosamente em diversos outros lares da região.

Anjos
"Já tive 10 gravidez, quatro foi muito complicado, fiz aborto e tive seis normal. Esses meus seis filhos eu tive normal, mas dois faleceu." A dor é palpável, a voz falha, as lágrimas correm e o sentimento de pesar é sufocante.

O primeiro, morre na hora do parto, por complicações com o cordão umbilical, já o segundo com 1 ano e 4 meses, de pneumonia. “Eu acredito que foi incompetência dos médicos e o outro por falta de experiência, descuido meu e deles. Se eles tivessem me falado como tem que tratar direitinho, talvez,” ela suspira pensativa.

Ambos, como tantas outras crianças, morrem pela total precariedade da saúde na região. Pelada não tem hospital, o único fica a 10 km, distância considerada curta para muitos, mas andar a pé ao sol escaldante com crianças doentes no colo, é praticamente umatortura, mas a única alternativa.

A mortalidade infantil foi tão presente no local que foi necessária a construção de um cemitério para as crianças mortas. O chamado Cemitério dos Anjos, hoje encontra-se completamente abandonado. O mato recobre os túmulos os tornando praticamente invisíveis, é possível encontrar lixo e pedras em todo o terreno, o descaso com as vidas perdidas não parou no momento do óbito.

Durante o mês de maio as mães ficavam aflitas, era nessa época do ano que, segundo elas, as crianças morriam acometidas de doenças como pneumonia, sarampo e catapora.

Joana Rosa de Oliveira, 93, conhecida como Mãe Ciça, é a moradora mais antiga de Pelada. Ela manda pegarmos cadeiras em sua casa e não aceita ajuda com a sua, nos guia até o quintal, onde senta no local em que toma sol todas as tardes. Com um sorriso no rosto e extremamente disposta, ela nos conta sobre seu passado.

"Hospital? Acho que não tinha não, nem tinha doutor, nem tinha enfermeira, não tinha nada." Quando passavam mal ou tinham alguma doença "tomava chá dos mato."

Com tranquilidade na voz, desata a falar sobre sua irmã, "A filha dela morreu dentro dela, sabe? Ela não morreu, mas a menina, sim. Foram buscar um homem na Pitombeira para tirar a menina de dentro dela, a mulher dele fazia essas coisas. Mas ela ficou boa." Ciça é mãe adotiva, Damião, seu filho, é um dos gêmeos de sua irmã. "Depois foi gêmeos, eu levei Damião pra minha casa e ela ficou com o dela. O. O dela morreu com oito meses, ele adoeceu de noite e morreu no outro dia, nem curandeiro deu rezo às cura dele."

Mãe Ciça. (Foto: Ana Alvarenga)
Mãe Ciça. (Foto: Ana Alvarenga)

Geração analfabeta
Conciliar o árduo trabalho com os estudos, foi um dos principais desafios dos filhos daquela época, muitos não conseguiram. Já cansados do trabalho na roça e na pedreira, as crianças acabavam desgastadas e consequentemente, desistiam da escola. A necessidade de comer era gritante.

É notável o brilho no olhar de cada entrevistada quando se falava sobre a infância, a criança perdida no meio da luta pela sobrevivência ainda é existente dentro de cada uma, o acesso à educação era uma realidade distante.

Uma geração analfabeta, mas com um único objetivo: alimentar a família. “A gente começou a trabalhar cedo, aí minha mãe mandava a gente para escola, a gente cansado, às vezes nem íamos para aula, né? Hoje em dia nem sei ler, só sei assinar meu nome, e, coisa pouca”, lembra Maria Socorro de Souza, 57, com um olhar nostálgico e continua: “Não sei ler não, mas meus filhos todos sabem e eu tenho muito gosto em saber que eles sabem das coisas, coisas que eu não sei, né? Aí às vezes eu tenho vergonha, assim, porque eu não sei ler, aí eu digo ‘olha, eu podia saber ler, tá em outra vida, trabalhando em um negócio. É tão ruim a pessoa não saber ler”, comenta em tom de arrependimento pelas oportunidades perdidas. Não se tratava de uma escolha, ou trabalhava, ou padecia de fome.

Trabalho Infantil
“Minha infância? Minha infância foi trabalhar”, Mãe Ciça, sentada na sombra do quintal, rodeada por seus bisnetos, conta com tranquilidade na voz seu dia-a-dia na pelada quando criança, aos 10 anos “rapava mandioca”, enquanto a mãe cevava a raiz.

Com anos de diferença, a história se repete, Ane Jaqueline Silva do Nascimento, 46, nos recebe em sua casa e desata a falar, “Era sofrido, no inverno a gente tinha mantimento, todo mundo tinha alimento, macaxeira, jerimum, a gente tinha fartura, então quando ela [a seca] chega, todo mundo sofria, passava necessidade lógico, né? Porque não via alimento.”

Emocionada, ela fala de seus pais, que tiveram 20 filhos, 15 sobreviveram e estes trabalham desde criança para se sustentar. A mãe trabalhava na colheita de algodão por longos períodos, saia de casa de manhã antes dos filhos acordarem e chegava após dormirem.
Com lágrimas nos olhos, ela conta que eles os “criaram na enxada”. “Me senti mãe com 10 anos de idade.” relata Maria José do Nascimento de Farias, 63.

A mais velha, no meio de 20 irmãos, teve que assumir a responsabilidade de cuidar de seus irmãos mais novos, enquanto os do meio se dividiam entre trabalhar na pedreira e caçar.

“Minha infância foi muito sofrida nesse lado, a gente criança fazia coisa de adulto. Tinha que pegar nosso próprio alimento pra comer, fazíamos armadilhas pra pegar preá, pegar passarinho com vara de hibisco. Era um tempo muito sofrido, mesmo sendo criança a gente tinha que fazer isso," relembra Jaqueline. Entre pedras, crianças se tornavam adultas. Com martelo na mão, faziam britas e paralelepípedos que seriam vendidas por mixaria.

Pedreira em Serra Pelada. (Foto: Ana Alvarenga)
Pedreira em Serra Pelada. (Foto: Ana Alvarenga)

Mandacaru
Mãe Ciça, com os olhos brilhando em alegria, essa que sempre a acompanha, nos mostra seu quintal, conta que as flores do mandacaru em nossa frente abrem apenas de noite, e nos convida para voltarmos mais tarde para apreciar a beleza do cacto. Sorri em nossa direção e, com sua voz suave e ritmada, recita a música de Luiz Gonzaga: “Mandacaru, quando fulora na seca, é o sinal que a chuva chega no sertão. Toda menina que enjoa da boneca, é sinal que o amor já chegou no coração.” Fala que apesar das dificuldades, seu tempo “era muito bom, era bom demais” e finaliza: “Eu nasci e me criei na Pelada, daqui eu vou sair sabe pra onde? Ali,” aponta na direção em que se encontra o cemitério, “se Deus quiser e chegar minha hora.”

Dados
As histórias das diversas mulheres que tiveram o seu direito de maternar arrancado de si, se encontram somente na memória de cada família. Pelada não possui nenhuma estrutura, pela falta de hospitais, boa parte dos partos eram realizados em casa e em caso de óbito, a própria família se encarregava do processo funerário.

Sendo assim, as crianças perdidas não se encontram nos dados, foram apagadas da história. Não há registros oficiais da mortalidade infantil na região, principalmente entre os anos de 1950 a 1980. A SESAP (Secretaria de Saúde Pública do Rio Grande do Norte),
quando questionada, informou a total escassez de informações, já a prefeitura de Taipu não deu nenhum retorno.

Atualmente a situação na região melhorou, mas ainda não é a ideal. Apesar dos notáveis avanços com relação ao acesso à educação, saúde e transporte, essas ainda são preocupações que ainda afligem as mães de Serra Pelada.

Jaqueline, em seu relato, diz que "aqui [em Serra Peladas] é um pouquinho difícil, né? Você vê que é muito simples, um povoado, então a gente se desloca até Taipu. Nem sempre tem médico, e às vezes quando tem um, falta remédio. Eu e meu esposo estamos desempregados, minha renda é só Bolsa Família. Às vezes eu deixo de suprir uma coisa pra comprar um alimento. Minha preocupação é nesse lado, sobre alimentação, sobre saúde."

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.