Racismo: Existe um medo, um receio da mídia tradicional de falar o que as coisas realmente são, avalia pesquisadora de comunicação
Natal, RN 17 de jul 2024

Racismo: Existe um medo, um receio da mídia tradicional de falar o que as coisas realmente são, avalia pesquisadora de comunicação

19 de julho de 2023
4min
Racismo: Existe um medo, um receio da mídia tradicional de falar o que as coisas realmente são, avalia pesquisadora de comunicação

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O crescimento e surgimento da imprensa negra foi o tema do Balbúrdia desta quarta (19). Jana Sá e Rafael Duarte falaram com Alice Andrade, professora substituta da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e pesquisadora de mídia e questões étnico-raciais. Ela traçou um quadro histórico e avaliou as dificuldades enfrentadas por esse setor da imprensa independente.

Temos uma questão muito interessante. Quando a imprensa oficial chegou ao Brasil foi pelo Correio Braziliense em 1808 e a imprensa negra veio apenas 33 anos depois, em 14 de setembro de 1833 a gente teve o jornal ‘O Homem de Cor’ ou ‘O Mulato’. Mas quando se fala em mídia negra, os estudos apontam para algo que aconteceu em 1792, que foi a Revolta dos Búzios, na Bahia. Nessa revolta as pessoas começaram a articular o que a gente chama do início dos fanzines, que rem pequenos bilhetes escritos em árabe pelos negros e negras escravizadas que começavam a articular essa revolta”, detalha a pesquisadora.

Os primeiros jornais surgiram, justamente, no período entre o final e pós escravidão. A professora da UFRN também aponta uma diferença entre entre a imprensa abolicionista, de caráter mais econômico, e a imprensa negra, de cunho mais social.

A imprensa abolocionista era, muitas vezes, formada por pessoas brancas, por homens brancos, na verdade, que lutavam contra a escravização. Já a imprensa negra surgiu entre os próprios negros livres, libertos e pessoas ainda escravizadas. A imprensa negra tentava mostrar para a população porque a escravização explorava pessoas negras e porque elas eram desumanizadas. Já a abolicionista ia mais pelo viés econômico, mostrava porque era mais vantajoso, economicamente, abolir a escravização, visto que entre todas as Américas, o Brasil foi o último país a abolir”, esclarece Alice Andrade.

Desafios

Assim como nos primórdios de sua criação, a pesquisadora aponta que atualmente a imprensa negra continua dependendo de apoio financeiro e doações para se manter.

Hoje também temos o desafio dessa lógica algorítmica que é conseguir entregar esse conteúdo, declaradamente antirracista, ter essa espalhabilidade nessas redes sociais... a gente sabe que existe uma barreira do próprio sistema contra esse tipo de discurso, mas a questão financeira ainda é o maior desafio. As mídias negras continuam sendo feitas com recursos dos próprios jornalistas, que têm outros empregos e formas de renda e usam sua própria renda para manter essa mídia negra. Tem também o financiamento coletivo e doações. Há uma busca... é um sonho para essas pessoas ter um modelo de negócio que se sustente, mas são poucas as iniciativas que estão conseguindo”, lamenta.

A pesquisadora também falou sobre a presença das mulheres negras nas redações, que estão mais presentes na imprensa negra do que nos veículos tradicionais de comunicação.

Dar nome às coisas

A pesquisadora da UFRN também analisou a diferença na maneira com a qual a mídia alternativa e as grandes corporações de comunicação tratam alguns temas, como o racismo.

A motivação é muito marcada na vida do jornalista, de cada pessoa e ela parte de dois vieses, primeiro a da falta de se enxergar nessa agenda da mídia tradicional e comercial. Isso fez com que esses jornalistas decidissem se unir para poder comunicar do próprio lugar e para poder se tornar sujeitos da própria comunicação. Então não seria só pessoas falando sobre nós, mas nós falando sobre nós mesmos. É uma colocação que sempre está se tendo. E o segundo, eu acredito que é devido as políticas afirmativas, que fizeram com que mais pessoas negras conseguissem ingressar nas universidades. Muitas vezes nós temos uma notícia da mídia comercial, hegemônica, que vai colocar uma situação de racismo como uma ‘possível situação de racismo’, ou usar eufemismos como ‘discriminação’, não vai colocar o nome racismo, de fato, nas manchetes. Existe um medo, um receio da mídia tradicional, comercial, de falar o que as coisas realmente são”, avalia Alice Andrade.

Confira a entrevista completa, CLIQUE AQUI!

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