Durval Muniz lota auditório na UEPB e interpreta as angústias do neoliberalismo: “A ideia de que você consegue tudo sozinho é mentira”
Natal, RN 24 de abr 2024

Durval Muniz lota auditório na UEPB e interpreta as angústias do neoliberalismo: “A ideia de que você consegue tudo sozinho é mentira”

22 de agosto de 2023
3min
Durval Muniz lota auditório na UEPB e interpreta as angústias do neoliberalismo: “A ideia de que você consegue tudo sozinho é mentira”

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 Pessoas inseguras e sem esperança acreditam em qualquer um que prometa ordem e segurança. A extrema-direita avança porque o neoliberalismo produz inseguranças e incertezas”. As aspas de Durval Muniz mais parecem um diagnóstico sobre o Brasil de 2018, quando das urnas saiu vitorioso um dos personagens mais caricatos e cruéis da política brasileira. Mas servem também para ilustrar o que acontece na Argentina, na França e em outros países do mundo.

Um objetivo, profundo e didático Durval Muniz de Albuquerque Jr. abriu nesta segunda-feira (21) o ano letivo na Universidade Estadual da Paraíba, em Campina Grande, explicando as origens do neoliberalismo e a relação dele com o crescimento da extrema-direita no mundo.

No evento, ele lançou o livro Escritos em meio ao fogo, que reúne 30 artigos publicados ao longo de dois anos na agência SAIBA MAIS sobre o período que vai do golpe contra Dilma Rousseff até os primeiros seis meses do governo Bolsonaro. A reportagem viajou até Campina Grande para assistir a Conferência e acompanhar o lançamento. O livro pode ser baixado gratuitamente na plataforma zenodo, da editora da UEPB.

As raízes do neoliberalismo

Aos 62 anos, dos quais 30 dedicados à academia, Durval Muniz segue mobilizando estudantes, ex-alunos, professores e curiosos. Num auditório lotado, o historiador lembrou que o neoliberalismo nasceu como resposta aos regimes autoritários que concentravam poder no Estado. E hoje alimenta o monstro à espreita das democracias:

- Associamos o neoliberalismo a políticas econômicas e a uma forma de pensar economia. Mas o neoliberalismo é um projeto de sociedade, um ideário, que vai significar a produção de um sujeito adequado a esse ideário. Como todo conjunto de ideias, pressupõe um sujeito capaz de encarnar esse ideário, praticar, transformar em ação esse conjunto de ideias em práticas, projetos. O neoliberalismo é associado a Ronald Reagan e a Margareth Thatcher, a políticas econômicas que surgiram a partir do declínio do socialismo real, como se o capitalismo tivesse vencido. Os dois então começam um desmonte do estado do bem-estar social, um esvaziamento e uma redução progressiva do estado na gestão econômica, mas não apenas na economia. Porque gerir a economia significa gerir as pessoas. E economia implica gestão dos corpos e das mentes. Por isso, o ideário liberal vai se contrapor ao totalitarismo porque sempre desconfiou do sujeito Estado, (desconfiou) da presença do Estado na vida das pessoas”.

Historiador, professor e escritor Durval Muniz de Albuquerque Jr. criticou sociedade individualista / foto: Rafael Duarte

Citando os últimos anos, a que classificou como “um experimento monstruoso que não deu certo”, Durval lembrou que o Brasil de Jair Bolsonaro subverteu a lógica ao adotar a política neoliberal comandada pelo ex-ministro da Economia Paulo Guedes num modelo autoritário de governança:

- A ideia fascista deveria querer um estado forte para interferir em todas as áreas. E a política econômica neoliberal deseja justamente diminuir a presença do estado e desmontar o próprio estado. Então tivemos (no Brasil) um experimento monstruoso não deu certo. Um candidato a ditador que vai desmontando o próprio estado que poderia ser a base do seu projeto. Um Estado policial fascista. Só o Brasil para produzir um fascista neoliberal”.

Na visão do historiador, o neoliberalismo é uma ameaça à existência dos laços sociais porque a sociedade liberal produz sujeitos individuais que se imaginam capazes de alcançarem seus objetivos sozinhos, sem a participação ou apoio de outras pessoas.

- A ideia de que você consegue tudo sozinho é tudo mentira. Os livros de autoajuda nos fazem acreditar nisso, a pessoa que é empresário de si mesmo, que se auto-basta, que é capaz de viver sozinho. Isso é a visão neoliberal de produção de subjetividades. Porque o capitalismo precisa de alguém que goste de trabalhar, que acredita que o trabalho dignifica, que resolve todos os problemas. Nós fomos convencidos disso”.

Estudantes, ex-alunos, professores e admiradores de Durval Muniz lotaram auditório da UEPB / foto: Rafael Duarte

E destaca o papel da comunicação na formação da sociedade coletiva:

- O que nos une é a comunicação, não há grupo humano sem comunicação. O homem sobreviveu porque se comunicava com os outros. Se não trabalhassem juntos os homens não teriam sobrevivido. Somos um dos animais mais desprotegidos do planeta. Somos sujeitos coletivos como povo, massa, classe trabalhadora. Não existe ser humano sem a ação conjunta dos outros”.

Muniz volta a falar de Brasil e do sentimento de desesperança que tomou conta do país nos últimos anos. Em depoimento pessoal, diz que nunca havia tido tendência à depressão, mas precisou procurar ajuda médica em meio ao combo extrema-direita e pandemia.

- A angustia é uma má-conselheira. Assim como é a raiva, o ódio. O voto que as pessoas deram na urna em 2018 foi o voto da raiva e do ódio. Nossa imprensa fez as pessoas acreditarem que toda a angústia que estavam passando era culpa do PT. E aquela desordem institucional, hoje está muito claro, foi produzida pelo golpe de 2016. Desespero significa falta de esperança. A negação da política significa a perda da esperança do caráter transformador que ela, a política, tem”.

A destruição dos sistemas previdenciário e trabalhistas no Brasil e em outros países do mundo, especialmente nos governos que adotaram o neoliberalismo, é um dos exemplos citados por Durval Muniz para mostrar como a angústia e a falta de esperança das pessoas leva a atitudes extremas, como a negação da política e até suicídios.

- Quando se destrói o sistema de previdência, os velhos inseguros votam em qualquer pessoa que promete segurança e certeza. A destruição do sistema de trabalho gera insegurança e incerteza. Eles dizem que sua vida está assim porque os africanos estão chegando, porque os venezuelanos estão vindo. Que o seu país vai virar a Venezuela. O discurso da segurança e da ordem conquista todo mundo. No Brasil, como morrem mais de 60 mil pessoas por ano, associamos a falta de segurança à criminalidade. Mas na Espanha, quando morrem 300 pessoas por ano, é a insegurança existencial. O fim dos estados de bem-estar social, inclusive com a ajuda da esquerda. Hoje a população francesa se divide entre direita e extrema-direita. O Partido Socialista Francês morreu porque todas as vezes que esteve no poder adotou políticas liberais. Até a classe trabalhadora vota na direita na França. Então há uma mudança no comportamento eleitoral. Todos ressentidos com os migrantes, com a deterioração da vida, as reformas neoliberais, desmantelamento da reforma trabalhista, da previdência social, a vida precária. Neoliberalismo produz pessoas mais solitárias porque o neoliberalismo é uma máquina de moer gente”.

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