A dor da menina negra ignorada na fila da medalha
Natal, RN 24 de fev 2024

A dor da menina negra ignorada na fila da medalha

30 de setembro de 2023
3min

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Eu já fui uma menina negra, mas sem consciência disso. Cheguei à idade adulta me autodeclarando morena, assim como meu pai se declarou a vida inteira. Em um almoço em família, ele compartilhou um fato curioso, quando foi responder ao censo do IBGE em 2010, ao ser perguntado sobre como se declarava quanto a sua cor/raça, ele queria responder “moreno”, mas na falta desta opção no formulário, escolheu “pardo”. Neste mesmo ano, no meu primeiro período do curso de Direito da UFRN, na aula de ciência política, o professor Tiago Spinelli trabalhou em sala de aula pesquisa das ciências sociais que relatava a diversidade de termos utilizados para se referir a pessoas negras no Brasil: “moreno-escuro”, “moreno-claro”, “moreno-jambo” e até “marrom-bombom”, um mecanismo de fragmentação da identidade negra que funciona como um empecilho do fortalecimento político da pauta racial na reivindicação de direitos. Imediatamente eu lembrei do meu pai, acho que foi ali que caiu a ficha: eu sou uma mulher negra! Na última semana, um vídeo viralizou nas redes sociais, as cenas mostravam uma menina negra que participou de um evento de ginástica sendo ignorada na fila da medalha, isso mesmo, a mulher branca que colocava a honraria no pescoço de cada uma das meninas, simplesmente pulou a menina negra e entregou as medalhas apenas às brancas da fila. Uma cena inaceitável de racismo explícito, mas que por não ter havido palavras proferidas, o ato racista não é punido com severidade, mas é tratado como um ato velado. Quando o racismo está presente, não importa o esforço e a dedicação incansável, assim como aquela ginasta irlandesa ignorada na fila da medalha, somos tomados pela expressão de confusão e tristeza profunda ao nos darmos conta que o ódio contra nós não tem nenhum fundamento, é apenas por sermos quem somos. Esse fato ocorreu na Irlanda no ano passado, mas, aqui de Natal, me vi ali naquela menina. Durante muito tempo da minha vida, eu apenas percebia um tratamento diferente, mas não entendia porque. Eu já me achei muito feia, pensava que tinha tido um azar danado de ter nascido com cabelo cacheado, “cabelo ruim”, termo que ouvi com muita frequência sobre meu cabelo na infância e por isso comecei a alisá-lo aos 12 anos de idade. Nós já fomos crianças, e sabemos que todas as crianças merecem crescer em um mundo onde são valorizadas e respeitadas independentemente de sua cor de pele. É nosso dever garantir que a próxima geração não tenha que enfrentar a mesma dor e humilhação como a que assistimos naquele vídeo. Precisamos transformar essa dor em ação, em um movimento coletivo pela igualdade racial, para que um dia possamos olhar para trás e dizer que o racismo foi derrotado, e que nenhuma pessoa deixará de ter reconhecido o esforço do seu trabalho por causa da cor da sua pele. Porém hoje, o racismo é muitas vezes mascarado pela negação ou pela indiferença daqueles que não querem admitir que ele existe. Mas aquela menina negra não teve escolha a não ser enfrentá-lo de forma dolorosa e pública.

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