História e religião: como é mantida a memória dos massacres de Cunhaú e Uruaçu no RN
Natal, RN 3 de mar 2024

História e religião: como é mantida a memória dos massacres de Cunhaú e Uruaçu no RN

1 de outubro de 2023
4min

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Os massacres de Cunhaú e Uruaçu, que ocorreram nas cidades de Canguaretama e São Gonçalo do Amarante, respectivamente, no início do século XVII, são episódios que marcaram profundamente a história do Rio Grande do Norte. Mais de uma centena de fiéis da Igreja Católica foram mortos. Em 2000, 30 nomes foram beatificados pelo Papa João Paulo II e  canonizados em 15 de outubro de 2017 pelo Papa Francisco. Em memória dos mártires, o Governo do RN instituiu a data de 3 de outubro como Dia Estadual à Memória dos Protomártires de Uruaçu e Cunhaú pela Lei nº 8.913, de 06 de dezembro de 2006.

Para entender melhor esses acontecimentos e seu significado, a Agência SAIBA MAIS conversou com Francisco Alves Galvão Neto. Ele é professor de Filosofia, Sociologia, Antropologia e História; e foi membro da Comissão de Estudos para a Beatificação dos Mártires de Cunhaú e Uruaçu.

Contexto Histórico

Os massacres de Cunhaú e Uruaçu ocorreram no contexto da expulsão dos holandeses que ocupavam o Nordeste brasileiro na primeira metade do século XVII.

“Esses eventos tiveram início em 1645 e se estenderam até 1654. Os holandeses lançaram uma ofensiva para evitar o crescimento da presença portuguesa no Rio Grande do Norte”, o que levou a confrontos sangrentos.

As Vítimas

“As vítimas desses massacres eram diversas em termos de classe social, mas em sua maioria eram colonos”.

Entre eles, havia trabalhadores rurais que não estavam envolvidos no trabalho pesado, já que na época esse trabalho era realizado por escravos. Alguns tinham propriedades onde cultivavam cana-de-açúcar ou criavam gado. A maioria desses colonos era de origem ibérica, especialmente de Portugal, e encontrou na região do Nordeste condições para desenvolver seus trabalhos.

Impacto na História do RN

Os massacres tiveram um impacto significativo na história do Rio Grande do Norte, representando um retrocesso considerável.

Grande parte da população local foi morta durante esses eventos, o que atrasou o desenvolvimento da região, que já era periférica e dependia da produção agrícola”.

Conflitos Religiosos

Os conflitos religiosos desempenharam um papel importante nesses massacres. Após a Reforma Protestante na Europa, os calvinistas tentaram expandir sua fé para o Nordeste brasileiro, que estava sob domínio holandês na época.

Essa tentativa de imposição da fé protestante gerou conflitos culturais e violentos, levando a episódios como esses massacres”.

Memória e Devoção

A memória dos massacres de Cunhaú e Uruaçu é mantida de duas formas: por meio da história e da religião.

Esses eventos têm sido lembrados ao longo do tempo e ganharam status mítico, especialmente o massacre de Cunhaú, que ocorreu dentro de uma igreja ainda existente.

A devoção em Vila Flor e Canguaretama levou à busca pela beatificação e, posteriormente, canonização desses mártires, tornando-os santos da região.

Relatos Históricos

Existem diversos relatos históricos sobre esses massacres, escritos em diferentes idiomas, incluindo inglês, latim, português, espanhol e até Tupi-Guarani. Esses relatos falam sobre como muitas pessoas enfrentaram a violência e a morte com orações e fé, não renunciando à sua religião católica.

Atuação da Igreja

A Igreja Católica da época enfrentou restrições à prática do culto católico nas áreas dominadas pelos holandeses, mas os padres continuaram a realizar missas, muitas vezes de forma discreta.

Nas zonas rurais, como Cunhaú, as missas eram realizadas a céu aberto, e as pessoas expressavam seu catolicismo com naturalidade, apesar das restrições impostas pelas autoridades holandesas”.

Resgatando a História

Infelizmente, o professor Galvão Neto destaca que não existem esforços significativos de pesquisa ou preservação do patrimônio relacionados a Cunhaú e Uruaçu. Ele enfatiza a necessidade de explorar esses sítios arqueológicos e revelar os segredos dessa riqueza histórica para o Rio Grande do Norte.

“Tenho certeza que se for feito um trabalho de arqueologia em Cunhaú, nós encontraremos coisas que podem até mudar um pouco a nossa história colonial”.

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