Seu Xikinho, famoso alfaiate do Centro de Natal, partiu
Natal, RN 18 de mai 2024

Seu Xikinho, famoso alfaiate do Centro de Natal, partiu

10 de março de 2024
5min
Seu Xikinho, famoso alfaiate do Centro de Natal, partiu

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Por Anna Karlla Fontes

“Jamais pensei em sair. Daqui, só para o céu”, dizia o senhor Xikinho, como era mais conhecido, Francisco Pereira da Silva, e que cumpriu a promessa. Saiu porque morreu há pouco mais de uma semana. O alfaiate mais famoso do Rio Grande do Norte, requisitado principalmente por políticos e magistrados, se referia ao centro de Natal, por onde tinha verdadeira paixão e aonde seu ateliê foi instalado, ocupando as salas 103 e 104, do Edifício Barão do Rio Branco. O desejo de trabalhar ali era tamanho, que diariamente visitava as obras do prédio cinquentenário, que abriga inquilinos tão longevos e fiéis quanto e para onde se mudou desde a inauguração.

“Aqui foi onde me encontrei, fiz minha base e tenho boas amizades”. E emendava: “Em time que está ganhando não se mexe”. Seu Xikinho transbordava elegância, conhecimentos e fineza no trato. A grafia Xikinho, no cartão de visitas, foi sugestão de um amigo, colunista social, para dar “mais bossa”. O cartão se completava com a frase: “Faz a roupa que você deseja. A moda quem faz é você”.

Corredor que dava para as salas 103 e 104, onde seu Xikinho trabalhou

De tão requisitado pelos mais elegantes, chegou a viajar mais de 270 quilômetros com a missão de ir até Caicó para dar o nó em uma gravata. No caso, do noivo. Seu Francisco era absurdamente satisfeito com a profissão que escolhera. Uma escolha precoce, ainda adolescente, de quem sentiu a necessidade de trabalhar desde os oito anos de idade para contribuir com as despesas de casa e auxiliar a mãe, que ficou viúva com três filhos, em Recife e quando ele tinha apenas dois de idade.

Com a viuvez, a mãe se mudou para São José de Mipibu e vendia tapioca na porta da igreja, até se mudarem para Natal, próximo à Pedra do Rosário, na Cidade Alta. Xikinho fez vários biscates antes de botar os pés no primeiro ateliê: foi entregador de pastel nas cigarreiras, vendeu pirulito, fazia mandados. Mas logo percebeu que não prosperaria: os clientes, também garotos como ele, o ludibriavam, por exemplo, comprando um pirulito e levando dois. Com os furtos a conta não fechava e o pequeno negócio não dava lucro.

Na primeira e única alfaiataria em que trabalhou, além da própria, o menino Francisco chegou para fazer mandados. Contava orgulhoso de uma peça que o patrão mandou ele levar da Ribeira para a Cidade Alta, depois retornando para o trabalho. Fez tão rápido esse percurso, que teve a duração de uma música que tocava no rádio. Com quase um ano de alfaiataria, o desabrochar do talento para as linhas e tecidos e a percepção do quão mais lucrativo seria apostar na costura:

“Me pediram para cerzir uma calça e ganhei uma nota de 50 mil reis. Ora, eu ganhava cinco mil reis por semana, 20 mil no mês. De repente por um serviço ganhei dez vezes mais do que na semana”, contou.

E assim foi aprendendo e aperfeiçoando o ofício que abraçou com paixão e talento, até montar o próprio ateliê. De elogio em elogio, a propaganda boca a boca logo espalhou o preciosismo com que talhava os ternos e camisas, e assim foi se tornando uma grande referência.

Mais famoso alfaiate do RN, requisitado principalmente por políticos e magistrados

Sonhava com uma sucessora

Chegou a ter cinco funcionários e dizia que estava treinando Valdeleda de Souza Silva para lhe suceder. Ainda emocionada pela perda do patrão e amigo com quem conviveu por mais de 30 anos, Valdeleda o define:

“Foi uma experiência ímpar, ele era uma pessoa do bem, boa de verdade, me passou o conhecimento que ele tinha e aprendi muito. O que você pensar de uma pessoa do bem você encontrava nele. Foi pra todos nós um pai, amigo, patrão e parceiro de trabalho”.

Seu Francisco falava sobre o livre arbítrio e responsabilidade com o próximo como numa parábola.

“Eu digo aos meus clientes: eu sou uma planta numa floresta. Porque a floresta dá todos os tipos de flores, o bom, o espinho e o veneno, mas ninguém mata ninguém na floresta. Na hora que você é floresta, você tá pensando no ´cara´ lá de cima. Deus dá tudo a gente de graça e homem é que é perverso, toca fogo na mata e polui os rios, só por ganância”.

Além de falar com sabedoria, seu Xikinho exalava gratidão:

“Vim abençoado com a mãe que eu tive, com a minha família e graças a Deus não tenho queixa de ninguém. Eu acho que já estou no lucro e digo a todo mundo: Senhor eu quero mais dez anos, mas se não quiser me dar eu aceito”.

As declarações do seu Xikinho foram dadas à jornalista Anna Karla Fontes em entrevista exclusiva para a Saiba Mais, no dia 1º de dezembro de 2023, para uma reportagem sobre o Centro Histórico

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