Eólicas ameaçam patrimônio arqueológico no Seridó, alerta arqueólogo
Natal, RN 19 de jun 2024

Eólicas ameaçam patrimônio arqueológico no Seridó, alerta arqueólogo

19 de maio de 2024
9min
Eólicas ameaçam patrimônio arqueológico no Seridó, alerta arqueólogo
Sítio Arqueológico Furna do Messias, em Carnaúba dos Dantas. Foto: arquivo Instituto Seridó Vivo

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

O Rio Grande do Norte é o maior gerador de energia eólica do Brasil. De acordo com informações da Secretaria Estadual do Desenvolvimento Econômico, da Ciência, da Tecnologia e da Inovação (SEDEC) do RN, o Estado tem o maior número de turbinas eólicas em operação, com mais de 2.800 máquinas em atividade. Apesar de ser considerada fonte de energia limpa, esse modelo traz uma série de impactos, inclusive sociais, e ameaça, também, o patrimônio arqueológico.

Essa ameaça tem acontecido no Seridó, como explica o arqueólogo e historiador Plínio Victor. De acordo com o pesquisador, vestígios de civilização pré-histórica estão ameaçados por parques eólicos nessa região, e há um esforço para preservar principalmente o patrimônio nas cidades de Acari, Carnaúba dos Dantas e Parelhas, no RN, onde se concentra grande parte dos vestígios de povos originários que ali viveram.

O arqueólogo participou, entre o final dos anos 1970 até 2000, de pesquisas na região do Seridó no RN, junto a equipe de Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que difundiu os estudos dessa área no país. Plínio explica que, na região há mais de uma centena de sítios arqueológicos, sendo o mais importante o Sítio Pedra do Alexandre, onde há vários resquícios de povos originários que ali viveram, os quais, por sua vez, teriam migrado da conhecida região da Serra da Capivara, no Piauí.

Entre os vestígios, estão pinturas rupestres e sepultamentos humanos. Os estudos foram identificados por pesquisadores da UFPE, onde Plínio estudou.

“A atuação da universidade nesse local detectou centenas de sítios, com várias pinturas. E é uma pintura única, pois é a subtradição, no Seridó, da tradição do Nordeste, vinda lá do Piauí. E ali existe como um relato da vida dessas pessoas, o cotidiano delas. É uma área muito específica, como se ali tivesse existido um paisinho, um pequeno país, onde está o vestígio desse povo que habitou ali”, explica.

Sítio Arqueológico Casa Santa, em Carnaúba dos Dantas. Foto: arquivo Instituto Seridó Vivo

Esses resquícios demonstram que ali já havia uma civilização, argumenta o arqueólogo.

“Esse é o vestígio de uma civilização, pois já tinha ritual de sepultamento, pinturas nas paredes contando o que faziam. Algumas que são abstratas. Eles já tinham, inclusive, uma maneira de se adaptar ao ambiente, à Caatinga. É um vestígio civilizatório da humanidade, a sua importância não é somente uma questão local: tem importância para a história da humanidade.”

Essa área, ressalta Plínio, tem datações que remontam a 10.450 anos. Para se ter uma noção do quão antigo é, o arqueólogo faz algumas comparações.

“Isso é mais antigo do que todas as pirâmides do Egito, que têm no máximo 5 mil anos. É mais antigo que as civilizações Inca, Maia e Asteca – que, dessas três grandes civilizações, a mais antiga é Maia, que chega há 2 mil anos. A cidade de UR da Caldeia, considerada uma das primeiras cidades do mundo, que é de onde Abraão saiu para ir à Canaã, tem 5 mil anos. Quer dizer, o que temos no Seridó é 5 mil anos mais antigo do que uma das primeiras cidades do mundo.”

De acordo com Plínio, essas datações também são provas de que a história nas Américas começou muito antes da chegada dos europeus aqui, ao contrário de como é difundido no aprendizado de História – apesar de, como o pesquisador ressalta, isso venha mudando.

“A gente tem, no Ocidente, que toda a nossa civilização começa com o Oriente Médio, depois a Grécia. É isso que a gente estuda nas escolas. E nós somos geneticamente descendentes de um povo que está aqui há 10 mil anos, ou seja, 5 mil anos antes daquilo que a gente aprende na escola como o início da civilização.”

Linhas brancas: onde se pretende abrir estradas; estrelas: aerogeradores; pontos vermelhos: sítios arqueológicos. Foto: arquivo Instituto Seridó Vivo

“A gente aprende que o Brasil é um país muito jovem, com 500 anos – mesmo que fosse só isso, já seria muito. Mas temos muito mais do que isso. Só se considera, quando vai fazer História aqui, a partir da conquista do branco, e do que ele construiu. O indígena ainda entra na História do Brasil como se fosse algo exótico, que não tem nada a ver com a gente, apesar de isso estar mudando.”

Para preservar o local, o pesquisador ressalta que há o esforço para que, nessas áreas onde está concentrado esse maior número de vestígios no Seridó, haja a criação de um parque arqueológico, com visitação pública, a exemplo de como acontece no Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí.

Ameaças

De acordo com Plínio, os empreendimentos das eólicas ameaçam destruir esse patrimônio arqueológico.

Em reportagem anterior da Agência Saiba Mais, o professor Fabio Mafra Borges, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), campus Caicó, pontuou que a implementação desses empreendimentos de energias renováveis, tanto eólica quanto solar, “mesmo com o cumprimento das regulamentações, têm de certa forma impactado esses bens culturais”.

Ele ressaltou os danos ao patrimônio que esses empreendimentos podem causar na região. De acordo com Mafra, a abertura de estradas na região, por exemplo, pode causar desmatamento, uma vez que a quantidade de sedimentos que o vento e as águas transporta seria maior, colaborando para apagar ou cobrir as pinturas rupestres. 

Construção de complexo eólico na Serra de Santana, no Seridó, limite de São Vicente com Currais Novos, no RN. Foto: arquivo Instituto Seridó Vivo

“Além disso, a área, ao ser preparada para implantar os aerogeradores, tende a ser dinamitada. Apesar de ser um processo bem calculado, com isso o impacto sísmico pode afetar o suporte rochoso onde existem essas pinturas”, ressaltou Mafra.

Acesso

Anteriormente, a Agência Saiba Mais já havia mostrado que a população local do Seridó tem enfrentado dificuldades para acessar algumas das áreas que entraram em processo de privatização em 2023 pela empresa Ventos de São Cléofas Energias Renováveis, pertencente ao grupo Casa dos Ventos Energias Renováveis, com o intuito de construir o complexo eólico Pedra Lavada.

O sítio arqueológico no Brasil é propriedade da União, como explica Plínio. Por isso, mesmo que uma área seja do proprietário, não pode haver o impedimento de acesso da população a ir contemplar, por exemplo, as pinturas rupestres.

“Um exemplo: se tenho uma fazenda, com vários sítios pré-históricos dentro, essa fazenda é minha, posso fazer o que quiser com ela. Se tiver filhos, eles podem herdar. Se quiser, posso vender. Mas, o sítio que está dentro dessa fazenda, não é do proprietário. A parede que tem uma pintura, por exemplo, é da União. O que for achado ali no chão, escavando, é da União”, pontua Plínio.

O Instituto Seridó Vivo e outras entidades vêm atuando, desde o ano passado, quando a construção do complexo Pedra Lavada foi anunciado, para que esses parques eólicos não venham a ser construídos na área.

Posicionamento

A Agência Saiba Mais entrou em contato com a assessoria de comunicação da empresa pertencente ao grupo Casa dos Ventos Energias Renováveis para entender como tem sido pensadas essas construções no que diz respeito à preservação do patrimônio arqueológico. A reportagem também tentou entender o motivo da continuação do impedimento da população às áreas fechadas. Confira a nota enviada pela empresa:

“O Complexo Eólico Pedra Lavrada é um projeto da CDV Desenvolvimento, empresa do grupo Casa dos Ventos, e atualmente encontra-se em fase de análises e licenciamento prévio. É importante ressaltar que o empreendimento contempla rígida observância de toda a legislação existente e que tem realizado uma série de estudos e análises profundas com o objetivo de mitigar todo e qualquer impacto. Os sítios arqueológicos já conhecidos e de relevância atestada pelos órgãos públicos estão devidamente mapeados e em uma distância segura do empreendimento para que sejam totalmente preservados. O zelo com a riqueza arqueológica, cultural e social é considerada condição máxima da atuação da empresa, tanto que o projeto original foi alterado atendendo as comunidades do entorno do empreendimento. Em relação ao acesso à Cachoeira dos Fundões foi temporariamente fechado à população por recomendação do Instituto de Gestão de Águas do Rio Grande do Norte (IGARN), que detectou risco iminente de rompimento de barragens durante esse período chuvoso. Outro motivador foi a morte de um casal resultante de uma tromba d’água em uma localidade próxima. A empresa seguiu a orientação dos órgãos públicos visando proteger a população local e fechou, temporariamente, o acesso e visitação à Cachoeira dos Fundões que serão retomados em breve.”

Saiba+

População local não tem conseguido acessar áreas no Geoparque Seridó

Novo complexo eólico no RN e PB ameaça biodiversidade, arqueologia e comunidades tradicionais, alerta nota técnica

Carta do Seridó alerta para modelo de expansão dos “negócios do vento” no semiárido

Parques eólicos no RN ameaçam de extinção aves raras, alertam pesquisadores

Serra do Feiticeiro ameaçada: parques eólicos desafiam preservação da Caatinga no RN

Os ventos da energia renovável não sopram para a Comunidade Pesqueira de Enxu Queimado

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.