O meu filho era bebê, tinha um ano. Fomos à praia em Natal, minha cidade natal, com direito ao combo potiguar: mar morninho, ginga com tapioca e bebida gelada pra aplacar o calor da Cidade do Sol.
No pós-praia, paramos para almoçar em um restaurante de comida regional que eu amo. Se praia dá sono em adulto, imagine em criança. Claro que ele dormiu no caminho e entrou apagado no restaurante.
Não estávamos com a cadeirinha, por isso o mantive quietinho no meu colo, de bruços, e sentei com ele na cadeira. O peso, somado à impossibilidade de ver meu próprio prato, me deixou um pouco chateada, mas estava resignada. Faz parte da maternidade ter de se virar pra cuidar.
Eis que, como um ser iluminado, surge uma atendente e me pergunta:
– Você quer colocá-lo na redinha?
Olhei, sem entender muito bem o que ela estava falando, cansada da praia e dos quilos que segurava. Respondi:
– Redinha?
Com olhar e voz de uma ternura que nunca esquecerei, ela confirmou:
– Sim, temos uma redinha portátil para as crianças dormirem. Vou trazer e colocar aqui ao lado da mesa.
Foi graças a esse pequeno imenso gesto que consegui almoçar tranquilamente, degustando cada garfada daquele banquete potiguar do qual estava com tanta saudade (na época, eu morava no Rio de Janeiro. Estava em Natal a passeio).
A redinha salvadora.
Na contramão desse gesto que acolheu criança e cuidadores, o que vejo atualmente é uma sociedade que, cada vez mais, trata o público infantil como presença incômoda, quase como uma mosca inconveniente zumbindo ao ouvido.
Hotéis child-free se multiplicam; são comuns restaurantes sem menu infantil ou sequer opções de bebidas saudáveis para crianças; é raro ver espaços públicos com estrutura mínima para famílias; muitas empresas ainda veem os filhos como um gargalo para a produtividade dos seus funcionários. Essa é uma realidade constante, presente, crescente, opressora.
Na Europa, o debate sobre hotéis e espaços “adults only” ganhou força a ponto de autoridades francesas discutirem medidas contra estabelecimentos que excluem crianças. Nos Estados Unidos, uma pesquisa recente apontou que 75% dos entrevistados apoiam algum tipo de experiência “adults only” em restaurantes, seja por meio de áreas separadas, restrições em determinados horários ou ambientes voltados exclusivamente para adultos. Ou seja, a ausência de crianças passou a ser quase um modelo de negócio.
O alto custo para ter um filho também pesa. Um estudo do Insper, feito a pedido do Estadão, estimou que criar um filho até os 18 anos no Brasil pode custar de R$ 480 mil, em famílias de classe C, a mais de R$ 3,6 milhões, em famílias de renda mais alta.
Quando se considera educação, saúde, alimentação, moradia, transporte, lazer, tempo de cuidado e a sobrecarga invisível (a tal da economia do cuidado), fica evidente que a maternidade e mesmo a paternidade seguem sendo tratadas como responsabilidades privadas, embora sustentem o futuro coletivo.
O decréscimo da natalidade também precisa ser evidenciado aqui. Claro que é fruto de causas profundas, como envelhecimento populacional, autonomia feminina (a qual defendo com faca nos dentes) e aumento dos custos de vida. Mas, para reflexão: será que, em uma sociedade que muitas vezes trata criança como inconveniência, ter filho pode ser tarefa cada vez mais solitária?
A realidade é que, segundo o IBGE, a taxa de fecundidade no Brasil caiu para 1,55 filho por mulher no Censo 2022, a menor já registrada pelo instituto e abaixo do nível de reposição populacional. O envelhecimento da população também avança.
Em Portugal, o envelhecimento é ainda mais visível: em 2024, havia 192,4 pessoas idosas para cada 100 jovens, e as crianças e adolescentes até 17 anos representavam apenas 15,5% da população. Para terem uma ideia, no bairro onde moro, em Portugal, meu filho é a única criança numa fileira de quatro prédios. Claro que é o astro da rua – e ele, leonino que é, adora.
Meu filho estuda em escola pública em Portugal. Alimentação, vestuário e lazer me parecem ligeiramente mais acessíveis aqui.
Embora em alguns aspectos seja mais barato ter filhos, a realidade em terras lusas não é tão diferente. A União Europeia registrou, em 2024, taxa de fecundidade de 1,34 filho por mulher, a menor desde o início da série histórica europeia.
Veja bem, com esses dados, não defendo que famílias tenham mais filhos. Cada pessoa tem o direito de escolher se quer ou não, e está tudo bem se optar por não ter. O que trago aqui é a possível ligação entre a queda da natalidade e a dificuldade em criar crianças em um mundo que muitas vezes as ignora e/ou hostiliza. Não é o principal fator, mas o contexto social pode, sim, impactar negativamente.
Na minha humilde percepção oficiosa, o que vejo é o espaço para crianças encolhendo tanto nas vidas de pessoas que conheço quanto nos ambientes coletivos que frequento.
Vivemos num sistema que empurra as crianças para um não-lugar. A sensação é de rumarmos para um estágio em que não haverá acolhimento nem incentivo para que esses pequenos existam plenamente no mundo. Só que nos esquecemos de um fator essencial: as crianças são o futuro da humanidade. Sem elas, como sobreviveremos enquanto espécie?
A lógica de consumo segmentado no sistema capitalista transformou a ausência de crianças em produto: vende-se silêncio, exclusividade e conforto como se a presença infantil fosse, por si só, um problema.
Urge reinserir esses pequenos seres na vida coletiva, protegê-los e encontrar mecanismos para que crianças e cuidadores se sintam integrados, respeitados e desejados enquanto seres sociais.
Clamo por um mundo onde crianças e cuidadores se sintam à vontade para entrar de cabeça erguida em espaços públicos e privados, sem aqueles olhares julgadores a cada movimento de uma criança sendo criança. Que a sensação de estar errado só pelo fato de ter uma criança ao lado seja substituída pela de pertencimento.
Quero políticas que obriguem restaurantes a oferecer opções voltadas ao público infantil, tanto nos menus quanto em atividades de lazer.
Quero regras que impeçam estabelecimentos abertos ao público de excluir crianças apenas por serem crianças. Quero fraldários acessíveis a mães e pais (sim, pai também troca fralda), cadeiras infantis disponíveis, espaços de espera mais acolhedores, empresas que respeitem a parentalidade e cidades pensadas também para quem anda com criança no colo ou de mãos dadas. Por que não?
Se o futuro da humanidade depende das crianças de hoje, sejamos, pois, uma sociedade kid-friendly. Como diria o sábio provérbio africano, “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”.
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*Lorena Gurgel é jornalista e potiguar.