OPINIÃO

Textão

Houve um tempo em que se escreviam cartas. De saudade, de lembrança, cartas de amor. Nem sempre ridículas, mas, sim, muitas vezes piegas. Tanto que se alguém além do sujeito amado as visse, era a vergonha eterna. Como lidar com a exposição de sentimentos tão íntimos? Isso de amor quem fala bem é o Chico Buarque. Deixe para a MPB cantar seus amores em voz alta.

Lembro de um caso desses. Fim da antiga 8º série. Havia uma moça desnivelada na turma e logo mais velha que a maioria de seus colegas. Ela tinha uma paixãozinha por um desses alunos mais moços, cuja chama da juventude tolhia qualquer resquício de sensibilidade.

Certa vez essa tal, romântica que era, escreveu uma carta para seu amado. E ele, indiferente que era, e ainda por cima cruel, jogou a carta aos leões. Entregou aqueles escritos para os colegas de turma.

Foi a piada da semana. Eu, alheia que era, já imaginava a prosa ridícula da carta de amor contrariado. Mas que surpresa ao descobrir! Não era prosa, e sim versos. Não eram sequer cunhados por ela, eram versos de Tom e Vinícius. Ridículos? Nem de longe.

“Eu sei que vou te amar

Por toda a minha vida eu vou te amar

Em cada despedida eu vou te amar

[…]

Mas cada volta tua há de apagar

O que esta ausência tua me causou”

Não houve volta, era uma carta de despedida. Nunca mais a vi. Não creio que continue amando moleques de 8º série. Talvez nem escreva mais cartas. Quem sabe textões em redes sociais?

E o curioso, se for o caso, é que o textão não requer segredo. Além de um alguém, o textão almeja likes e comentários. E, ao contrário do que sugere o nome, nem sempre carrega o peso de versos de Vinícius e Tom. É uma satisfação encaixada em uma vida registrada.

 

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Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras