Sobre Madonna, Leonardo, hipocrisia, inocência e a mulher objetificada
Natal, RN 24 de mai 2024

Sobre Madonna, Leonardo, hipocrisia, inocência e a mulher objetificada

8 de maio de 2024
5min
Sobre Madonna, Leonardo, hipocrisia, inocência e a mulher objetificada

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Tenho consciência que o assunto do momento é a tragédia das enchentes no Rio Grande do Sul, que deixaram parte da população em situação desesperadora. É hora, sim, de ajudar e ter solidariedade com o povo gaúcho, e no campo das palavras e textos, o que eu tinha a dizer sobre o assunto foi dito por jornalistas que respeito como Leonardo Sakamoto.

Portanto, voltarei neste espaço ao comportamento humano e sob um prisma que foi um dos assuntos mais comentados do final de semana, pela complexidade de aspectos que o cerca: o show de Madonna em Copacabana.

Mas vou partir de um ponto insólito: do recebimento por parte de vários amigos e em grupos progressistas de vídeos e fotos de shows do cantor Leonardo onde algumas de suas dançarinas estão com microvestidos e, supostamente, sem calcinha ou qualquer peça íntima. Ainda que estivessem com o chamado fio dental ou peças cor da pele, como depois algumas se defenderam, a intenção, seja do cantor seja de quem produziu ou vestiu as moças, é que a impressão fosse de nudez.

Nada de novo no front do pop-sertanejo, que assim como o forró pasteurizado sempre se valeu do erotismo e de moçoilas com pouca roupa em shows performáticos e pirotécnico, não obstante a maioria desses artistas desses dois segmentos serem normativos/conservadores.

O que me chamou a atenção foi a indignação dos amigos e amigas progressistas na comparação das reações dos "conservadores" com o show de Madonna e as dançarinas de Leonardo. "Com as moças nuas do sertanejo eles não se importam, mas com Madonna beijando trans, sim" e frases similares foram as que li e ouvi nesses dias. Argumentos lógicos e válidos, sim, mas desconectados do mecanismo que marca a progressão da caretice no Brasil e também como funciona o sistema patriarcal-machista.

A militância de esquerda é em boa parte bem intencionada em sua indignação mas é inocente. Porque ela mede os outros com a própria régua. Ela aponta e cobra uma hipocrisia que é óbvia, repito, mas que não funciona para o conservador de direita. Para esse pessoal, historicamente, o problema não é o erotismo, nem nudez ou pouca roupa, mas sim o empoderamento (ou falta de). Inclusive, uma parte dos progressistas acredita que Madonna mostra "excesso de sexo". Também uma visão equivocada de quem não deveria cair nessas armadilhas argumentativas que só beneficiam a extrema direita (quem há de dizer o que é "muito" ou "pouco" erotismo? Eu hein).

Para homens conservadores, mulher objetificada não tem problema e pronto. Mulher seminua mas em situação subalterna e como mero enfeite e objeto de olhares e desejo como nos shows sertanejos? Sem problema. Mulher nua em poses ginecológicas em revistas para deleite masculino? Tranquilo. Garotas de programa discretas, que atendem em hotéis e motéis e fazem tudo que quem as contrata pede e quer? Ótimo. Mulher-troféu, como as esposas de Michel Temer, Bolsonaros, empresários? Maravilhoso e até corriqueiro.

Para esse pessoal o problema está no empoderamento feminino e não na nudez; no prazer feminino, não no sexo. Na autonomia da mulher, não nos fatos concretos. Madonna de pernas abertas (moças decentes não ficam de pernas abertas em público, diziam nossas avós e tias), interagindo com outra mulher empoderada e dona de seu nariz e sua sexualidade (Anitta) ou simulando sexo grupal e beijando uma mulher trans incomoda porque ela está no comando, ela manda naquela bagaceira toda que gera milhões em dinheiro. Os mesmos cristãos indignados com isso passam pano para pastores que assediam e estupram fiéis ou nas surubas bíblicas (Davi e suas esposas, José com as duas irmãs e duas escravas delas, Salomão e seu harém) porque nessas situações o controle é masculino e as mulheres meros objetos.

Cristãos e/ou conservadores não se incomodam com sexo e erotismo na verdade, e sim com empoderamento, autonomia e liberdade. Sempre foi assim. Por isso Madonna incomoda desde os anos 1980, por isso Anais Nin, Florbela Espanca, Frida Kahlo, Leila Diniz, Simone de Beauvoir sempre incomodaram.

A tônica do conservadorismo é a hipocrisia? Claro. A cultura do "faça o que eu diga mas não faça o que eu faço" é terrível. Mas, o buraco é mais embaixo (ops) e remete a questões históricas e visão do mundo. Não é fácil mudar esse estado de coisas e creio que nem meus netos nem as netas da Madonna verão tal mudança. Mas a preço de hoje, é preciso não cair nas armadilhas de falsas simetrias e entender contextos sociais e históricos, como o que Madonna apresenta ao público em um palco. Liberdade, mais que erotismo, inclusive.

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