CULTURA

“Elza me fez olhar as mulheres de outra forma”, afirma Khystal, artista potiguar que interpretou Elza Soares em musical

O Brasil perdeu Elza Soares nesta quinta-feira, 20, e chora a morte de uma das maiores cantoras da história da música brasileira. Aos 91 anos de idade, Elza era dona de uma biografia rica de muito respeito e de um discurso extremamente político e potente. Morreu em casa, de causas naturais, com a consciência de quem disse e fez, em vida, tudo o que quis.

Ao longo de quase 70 anos de estrada, a trajetória artística de Elza Soares contabiliza 34 discos lançados e que conversam com o samba, jazz, bossa nova, eletrônica, hip hop e funk. Os dois últimos, já no fim da vida, são considerados pela crítica e pelo público marcos de uma época em que o autoritarismo volta a dar as caras e ouviu a voz de uma mulher preta dizendo: “basta!”.

Aliás, “A Mulher do Fim do Mundo” (2015) e “Planeta Fome” (2019) são recados diretos a um Brasil que, se no passado chegou a lhe virar as costas, teve que aprender a se curvar a uma mulher autêntica que não veio ao mundo a passeio.

Quem conviveu com Elza Soares não esquece. A cantora e compositora potiguar Khrystal interpretou a artista carioca no premiado espetáculo musical Elza, que contou no elenco com sete mulheres pretas de histórias diferentes e que viam na artista uma fonte de inspiração:

– Foi uma experiência maravilhosa, um divisor de águas para mim. Através da Elza tive contato pela primeira vez com um coletivo feminino que me fez olhar as mulheres de outra forma. Uma mulher revolucionária, resiliente, com uma história de vida incrível que morreu de causas naturais, aos 91 anos de idade… uma mulher que enterrou muita gente e viveu a vida de forma intensa”, contou a artista potiguar por telefone à agência Saiba Mais.

Ao atender a ligação, Khrystal disse, com a voz pausada, que estava emocionada com a notícia da morte da mulher quebrou tabus, enfrentou machismo, preconceito e ainda assim exalava amor:

– Elza falava com a gente de uma maneira amorosa, foi uma mulher preta das mais extraordinárias que nós tivemos, deixou um legado e vai continuar nos inspirando”, destacou.

Khrystal foi selecionada em 2018 para participar do espetáculo após ver um anúncio no instagram. Se inscreveu, fez o teste e passou. O primeiro encontro das atrizes com Elza ocorreu durante uma sessão de fotos para um jornal do Rio de Janeiro, na semana de estreia do espetáculo:

– Fizemos um trechinho da peça pra ela ver, ali mesmo, na sala de seu apartamento. Ela se emocionou, agradeceu muito e disse que no teatro já sabia que ia chorar bastante, o que de fato aconteceu. Nos desejou sorte e nos abençoou. Conversamos sobre a estreia, sobre a alegria dos encontros e sobre Roberto Taufic, que ela ama e eu também”, contou Khrystal à reportagem ainda em 2018.

Larissa, Júlia, Laís, Verônica, Janamô, Késia e Khrystal com Elza / foto: divulgação

Outros encontros aconteceram e, assim como há quatro anos, Khrystal lembra que o amigo Roberto Tauffic, que chegou a tocar com Elza, estava sempre na lembrança da artista:

– Nos encontramos muitas vezes porque ela foi ver a peça várias vezes em São Paulo, no Rio de Janeiro. Acho que ela só não foi assistir mais vezes porque se emocionava muito. Ficava perto da gente, nossos contatos foram sempre maravilhosos. E sempre que me via perguntava como estava Roberto Tauffic porque eles tocaram juntos, ela era muito atenciosa”, relembra.

Outro detalhe que chamou a atenção de Khrystal é que, por vezes, acreditava que Elza não tinha a dimensão do papel político e do quanto representava para o país:

– Elza era uma pessoa com um discurso político muito forte e eu achava que ela não tinha consciência da dimensão política que tinha. Algumas pessoas são assim”, reflete.

Khrystal conheceu e mergulhou na vida de Elza Soares como nenhuma outra artista ou mulher potiguar. Foram dois anos de espetáculos, reconhecimento, aplausos e emoção até que a pandemia freou o projeto. Do encontro, restou o carinho e a certeza de que algo mudou:

– Para trabalhar na peça eu precisei conviver só com mulheres. E isso nunca havia acontecido na minha vida. Sou de uma família que tinha muitas mulheres e homens também, era tudo junto. Mas ali eu era obrigada, no melhor sentido, a trabalhar só com mulheres, e assim foram dois anos ininterruptos da minha vida. Então eu olhava para as outras meninas e a convivência com elas me acordou para várias coisas, como a sororidade, de achar que somos aliadas, e não inimigas”, diz.

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Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"