No Governo Bolsonaro, fome se alastra e 33 milhões de brasileiros não têm o que comer
Natal, RN 17 de jul 2024

No Governo Bolsonaro, fome se alastra e 33 milhões de brasileiros não têm o que comer

8 de junho de 2022
5min
No Governo Bolsonaro, fome se alastra e 33 milhões de brasileiros não têm o que comer

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Entre 2020 e 2022, o número de pessoas que passam fome no Brasil saltou de 19 milhões para 33,1 milhões. É o que mostra o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, feito pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan). Os dados foram divulgados nesta quarta-feira e mostram que mais da metade da população brasileira – 58,7% – vive com algum tipo de insegurança alimentar.

E mais: segundo analistas, os números apontam que o Brasil regrediu para um patamar de insegurança alimentar equivalente ao da década de 1990, ou seja, 15,5% da população no país não tem o que comer. Apenas quatro entre 10 famílias brasileiras têm acesso pleno à alimentação.

Os números são fruto da pesquisa feita pelo Instituto Vox Populi, que realizou entrevistas em 12.745 domicílios de 577 municípios de todos os estados brasileiros. A pesquisa, que teve apoio da Ação da Cidadania, a ActionAid Brasil, a Fundação Friedrich Ebert Brasil, o Ibirapitanga, a Oxfam Brasil e o Sesc, coletou depoimentos entre novembro de 2021 e abril de 2022.

Os números mostram que 125,2 milhões de pessoas no Brasil estão passando por algum nível de insegurança alimentar. Essa classificação inclui pessoas que estão passando fome e aquelas que estão preocupadas por não saber se terão o que comer no dia seguinte. O número de pessoas nessa situação aumentou 7,2% desde 2020, e 60% desde 2018.

Situação é pior no Norte e Nordeste

E a situação é ainda mais grave no Nordeste e Norte do Brasil, que são as mais atingidas pela fome. No Norte, 25,7% das famílias passam fome e no Nordeste esse índice é de 21%. Em números absolutos, o Nordeste registra mais pessoas com fome: são 12 milhões em situação de insegurança alimentar grave.

Ao serem entrevistadas, 8,2% das famílias relataram sentir vergonha, tristeza ou constrangimento pelos meios que estão tendo de usar para conseguir colocar comida na mesa. Segundo elas, "a situação fere sua dignidade".

Famílias negras e chefiadas por mulheres são as mais atingidas pela fome

A pesquisa também destaca que as famílias negras e chefiadas por mulheres são as mais atingidas pela falta de comida. 65% dos domicílios comandados por pessoas pretas e pardas convivem com restrição de alimentos em qualquer nível; e 63% dos lares com responsáveis mulheres apresentaram algum patamar de insegurança alimentar.

Algumas opiniões sobre os dados publicados na imprensa nacional:

Francisco Afonso, diretor-executivo da ONG Ação da Cidadania - "Betinho estaria horrorizado, se estivesse vivo, ao ver que voltamos a uma estaca menor que zero, nós pioramos", diz Rodrigo Afonso, diretor-executivo da ONG Ação da Cidadania, citando o sociólogo e ativista dos direitos humanos Herbert José de Sousa, o Betinho, que criou projeto contra a fome, a miséria e pela vida em 1993.

Francisco Afonso, da Ação da Cidadania, diz que houve uma mudança de foco na política de alimentos no país no governo Jair Bolsonaro (PL), que afetou a produção de alimentos, e regulação de estoques públicos. "Houve uma ação para privilegiar o agronegócio exportador em detrimento da agricultura familiar. Todas as políticas públicas foram melhores para o agronegócio, com menos apoio e redução na produção dos alimentos. Só o feijão, nos últimos anos, perdeu 70% de sua área", avalia.

Ana Maria Segall, pesquisadora - A pesquisadora Ana Maria Segall, que participou do inquérito, pondera que não é possível cravar que estamos piores que em 1993, já que a metodologia usada à época era mais restritiva e falava sobre risco de fome —não da fome em si, como hoje. "O que podemos dizer com certeza é que está pior que em 2004, quando as pesquisas começaram a ser feitas com essa metodologia", diz a pesquisadora Ana Maria Segall. Ela acrescenta que, apesar de os pesquisadores esperarem um resultado pior do que o de 2020, todos ficaram "horrorizados" com o resultado de 33,1 milhões de pessoas com fome. "Isso nos dá um sentimento de muita indignação. E o que mais chama atenção é a velocidade da fome, considerando o intervalo entre um levantamento e outro."

Níveis de Insegurança Alimentar:

41,3% dos brasileiros têm Segurança alimentar: quando há acesso regular e permanente a alimentos de qualidade e em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais.

28% dos brasileiros têm Insegurança alimentar leve: quando há preocupação ou incerteza quanto ao acesso aos alimentos no futuro, com qualidade inadequada resultante de estratégias que visam não comprometer a quantidade de alimentos.

15,2% dos brasileiros têm Insegurança alimentar moderada: quando há redução quantitativa de alimentos entre os adultos e/ou ruptura nos padrões de alimentação resultante da falta de alimentos.

15,5% dos brasileiros têm Insegurança alimentar grave: quando há redução quantitativa de alimentos entre as crianças e/ou ruptura nos padrões de alimentação resultante da falta de alimentos.

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