OPINIÃO

O silêncio de um dia qualquer

“Vai passando ovos. Ovos na sua rua”. O som abafado do carro velho que se arrasta pelas ruas do bairro me desperta desse torpor de ânsia de mar, enquanto sigo para o trabalho, após uma hora e dez de espera pelo ônibus. E essa demora não é exceção. É a regra. E eu me lembro de Cecília Meireles: “Dai-me Senhor, a perseverança das ondas do mar, que fazem de cada recuo, um ponto de partida para um novo avançar”. Quando as palavras me custam um olhar mais apaziguado, costumo lembrar de pequenos fragmentos de coisas lidas. É como se fosse uma espécie de esparadrapo que eu coloco no vazio das minhas próprias palavras. Ser escritor é, também, padecer nesses silêncios, que eu ouso dividir com você que agora me lê.

Um rapaz, um híbrido de corpo jovem num rosto sulcado pelas ruas, entra no ônibus para pedir. Ele usa um termo que me inquieta: “Ei, chegado! Eu sou morador de rua. Já roubei. Já fui pra cadeia certo, chegado? E eu queria que vocês me ajudassem a completar os dez reais que eu preciso para comprar jujubas no Alecrim e sair vendendo por aí”. E segue em seu discurso passivo-agressivo, que não sabemos se é um pedido de socorro ou uma ameaça. Talvez as duas.

Fecho os olhos. A trepidação daquela velha máquina de engolir e cuspir pessoas em pontos de parada me causa desconforto. É como se meu cérebro balançasse junto com as ferragens soltas. A palavra “chegado” me causa fascínio e estranhamento. Ela cria uma espécie de falsa cumplicidade entre ele e as outras pessoas. Algumas se compadecem e lhes dão alguns trocados. Tão logo ele consegue inteirar-se dos dez reais, fica marrento, gabola, falastrão. Olho pra ele. O rosto empoeirado esconde olhos absolutamente infantis. Quase vejo a falta, ou o excesso, em seus desejos de vida e morte. O médico húngaro Sándor Férenczi, um dos mais íntimos colaboradores de Freud na sua revolucionária invenção moderna, a psicanálise, nos presenteou com a seguinte metáfora no ensaio “Transferência e Introjeção”, que diz: “raspem o adulto e vocês encontrarão a criança”.

Raspo ligeiramente toda aquela carcaça de fuligem e lodo e vejo o menino que quer comprar jujubas para “não usar drogas”, é o que ele insiste em dizer, mesmo que ninguém tenha perguntado. Sinto-me impotente, derrotada, envergonhada por devotar uma empatia passageira, já que meu ponto se aproxima e puxo o varal, nu de roupas, que apita e aciona a lâmpada que faz o motorista parar. A criança que habita em mim, lembra imediatamente de uma vez que minha mãe disse que eu não deveria puxar aquela cordinha, porque o ônibus parava. E eu fiquei encantada, afinal de contas, como é que uma simples corda poderia ter tanta força para parar um ônibus daquele tamanho?

Tem dias, como hoje, que a eloquência abre espaço para uma infinita necessidade de nada dizer. Não tenho nada a dizer. Tema algum, arrastado por essa vida pandêmica, política, social, econômica e contemporânea poderia dar contorno, sentido ou ser maior ou mais importante que a minha infinita necessidade de silêncio: essa caixa de guardar gritos invisíveis, de frases não pronunciadas e de dores decantadas por dentro das paredes da pele.

Chego ao trabalho. O barulho das teclas. O burburinho de pessoas falando. Uma buzina ao fundo, do outro lado da rua. Um colega cantarola baixinho uma música da Rihanna. A máquina elétrica ronca um alerta de que o café está pronto. Da janela, o céu empoeirado de nuvens faz os alérgicos, como eu, espirrarem. O ruído quase discreto do ar-condicionado, e sua mentira de 22 graus celsius, arrepiam os pelos do braço. A rotina, essa máquina de moer sonhos, não para.

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Jornalista e psicanalista