DEMOCRACIA

Eleição no RN tem irmã bolsonarista e irmão petista em disputa por vaga na Câmara

Ele chegou a estudar engenharia na juventude. Largou o curso, foi para Medicina, se formou e hoje é médico infectologista em Natal-RN. De esquerda, foi candidato ao Senado pelo PT em 2018, onde recebeu mais de 240 mil votos e ficou na sexta colocação. Em 2020, também foi pré-candidato à Prefeitura de Natal pelo mesmo partido, mas o nome escolhido pela sigla foi o do atual senador Jean Paul Prates. Hoje, é pré-candidato a deputado federal pelo partido de Lula.

Ela seguiu os passos do pai, um militar do Exército reformado que é referência para os dois filhos. É farmacêutica, bioquímica e capitã da Polícia Militar. Atualmente, é filiada ao PL, partido comandado no Rio Grande do Norte pelo deputado João Maia e que tem o ex-ministro Rogério Marinho como um dos principais quadros. Nestas eleições de 2022, vai se lançar a uma disputa eleitoral pela primeira vez, concorrendo à Câmara Federal pelo partido de Jair Bolsonaro.

Seus nomes: Alexandre Motta e Carla Câmara, dois irmãos que, apesar das divergências políticas, pregam um respeito mútuo e um carinho pela relação familiar. “Particularmente, são pontos de vista que, principalmente no tocante a defesa do governo atual, para mim é ruim. Mas eu respeito e continuo voltando a dizer: minha irmã continuará sendo minha irmã independente da posição que tenha. Como, aliás, nós sempre tivemos. Nós nunca ficamos fiscalizando voto um do outro”, afirma Motta. 

Câmara segue a mesma linha. “Eu e Alexandre sempre fomos muito amigos. Existe uma diferença de idade de cerca de dez anos, mas ele sempre foi muito protetor, então é um irmão que eu quero muito bem. Nunca tive nenhum problema. Eu tenho um pensamento político, ele tem outro pensamento mas nunca, absolutamente, aconteceu uma discussão”.

O convite para que a capitã da PM fosse candidata a deputada federal foi recente. Há cerca de 40 dias, segundo ela, o presidente estadual do PL, João Maia, a procurou. Depois foi a vez de Rogério Marinho a buscar. “Fiquei muito insegura quanto a isso porque nunca tinha passado na minha cabeça antes de tomar a decisão de aceitar. Eu conversei com meu pai e a segunda pessoa com quem eu conversei foi com o Alexandre”, relembra.

A resposta do irmão, diz Carla, veio acompanhada de um “textão”. “Mas no final, o último parágrafo falava que ele respeitava a minha opinião e que ele nunca mais tocaria nesse assunto comigo nem com ninguém da minha família. E que ele respeitava a minha opinião. Isso foi o mais importante pra mim”. O irmão petista reafirma sua posição. “Eu coloquei o que eu achava. O meu entendimento é que ela tem autonomia, e vai continuar minha irmã depois dessa campanha”.

Com visões de mundo distintas, os irmãos se blindam de possíveis discussões. Em tempos de brigas em grupos de família no Whatsapp, os dois dizem que, na internet e em casa, a política é um assunto que não entra. 

“Você acredita que não existe isso de discussão em grupo de família, e muito menos comentários de política em grupo de família?!”, avisa Carla. “O meu pai é um homem que nos ensinou muito sobre o respeito. Ele não gosta de discussão e nós filhos realmente crescemos obedecendo. E o meu pai pediu aos filhos para que não houvesse discussão lá em casa quanto a religião e quanto a política. Então esse é um assunto que realmente não é comentado lá em casa”, opina. 

Já Alexandre, quadro experiente do PT e com envergadura de outra eleição, costuma gravar vídeos e soltar nas redes sociais. Mas nos grupos familiares, nem pensar. “Eu jamais postei nada dos meus vídeos que eu produzo nos grupos de família. Quando eu tinha que mandar, mandava individualmente. Minha irmã, por exemplo, está na minha lista de transmissão, e eu mando pra ela os vídeos. Ela vê, eventualmente comenta. Mas eu nunca postei [nas redes familiares] exatamente por respeitar as pessoas da minha família que pensam diferente de mim”, assegura.

Bolsonarista, Carla votou em Bolsonaro e Alexandre em 2018

As bandeiras políticas dos irmãos, naturalmente, são opostas. Apesar disso, as diferenças não impediram que no último pleito federal Carla depositasse, ao mesmo tempo, um voto no 17 de Bolsonaro para presidente, e no 131 de Motta ao Senado, número que utilizou à época. Agora, vai reafirmar o voto em Bolsonaro, enquanto Alexandre deve apertar o 13 de Lula. 

Conservadora, a militar finca sua defesa em favor de “Deus, pátria, família e liberdade”. Na última visita de Bolsonaro ao Rio Grande do Norte, onde participou da “Marcha com Jesus pela Liberdade”, a Capitã Carla foi ao evento e aproveitou para tietar o presidente, exibindo orgulhosa uma foto nas redes.

Médico, Alexandre deve focar sua campanha em temas ligados à área da saúde e trabalho. No discurso da convenção Brasil da Esperança, que aconteceu no último sábado (23), reafirmou a defesa do Partido dos Trabalhadores e do ex-presidente Lula. “Eu sou de um partido acostumado a superar o impossível”, afirmou. 

“Eu acho que se eu e Alexandre pudermos ser um bom exemplo, que sejamos esse bom exemplo na pluralidade e no respeito quanto às opiniões dos outros”, diz a irmã bolsonarista. “Ela pensa pela própria cabeça, é uma pessoa que tem as posições dela, e eu respeito e continuo gostando dela”, diz o irmão petista. 

 

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