TRABALHO

UFRN é líder na autoria de patentes nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país 

Professora orientadora do estudo I Foto: Cícero Oliveira/UFRN

Foi durante a pesquisa de doutorado que Iris Oliveira, hoje professora e chefe do Departamento de Engenharia Têxtil da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), desenvolveu a técnica de uso de nanotecnologia para tingimento de tecidos que, este ano, acabou sendo patenteada junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).  

Através dela, além de conseguir tingir tecidos em maior quantidade com máquinas já em uso no mercado, a técnica também permite agregar outras qualidades ao tecido, como proteção ultravioleta. Ao invés de utilizar corantes, como a indústria têxtil costuma fazer, a pesquisadora da UFRN testou o uso de nanopartículas de ouro e prata para tingir tecidos. 

Hoje a indústria utiliza corantes sintéticos, com tingimento através das técnicas de impregnação ou esgotamento, que é semelhante àquela que as pessoas fazem em casa, quando compram a tinta e colocam com o tecido em panela de água quente. Nós conhecemos o ouro naquela cor tradicional, mas quando modificamos suas partículas em nano, elas passam a ter outras colorações”, detalha Iris Oliveira. 

Nanopartículas, como o nome sugere, são partículas muito pequenas, com tamanho entre 1 e 100 nanômetros, que equivale a um bilionésimo de metro. O pedido de patente da professora e pesquisadora do Departamento de Engenharia Têxtil da UFRN foi realizado em 2015, mas a aprovação saiu apenas este ano. Apesar da demora nesse tipo de avaliação, pela primeira vez, a UFRN como a instituição de ensino líder em concessões de patente das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil.  

O resultado foi publicado na terça (27), na última Revista da Propriedade Industrial (RPI) do ano, que equivale a um Diário Oficial na área de Propriedade Industrial. A UFRN ficou à frente da Universidade de Brasília (UnB), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), da Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Federal do Pará (UFPA) e Universidade Federal da Bahia (UFBA), além de outras instituições de peso. 

Na primeira vez que a Universidade recebeu sua primeira concessão, ainda em 2014, outras instituições de ensino do Nordeste já contavam com mais de dez desses registros de propriedade – era o caso da Universidade Federal de Sergipe. Quatro anos depois, em 2018, a UFRN passou a ser líder nas regiões Norte e Nordeste. Após mais quatro anos, a instituição não só manteve o posto, como ampliou sua liderança, também, sobre a região Centro-Oeste. 

A UFRN tem alcançado relevantes avanços no campo da inovação, que são fruto de um esforço institucional ao longo dos últimos anos. Para nossa Universidade, estar em posição de destaque é motivo de celebração, principalmente, porque significa a conquista de metas que fazem cumprir nossa missão social no fomento do desenvolvimento socioeconômico do estado e do país, por meio da educação, ciência e tecnologia”, comemora o reitor em exercício da UFRN, Henio Ferreira de Miranda. 

Em 2022, a UFRN recebeu um total de 13 concessões do INPI e fez 25 depósitos de patentes, que são os pedidos de reconhecimento da titularidade da técnica ou produto desenvolvido. É a patente que garante a seu titular a exclusividade de uso, comercialização, produção e importação de determinada tecnologia no Brasil.  

Microdrone 

Microveículo Aéreo não Tripulado (Microvant) tem dimensão inferior a 30 centímetros e peso inferior a 200 gramas – Foto: Cícero Oliveira/UFRN
Microveículo Aéreo não Tripulado (Microvant) tem dimensão inferior a 30 centímetros e peso inferior a 200 gramas – Foto: Cícero Oliveira/UFRN

Um Microveículo Aéreo não Tripulado, chamado Microvant, com características que permitem seu uso em missões militares, áreas de monitoramento agrícola, reconhecimento de locais de difícil acesso, além de monitoramento de fronteiras, busca e salvamento em desastres, recebeu em novembro o registro de propriedade intelectual definitivo. Apesar de ter tamanho e peso reduzidos, o equipamento tem grande autonomia de voo e é capaz de levar uma carga para realizar missões autônomas, trazendo informações ao usuário. 

Aluno do doutorado do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica e de Computação da UFRN, Alysson acrescenta que o Microvant possui baixo risco durante a operação e simplicidade no uso, diminuindo a burocracia e facilitando sua aplicação em áreas povoadas. O orientador da tese que resultou na patente, Luiz Marcos Garcia Gonçalves, contextualiza que a invenção também apresenta baixo custo de produção e manutenção, com decolagem por lançamento manual e pouso sem necessidade de pistas apropriadas, além de baixo RCS (Radar Cross Section) ou baixa resposta a radar, tornando-a útil em aplicações militares. 

Gráfico: UFRN
Gráfico: UFRN

PEDIDOS EM ANDAMENTO: 

Sacos contra incêndio 

Além das 13 patentes já concedidas este ano, há uma série de solicitações feitas por pesquisadores da UFRN aguardando resposta. A própria professora Iris Oliveira, que desenvolveu a técnica de aplicação da nanotecnologia no tingimento de tecidos, aguarda o patenteamento de um outro trabalho desenvolvido em parceria com os pesquisadores Natália Oliveira Fonseca e Francisco Claudivan da Silva, com orientação da professora Késia Karina de Oliveira Souto Silva, do Departamento de Engenharia Têxtil da UFRN. 

O grupo criou uma nova utilização para os sacos de areia, utilizados habitualmente na contenção de enchentes. Com a modificação do material utilizado na confecção dos sacos, eles passaram a ser mais resistentes, também, ao fogo. Com isso, eles poderiam ter uma aplicação prática na contenção de incêndios florestais e condomínios, por exemplo, o que daria maior tempo a vítimas e socorristas para desocupar áreas em chamas, aumentando as chances de salvamento. 

Covid-19 

Também foi realizado em outubro o pedido de patente de uma nova tecnologia, fruto de uma proteína multifuncional isolada das sementes de tamarindo (ITTp 56/287), que pode vir a ser utilizada como potencial agente anti-SARS-CoV-2, vírus que causa a covid-19. 

Os pesquisadores desse projeto são vinculados ao Programa de Pós Graduação em Bioquímica e Biologia Molecular e ao grupo de pesquisa Nutrição e Substâncias Bioativas para Saúde (NutriSBioativoS), o estudo que deu origem ao patenteamento contou com a colaboração do Laboratório Grupo de Química Teórica (GQT) da UFC e a participação de Anna Beatriz Santana Luz e Ana Heloneida de Araújo Morais, ambas nutricionistas e professoras da UFRN, além da colaboração de Norberto de Kássio Vieira Monteiro, co-orientador da tese e professor do Departamento de Química Analítica e Físico-Química da Universidade Federal do Ceará (UFC). 

Marcapasso 

Cenas de pessoas com sintomas de parada cardíaca sendo submetidas a choques elétricos na tentativa de reanimação são comuns. Mas, para o correto funcionamento dessa terapia, são necessárias aplicações de alta energia elétrica, o que implica em desconforto, estimulação muscular e complicações como queimaduras na pele, o que limita o uso.   

Para ser tolerada pelo paciente, é preciso fazer uso de analgésicos, o que faz com que ela seja utilizada nos casos em que haja uma pressão arterial persistentemente anormal ou instável; a instabilidade hemodinâmica, típica nas situações de emergência, e, além disso, restrita a ser utilizada apenas por poucas horas, por exemplo, como ponte para implante do marca-passo transvenoso – dispositivo temporário que usa uma veia para ‘controlar’ os batimentos. 

Para driblar essas questões, três cientistas da UFRN inventaram um dispositivo para estimulação mecânica cardíaca transtorácica, com função de marcapasso. Inovador e com aplicação industrial, o equipamento teve o pedido de patente realizado no mês de outubro e é composto por um estimulador mecânico e um controle eletrônico. O professor Guilherme Augusto de Freitas Fregonezi, coordenador do grupo, explica que o método para uso clínico da invenção é similar ao marcapasso elétrico transcutâneo, em que se faz o ajuste da energia necessária para captura ventricular individualmente. 

Nanotecnologia da Caatinga 

Renato mostra protótipo da formulação – Foto: Cedida/Pesquisa
Renato mostra protótipo da formulação – Foto: Cedida/Pesquisa

Uma formulação farmacêutica e cosmética inovadora, na forma de hidrogel, teve o pedido de patente depositado junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) no mês de novembro por cientistas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A invenção contém como ativo um insumo vegetal obtido das cascas do caule de Commiphora leptophloeos, conhecida popularmente como imburana, uma espécie nativa da Caatinga e do Cerrado, dois dos biomas brasileiros. 

O insumo ativo foi obtido a partir de um subproduto da espécie, visto que a madeira do caule é amplamente utilizada na indústria moveleira para a confecção de portas, janelas e móveis. Coordenadora da equipe de pesquisadores, Silvana Maria Zucolotto Langassner realça que a nova tecnologia apresenta aplicação na área da saúde, mais especificamente no tratamento de infecções fúngicas causadas por fungos do gênero Candida.

Nós testamos a formulação em modelos experimentais pré-clínicos in vitro de infecção causada por fungos do gênero Candida e in vivo em modelos de inflamação aguda tópica. Em ambos os casos, os testes apresentaram atividades antifúngicas e anti-inflamatórias satisfatórias, sendo notificada a inibição de células fúngicas isoladas de fluidos vaginais, como também na redução dos edemas locais. Além disso, os insumos se mostraram seguros com baixa citoxicidade”, explica Silvana Maria Zucolotto.

O fungo Candida se aloja comumente na área genital, provocando coceira, secreção e inflamação na região, com sintomas que remetem à infecção candidíase. Usualmente, o micro-organismo vive normalmente no corpo sem causar danos, mas, em situações de desequilíbrio, aumenta a população e passa a ser danoso. Esses fungos gostam de ambientes quentes e úmidos, por isso se proliferam em pontos com dobras no corpo ou espaços do corpo que são mais propensos ao acúmulo de umidade.

Renato Dantas De Medeiros, autor da tese de doutorado que resultou na nova tecnologia, tendo participado da obtenção e desenvolvimento do insumo, desenvolvimento e caracterização da formulação e avaliação da atividade antifúngica, fala que o uso de plantas para o tratamento tópico de doenças vaginais, como a candidíase, e de distúrbios da pele se mostra altamente promissor, visto que apresentam potente efeito terapêutico, menos efeitos adversos e independência na produção da matéria-prima em território brasileiro, desde o cultivo até o produto que será comercializado.

“Até o momento não tem nenhum insumo, cosmético ou fitoterápico, registrado na Anvisa que contenha como princípio ativo o extrato da casca do caule de C. leptophloeos. Por fim, desenvolver insumos com plantas nativas do Brasil pode contribuir para o fortalecimento da cadeia produtiva nacional e diminuir a dependência do Brasil em relação a outros países”, destaca Renato Dantas De Medeiros, estudante do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Inovação Tecnológica em Medicamentos (PpgDITM) e autor da tese de doutorado que resultou na nova tecnologia. Atualmente, Renato faz estágio doutoral na Universidad Complutense Madrid, na Espanha, com bolsa pelo Programa Capes PrInt.

Com extensa produção acadêmica, esse é o décimo pedido de patente com participação de Silvana Zucolotto – Foto: Cedida/Pesquisa
Com extensa produção acadêmica, esse é o décimo pedido de patente com participação de Silvana Zucolotto – Foto: Cedida/Pesquisa
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