Artista de hip hop que receberá homenagem na Câmara de Natal é impedido de entrar com vestes do movimento e denuncia preconceito
Natal, RN 14 de jul 2024

Artista de hip hop que receberá homenagem na Câmara de Natal é impedido de entrar com vestes do movimento e denuncia preconceito

26 de abril de 2023
5min
Artista de hip hop que receberá homenagem na Câmara de Natal é impedido de entrar com vestes do movimento e denuncia preconceito

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Prestes a ser homenageado nesta quarta-feira (26) com o título de cidadão natalense pela Câmara Municipal de Natal, o educador popular e artista de hip hop Miguel Carcará foi impedido pela presidência da Casa de entrar no local com as vestes típicas do movimento. Para ele, a atitude é um gesto de preconceito.

Natural de João Pessoa, na Paraíba, Miguel atua com o hip hop na capital potiguar há cerca de 20 anos. Pedagogo de formação, coordena o Movimento Cultural Nossos Valores na comunidade da África, na Redinha, em que ensina cultura hip hop para as crianças, além de break dance, grafite e outras vertentes. Por isso, recebeu o convite para ser homenageado com o título de cidadão natalense do mandato do vereador Milklei Leite (PV). 

Ao conversar com o parlamentar, Carcará explicou as especificidades de vestimenta do grupo e Leite encaminhou um memorando à presidência da Câmara, comandada por Eriko Jácome (MDB), em que pede a flexibilização para a entrada no prédio.

No documento, Milklei solicita a permissão de entrada de pessoas trajadas de bermudas e bonés na Câmara.

“O homenageado em questão é notoriamente conhecido por ser um líder do movimento Hip Hop, artista das artes urbanas e Rapper, tendo em vista que seu estilo de vida e forma de vestir são característicos, utilizando-se principalmente de bermudas e bonés, é natural que seus pares possam também trajar vestimentas ‘não apropriadas’ na visão de alguns para esta Casa Legislativa”, argumenta o vereador.

A resposta enviada pela Câmara não foi a esperada:

“Em que pese os fundamentos expostos pelo Ilmo. Vereador, atualmente não é permitida a entrada de pessoas de bermuda no palácio Frei Miguelinho, de forma que mesmo que os homenageados se vistam comumente assim, esta Casa Legislativa possui regras internas que precisam ser mantidas, sendo dessa forma necessária a adequação na vestimenta das pessoas que adentrem neste recebimento”, justifica. 

“Preconceito”, diz Miguel Carcará

Para o militante do hip hop, a atitude nada mais é do que um preconceito.

“A gente já recebeu vários preconceitos. O hip hop é uma cultura de resistência, é uma cultura contemporânea. Está fazendo 50 anos agora que existe no Brasil, então o hip hop vem já desse combate desde a sua origem. Não fiquei surpreso [com a negativa], mas fiquei a fim de indagar a nossa realidade, porque na verdade quando a gente foi buscar o embasamento disso aí a gente entendeu que não existe nenhuma regulamentação que fale especificamente sobre a roupa”, diz.

“E a nossa cultura carrega a sua identidade também com a roupa, assim como qualquer outra cultura popular. Se você for comparar, um Boi de Reis tem vestes específicas, um coco tem uma veste específica, os indígenas têm veste específica, e a cultura hip hop também tem isso”, explica.

Casa do Povo

Para o militante, a proibição por parte da presidência da Câmara causou surpresa por acontecer ainda em 2023.

“Quando a gente fez o memorando, a gente foi bem delicado nessa questão informando sobre essa especificidade, e a gente achava que ia ter um resultado positivo pela compreensão e pela explicação falando dos fatos”, comenta. 

“Mas isso aí também se torna a nossa luta, mostra que apesar da homenagem que está sendo feita em meu nome, percebo que ainda existe sim, isso fica claro para toda a sociedade, que existe sim um preconceito sobre nós”, aponta.

Mesmo com a proibição, Carcará e seus parceiros da cena do hip hop pretendem entrar na Câmara ainda com bermuda e boné.

“Eu vou com minha roupa normal, que eu me visto no dia a dia, e todo mundo que tá comigo vai assim também. Não é uma coisa provocada, é uma coisa natural, porque é assim que a galera se veste. É o povo de Natal. Se é a casa do povo, eu acho que o povo tem direito de entrar. A gente não tá exigindo nenhuma coisa que seja acima da lei, que fira os princípios da Constituição. A gente só tá pedindo licença para entrar educadamente”, explica.

O que diz a Câmara

Procurada, a presidência da Câmara informou que consultou a Mesa Diretora, que é responsável pelas questões administrativas, para analisar a possibilidade de liberação do uso de bermudas pelo grupo. 

“Contudo, a resposta da Mesa Diretora foi no sentido de resguardar o disposto no Regimento Interno, que prevê a não liberação da entrada de pessoas trajadas com bermudas no recinto da Câmara Municipal de Natal”, diz a nota.

Segundo a presidência, a medida tem o objetivo de preservar a ordem e a solenidade das sessões legislativas, bem como manter o respeito ao Regimento Interno e às normas estabelecidas pela Casa.

“A Presidência da Câmara Municipal de Natal reitera seu compromisso com a democracia e com a participação popular, mas destaca que, em alguns casos, é necessário observar as regras e normas instituídas para o bom funcionamento do Poder Legislativo”, informa.

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