Ednaldo Martins: “minha relação com a Rádio Universitária FM não era só profissional, mas afetiva”
Natal, RN 13 de abr 2024

Ednaldo Martins: “minha relação com a Rádio Universitária FM não era só profissional, mas afetiva”

25 de junho de 2023
12min
Ednaldo Martins: “minha relação com a Rádio Universitária FM não era só profissional, mas afetiva”

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Minha relação com a Rádio Universitária FM não era só profissional, mas afetiva”. É assim que o radialista Ednaldo Martins define o vínculo de 23 anos de trabalho que manteve com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), através da Fundação Norte-Rio-Grandense de Pesquisa e Cultura (Funpec). A tentativa de desligamento do quadro profissional da emissora já havia acontecido em 2019, mas um movimento encabeçado por músicos, artistas e ouvintes da rádio resultaram na permanência de Ednaldo até junho deste ano, quando sua história na instituição foi oficialmente interrompida.

Isso porque, com o entendimento da importância da comunicação na cena cultural do Rio Grande do Norte, Ednaldo se destacou na promoção dos talentos potiguares. Ao longo de mais de duas décadas de carreira, Ednaldo se tornou um patrimônio vivo da cultura local, enfrentando desafios e contribuindo para a valorização dos artistas do estado.

Em uma entrevista exclusiva à Agência Saiba Mais, Ednaldo Martins, compartilhou sua trajetória e experiências ao longo de mais de duas décadas de carreira, falou sobre o futuro e agradeceu a retomada do movimento artístico por sua reinserção na Rádio Universitária FM, com a elaboração e circulação de um abaixo-assinado contra a sua demissão da emissora.

Entre os tema abordados, a divulgação dos talentos locais. Esse era um desafio, pois havia o estigma de que a música produzida no Rio Grande do Norte não possuía qualidade. No entanto, a Rádio Universitária, onde Ednaldo trabalhou desde sua inauguração, foi fundamental para mudar essa percepção. A emissora quebrou paradigmas, proporcionando visibilidade aos artistas que antes não encontravam espaço para mostrar seu talento. Através do acolhimento e amor pela música e cultura potiguar, Ednaldo Martins conquistou respeito e consolidou seu papel como um dos principais porta-vozes desse importante segmento artístico.

Além de seu trabalho no rádio, Ednaldo também assumiu a bancada do telejornal TVU Notícias. Essa experiência foi um grande desafio para ele, pois sempre se enxergou como um profissional do rádio. No entanto, aceitou o convite e, aos poucos, se familiarizou com o ambiente da televisão.

No cargo de Gerente de Promoção Institucional da Rádio e TV Universitária, Ednaldo Martins foi responsável por eventos marcantes, como os aniversários das duas emissoras, que contaram com a participação de artistas locais. Para realizar esses eventos, enfrentou o desafio de buscar parcerias e recursos, angariando apoio na iniciativa privada e enquadrando os eventos na lei de incentivo à cultura.

Confira a entrevista na íntegra.

SAIBA MAIS: Ao longo de mais de duas décadas, você se tornou um profissional respeitado e um verdadeiro patrimônio vivo da cultura do Rio Grande do Norte. Conta um pouco mais sobre os desafios na divulgação e promoção dos talentos potiguares ao longo desses anos?

EDNALDO MARTINS: A respeitabilidade eu atribuo ao trabalho de acolhimento que desenvolvemos ao longo do tempo e claro, amor verdadeiro pela nossa música e pela nossa cultura. Eu estou na Universitária desde antes da emissora ser inaugurada e no início não foi fácil, porque na época, o conceito que existia em relação a artista local era de que não se produzia música com qualidade no estado. A rádio chegou mudando essa concepção. Eu lembro de alguns ouvintes ligando para a rádio perguntando de onde era aquele cantor (a) que estava tocando e quando informávamos que era de Natal eles ficavam perplexos. A Universitária verdadeiramente quebrou paradigmas e deu visibilidade a artistas que antes não possuíam espaço para mostrar seu talento.

SAIBA MAIS: Além da rádio, você também ocupou a bancada do telejornal TVU Notícias. Como foi essa experiência e como você conciliou suas atividades no rádio e na televisão?

EDNALDO MARTINS: Foi um grande desafio para mim, sair do estúdio de rádio e assumir a bancada de um telejornal. Até porque sempre me enxerguei como um profissional do rádio. Apesar de ser Jornalista, aquela era uma experiência nova e me tirou da zona de conforto. Mesmo assim, aceitei o convite e aos poucos fui me familiarizando com as luzes, as câmeras... É verdadeiramente um trabalho em equipe. Sem dúvida a experiência do rádio me ajudou muito na TV. Optei na época em ficar nos dois veículos, porque o rádio é a minha grande paixão. Está no meu DNA. O difícil mesmo foi administrar o tempo entre trabalho e vida pessoal.

SAIBA MAIS: Durante sua atuação na Gerência de Promoção Institucional da Rádio e TV Universitária, você foi responsável por eventos marcantes, como os aniversários da Rádio Universitária e da TVU, que contaram com a participação de artistas locais. Como foi esse trabalho de promoção cultural e quais foram os principais desafios enfrentados?

EDNALDO MARTINS: Olha realmente não é fácil você realizar eventos em emissoras públicas, que não dispõe de recurso, mas a gente assumiu este desafio e conseguiu fazer esses eventos maravilhosos. Os dez anos da rádio, com a participação de Ná Ozzetti, e os quarenta anos da TVU com a participação da velha guarda da Portela. Portanto, sempre recheado de artistas potiguares nos eventos que foram muito importantes para os dois veículos. E para realizar tudo isso a gente precisou de parcerias. Primeiro do apoio dos gestores, da professora Josimey, professor Zilmar, que encamparam esses dois desafios junto com a gente. Daí fomos em busca de parcerias, de enquadrar os eventos na lei de incentivo à cultura, angariar recursos, e buscar apoio na iniciativa privada, e a gente conseguiu. Tudo isso, lógico, com a Green Point Produções, que foi uma parceira excepcional, que acreditou no nosso trabalho. Enfim, foi maravilhoso e gratificante. Quando a gente hoje olha para trás e vê o resultado, fica muito feliz e vê que valeu a pena.

SAIBA MAIS: Você sempre teve um compromisso em divulgar e enaltecer a música potiguar, sendo um dos principais porta-vozes desse importante segmento artístico. Como você avalia o papel da rádio na valorização da cena musical local e qual a importância de programas como "Samba e Bossa" na 88 FM?

EDNALDO MARTINS: Desde o começo, a universitária vem sendo um divisor de águas para a cultura e para a música potiguar. E não deve perder esse foco. É suicídio. É ruim para a rádio mudar este viés de ser uma emissora artística ou cultural. É ruim para a cultura, é ruim para o artista local, é ruim para todo mundo. Ela se consolidou sendo a porta-voz, levantando a bandeira do artista potiguar. É muito difícil a gente imaginar a rádio sem um samba e bossa que que abriu espaço para o samba local. Você vê aí grandes nomes do samba que tocam na rádio através do programa sabe, é impossível você imaginar ouvir a rádio universitária de manhã e não escutar os chorinhos e canções que vai tocar Nelson Gonçalves, que vai tocar Núbia Lafaiete, o eterno Rouxinol Potiguar, Glorinha Oliveira, Lis Nôga, Ademilde Fonseca, enfim, João Juvanklin, que é um grande nome do chorinho local. Então, isto vai tocar onde? Eu acho que a rádio tem consciência da importância do trabalho que ela desenvolveu ao longo destes dessas últimas duas décadas. A rádio ela tem que ter essa consciência, ela não pode se perder no meio do caminho.

SAIBA MAIS: Recentemente, você foi desligado dos quadros da Rádio Universitária FM. Pode nos contar um pouco mais sobre essa situação? Quais foram os motivos alegados e como você recebeu essa notícia?

EDNALDO MARTINS: Recebi com muita tristeza, né? Porque a minha relação com a rádio Universitária FM não era só uma relação profissional. Ela era uma era uma relação afetiva, de amor verdadeiro. Eu não estava lá só por dinheiro. E foi alegado para mim que a UFRN não tinha condição de manter o único locutor, que era eu, e eu tive que aceitar. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Mesmo discordando, acho que se a UFRN elegesse meu trabalho como prioridade, ela conseguiria uma forma de me pagar, sabe? Mas isso não aconteceu, e eu respeito, eu respeito a gestão, eu respeito a decisão. Para mim, só cabe aceitar, é vida que segue. Tem um mercado aí fora que me espera. Estou aqui, aberto para o mercado. Vou entrar em contato com este mercado, mostrar esse portfólio de experiência e espero que eu seja absorvido o mais rápido possível.

SAIBA MAIS: Diante do seu desligamento, foi solicitado ao reitor da UFRN que reveja essa decisão e o readmita em suas funções na Rádio Universitária FM. Qual é a sua opinião sobre essa solicitação? Você acredita que há chances de um possível retorno?

EDNALDO MARTINS: Olha, vem sendo feito um movimento, organizado pelos artistas potiguares, a quem eu tenho profundo carinho, respeito e, principalmente, gratidão. Em 2019 eles fizeram o mesmo movimento quando eu fui demitido, e houve o meu retorno. Agora aconteceu o meu desligamento novamente e eles voltaram a fazer isso. Mas eu não sei, essa é uma decisão da UFRN. Se ela acha importante o trabalho que eu realizo, que eu realizei e se ela acredita que é importante prestigiar a memória da rádio dela, porque hoje eu sou o funcionário mais antigo. Mas, sinceramente, eu não sei se eu quero voltar diante disso, porque é humilhante isso. Chega a ser humilhante para um profissional com a dedicação que eu tive, que eu tenho, pelo amor principalmente que eu tenho, passar por isso duas vezes, sabe? Assim, eu não sei se eu sou prioridade para a UFRN, se eu sou importante. Para a cidade eu sei que sou. Não sei se eu tenho essa importância na UFRN. Eu vou esperar. Estamos aguardando aqui o resultado disso tudo. Eu estou aqui. Eu amo a rádio universitária. Eu tenho um respeito grandioso pela UFRN. Mas essa decisão não é minha, essa decisão em estar comigo ou não, ela não pertence a mim, ela pertence à UFRN.

SAIBA MAIS: Como você tem lidado com o seu desligamento da rádio e qual tem sido o impacto em sua carreira e vida pessoal?

EDNALDO MARTINS: Eu estou tranquilo. Lógico que tem aquele impacto inicial. É um recomeço. Eu vou ter que recomeçar a minha vida. Depois de 23 anos em um veículo em que eu me dediquei de corpo, alma, mente e coração, hoje ela diz que não, que eu não sirvo mais, que não me quer mais, que não me cabe mais e eu tenho que aceitar. Mas tem um mercado aí, eu sou um profissional e acredito que com o meu portfólio, com o meu talento, com o meu know-how, eu seja reinserido com facilidade. Lamento profundamente pela rádio, porque a minha história se confunde com a história da rádio universitária. A cidade ela reconhece isso. Pena que a UFRN ela não ela não teve essa capacidade de reconhecer, nesse momento, todo esse trabalho, mas eu respeito.

SAIBA MAIS: Além da rádio, você tem planos ou projetos futuros relacionados à sua carreira no mundo do rádio ou da comunicação em geral?

EDNALDO MARTINS: Estou aguardando, eu estou deixando a poeira baixar, observando tudo que está acontecendo, mas eu tenho que continuar minha vida. Não sei se se em rádio, não sei se em TV, se em jornal, se em portal, se em internet, eu vou fazer uma reavaliação. Os meus planos é continuar trabalhando e eu estou com força total, quero prosseguir trabalhando, preciso antes de tudo trabalhar. Mas eu quero dar um tempo a mim mesmo, para fazer a melhor escolha.

SAIBA MAIS: O que você diria para os seus ouvintes e fãs que acompanharam a sua trajetória na Rádio Universitária FM ao longo desses anos?

EDNALDO MARTINS: Aos ouvintes, a minha eterna gratidão. Eles sabem do amor que eu tenho pelo que faço. Eu acho que isso chega através das ondas do rádio. E é vida que segue. É um ciclo que se interrompe por forças que que vão além da sua vontade, da vontade do ouvinte, da minha vontade. Diz o ditado que manda quem pode, obedece quem tem juízo. E a gente lamenta pelos ouvintes, pela rádio, mas é vida que segue.

SAIBA MAIS: Para encerrar, qual mensagem você gostaria de deixar para os profissionais da rádio e para aqueles que buscam seguir carreira na área da comunicação?

EDNALDO MARTINS: Não é fácil para ninguém. Para mim nunca foi e acredito que para nenhum profissional. Até você conquistar o seu espaço é uma longa trajetória, mas quando faz com amor isso torna-se um detalhe. Você vai vencendo barreiras, e eu acho que tem que vir para a comunicação quem gosta de comunicar. Não venha se você está querendo ficar rico, porque você não vai ficar, é uma área muito competitiva. Você talvez conte nos dedos os profissionais que realmente ganham muito dinheiro nessa área, mas é uma área que transforma, sabe? Ela tem o poder de transformar pessoas, situações, é uma área encantadora. O rádio em específico, que é o meu grande amor, que eu tenho profundo carinho e respeito, é o vínculo que consegue mexer com o imaginário das pessoas.

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