Dia Nacional da Ciência:  temos algo a comemorar?
Natal, RN 24 de abr 2024

Dia Nacional da Ciência:  temos algo a comemorar?

8 de julho de 2023
7min
Dia Nacional da Ciência:  temos algo a comemorar?

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Por John Fontenele Araujo

Caro(a) leitor(a), você sabia que hoje, dia 8 de julho é o Dia Nacional da Ciência e o Dia do Pesquisador e da Pesquisadora no Brasil? Pois é, e este dia foi escolhido em homenagem à fundação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) que ocorreu em 8 de julho de 1948 com o objetivo de promover a ciência para que a pesquisa contribua com o desenvolvimento social do nosso Brasil.

Talvez você leitor(a) não conheça nenhum cientista no RN, mas para a sua surpresa temos muitos. A culpa não é sua, mas do mito em que os cientistas são apresentados quase sempre como homens, brancos, e como pessoas excêntricas, vestidas em um jaleco branco e cabelo não penteados. Mas a realidade é outra.

Você já deve ter ouvido falar do engenheiro Augusto Severo, que dá o nome do aeroporto de Natal e acabou de receber uma homenagem em Macaíba. Pois é, ele foi um grande cientista e reconhecido internacionalmente. Atualmente a UFRN tem cientistas de ponta em diversas áreas, como na Física e na Neurociência. Na primeira eu destaco os astrofísicos que estudam os planetas fora do sistema solar. No Instituto do Cérebro da UFRN, temos 4 dos principais neurocientistas brasileiros conforme a segunda edição do “Research.com ranking of the best researchers in the arena of Neuroscience”. Na área de engenharia dos materiais há também grandes pesquisadores. A ciência do RN também se orgulha de ter grandes cientistas trabalhando fora do nosso estado, como por exemplo um dos maiores cientistas políticos da atualidade no Brasil, o professor Jessé de Souza que atualmente está na UFABC. Este é um quadro pequeno em relação a quantidade e qualidade da ciência do RN.

Você leitor(a) de lembrar que durante a pandemia do COVID-19 se falou muito da importância da ciência. Você deve ter ouvido muito a expressão; “estas medidas são baseadas em evidências científicas”. Embora isto pareça valorizar a ciência,  não é uma verdade absoluta, afinal, várias medidas foram tomadas como respostas a economia ou interesses que as vezes nos pareceram obscuros. Todavia, temos de afirmar que foi  exatamente o avanço da ciência, em especial no desenvolvimento das vacinas, que permitiu o controle  da pandemia evitando assim milhões de mortes em decorrência desta doença.

A ciência também tem contribuído em muito com a melhoria da qualidade do ensino superior no RN. O reconhecimento da UFRN como uma das melhores universidades brasileiras deve em muito as ações dos seus cientistas que criam condições humanas e materiais para a realização de ensino superior moderno e de qualidade.

Hoje é um momento de refletir sobre como anda a ciência, em especial no estado do Rio Grande do Norte e adianto minha conclusão: não temos muito para comemorar.

Primeiramente eu tenho de fazer uma autocrítica. Afinal, como cientista, faço parte de uma comunidade que não está organizada e tem tido um comportamento individualista. Por exemplo, no RN somos alguns milhares, contando aqueles que estão na UFRN, UFERSA e UERN, mas destes milhares, não mais que duas dezenas participam da SBPC, a entidade representativa e que defende a ciência. Na verdade, podemos afirmar que menos de 10 cientistas são membros ativos da SBPC no RN. Infelizmente esta é uma realidade em todo o Brasil.

A participação política dos cientistas do RN se reflete inclusive na própria dinâmica do funcionamento das instituições de ensino superior. Por exemplo, na UFRN tivemos recentemente mudanças na reitoria e em diversos centros e unidades acadêmicos, e o que vimos foram simplesmente reconduções em decorrência dos processos de eleições terem sidos realizados com candidatos únicos.

A ciência produzida no RN, por ocorrer em quase toda a sua totalidade em universidades públicas, tem sido o principal fator para a formação de professores com qualificação e são eles quem estão promovendo uma educação de qualidade em nosso estado.

Esta autocrítica é uma demonstração de que nós cientistas somos em parte responsáveis pelo atual quadro de desastre da ciência em nosso Estado.

Adicionalmente, no nível estadual também não temos muito a comemorar. A Fundação de Apoio à Pesquisa do RN, FAPERN, não tem cumprido o seu papel de apoio a ciência e tem assumido um desvio de sua função quando utiliza recursos para pagamentos de bolsistas para exercerem função burocráticas do estado. Conforme foi a apresentado pelo professor Odir Dellagostin em reunião do Conselhos das Fundações de Amparo a Pesquisas, CONFFAP, a FAPERN está em penúltimo lugar em repasse de recursos para o apoio a ciência e tecnologia, ficando apenas na frente de Roraima, conforme mostra o gráfico na figura abaixo. Para um estado que tem uma das melhores universidades do Brasil, como a UFRN, esta realidade da FAPERN é uma vergonha.

É preciso que os nossos governantes entendam que sem ciência não há como aprimorar e renovar o ensino e formar professores adequadamente e nem como equipar e renovar a infraestrutura de escolas estaduais. Aqui em nosso estado, também não tivemos grandes avanços na educação, e sem uma educação ampla e de qualidade não teremos ciência, afinal, sem educação não teremos jovens motivados para a careira científica, para a vida e mesmo para a cidadania.

Com estas considerações, podemos dizer que a professora Fátima Bezerra, em seu primeiro mandato como governadora, foi reprovada na disciplina de ciência.

Mas nem tudo está perdido. Afinal, em nível federal temos bons ventos soprando na vela da ciência. Este vento ainda está fraco, mas já produz um deslocamento dos nossos veleiros em uma rota para um futuro melhor para a atividade científica no Brasil. Depois de 6 anos remando contra a maré, uma nova esperança para a ciência brasileira volta a ser realidade.

As ações do Ministério de Ciência, Tecnologia e Informação, MCTI, principalmente através do CNPq e FINEP estão mostrando um maior volume de recursos para financiamento de projetos de pesquisas. Destacamos também que estas ações estão sendo mais transparentes e orientadas para uma maior inclusão social na ciência.

Como eu sou um otimista de carteirinha, eu tenho a esperança de que os ventos da atual política nacional de ciência e tecnologia promova a consolidação de uma nova política de fomento para a ciência e que este vento venha até o RN e contamine as ações política do governo estadual.  Com isso teremos muito a comemorar no dia 8 de julho, mas infelizmente, só nos próximos anos.

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