Inelegível e o riso de triunfo
Natal, RN 24 de jun 2024

Inelegível e o riso de triunfo

1 de julho de 2023
4min
Inelegível e o riso de triunfo

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Neste dia histórico de 30 de junho de 2023, recebemos com alegria e alívio a decisão do Supremo Tribunal Federal de tornar inelegível pelos próximos oito anos o ex-presidente Jair Bolsonaro. Sabemos que essa condenação é ainda pouco diante de todo o pesadelo perpetrado por aquele governo, certamente o pior em toda a história da república brasileira.

Mal foi feita a declaração do voto, decisivo, da ministra Cármem Lúcia, uma enxurrada de festejos e comemorações tomou conta das redes sociais, no que se incluem, evidentemente, inúmeras expressões atravessadas pelo humor: memes, charges, stickers e diversas outras formas de postagens manifestaram esse sentimento o qual nenhuma outra palavra me parece melhor para descrever: triunfo.

Através de muitos desses exemplos vertiginosamente compartilhados, muito há para se refletir sobre a questão do humor na esfera hipermidiática. Porém, o que parece de maior relevância é o aspecto de que, à parte a rapidez e o alcance desses textos de humor nas redes digitais, a condição de serem “humorísticos” se manifesta por meio de velhos traços, tal como assinala Sírio Possenti, professor da Unicamp e pesquisador do humor, autor de “Humor, Língua e Discurso”, entre outros livros.

Um primeiro traço a ser destacado por Possenti é a relação com acontecimentos, essa relação tem a ver tanto com fatos de larga duração (por exemplo, o tratamento dado a criminosos pobres) como com fatos precisos e pontuais (por exemplo, o desastre com um submersível), tal como se pode ver nos casos abaixo:

Essa historicidade do humor e seu apelo a uma memória discursiva também se revela por meio do uso das paródias, recurso clássico de uma imitação subversiva que exige o entendimento de um subentendido. Nada de novo no front, afinal, Aristófanes já fazia paródias em suas comédias para ridicularizar alguns tipos políticos na antiga Grécia.

Mas o principal traço a ser destacado é o jogo (ou técnica) que explora a própria linguagem, no que se incluem, por exemplo, duplos sentidos, ambiguidades e trocadilhos, em que a “plasticidade” da língua é o maior objeto de apelo ao riso.

Independentemente da especificidade desse humor sobre a inelegibilidade de Bolsonaro, o gostinho de vitória que esses exemplos nos dão é impagável. Que possamos comemorar e celebrar essa sensação de alegria e alívio para além desses próximos oito anos. Que a democracia continue triunfando.

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