A vida (escrita) como obra de arte
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A vida (escrita) como obra de arte

12 de agosto de 2023
3min
A vida (escrita) como obra de arte

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Foi na mesma semana em que se comemora o Dia Nacional do Escritor (25 de julho) que esbarrei com a comovente história da italiana Clelia Marchi, mulher convertida simultaneamente em autora e personagem de si mesma graças às astúcias da escrita.

Essa história, apresentada pela BBC Brasil, conta como essa senhora encontrou no ato de escrever uma forma de lidar com a dor do luto e da ausência de um ente querido (no caso, o marido Anteo com quem conviveu por 50 anos e que morreu de maneira inesperada, vítima de um atropelamento). Vale a pena reproduzir um trecho da matéria:

Ela começou a preencher todos os papéis, folhetos e cartolinas que encontrou em casa com palavras e fotografias. Eles eram tecidos com lã colorida para formar livretos. Ela usou 15 kg de papel, até que ficou sem ter mais onde escrever. Foi aí que ela se lembrou da sua professora da escola, que havia contado sobre uma múmia vendada com um pedaço de linho com um texto em idioma etrusco. "Pensei que, se eles fizeram isso, eu também poderia fazer o mesmo", contaria ela mais tarde. Inspirada, Clelia Marchi sabia que tinha um tecido ideal para registrar as recordações da sua vida com Anteo – aquele tecido que sempre os acompanhou, toda vez que eles acordavam: seu lençol nupcial. Ela explicaria que, já que não podia mais compartilhar o lençol com ele, ela o usaria para contar o seu passado. Clelia Marchi retirou o lençol do armário onde estava guardado desde a morte do marido. E, nos mais de dois metros daquela peculiar página em branco, começou a descrever todas as suas recordações: “Querida pessoa, preserve este lençol onde está um pedacinho da minha vida; e do meu esposo; Clelia Marchi (72) escreveu a história das pessoas da sua terra, preenchendo um lençol com escritos, desde o trabalho na agricultura até os seus afetos.”

Esse belo relato me trouxe à memória vários nomes: da personagem Penélope, de Homero, que encontrou no ato de tecer (e destecer) uma manta a forma engenhosa de fazer presente Ulisses, o marido ausente, ao filósofo Nietzsche para quem, sob a magia dionisíaca, “o homem não é mais artista, tornou-se obra de arte”.

Então vou lembrando outros casos: penso em Dostoiévski e suas “Recordações da Casa dos Mortos”, penso em Lima Barreto e seu “Cemitério dos Vivos”, penso em Anne Frank, em Carolina de Jesus... Vários são os exemplos de quem não se contentou em apenas existir e passar pelo sopro da vida. Era e é preciso esticar essa existência e fazê-la transcender os limites do corpo e do tempo.

Mas penso sobretudo em Foucault, com quem se pode talvez traçar um paralelo com a história da Signora Clelia, principalmente quando ele aborda a escrita como um exercício de relação de si para consigo e de constituição das nossas subjetividades.

Como ser e estar neste mundo? Como viver a vida, cuja única certeza é da morte? Se a vida é breve, a arte é longa, como cantou Hipócrates. E é na arte da escrita que alguns dão forma à própria existência.

Em um artigo de 1983 intitulado “A escrita de si”, Foucault trata de algumas das formas de escrita pelas quais, desde os primeiros anos da era cristã, os indivíduos vivenciam uma experiência de debruçar-se, por um instante, sobre o próprio “eu”, como diários, cartas, cadernetas de notas e anotações de leituras diversas. Como assinala em outro texto (“Tecnologias do eu”, de 1984):

O si é algo para se escrever a respeito, um tema ou objeto (sujeito) da prática da escrita. Esta não é uma característica moderna, nascida da Reforma ou do romantismo; é uma das mais antigas tradições ocidentais.

Mais do que rememorar e refletir sobre o si (e o outro, que é também parte de nós), há o eco distante de um desejo de eternidade na brevidade de tudo. A tentativa de fazer valer esse sentimento que todos temos e que a senhora italiana soube tão bem dizer em sua colcha: “as coisas terminam mas não são esquecidas.”

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