As 1001 noite$ de Neymar e o adeus ao futebol
Natal, RN 12 de abr 2024

As 1001 noite$ de Neymar e o adeus ao futebol

16 de agosto de 2023
7min
As 1001 noite$ de Neymar e o adeus ao futebol

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Em meio a tantos assuntos importantes (o escândalo das joias, Copa do Mundo Feminina de Futebol, apagão) um dos que mais mobilizou internautas foi a "novela" sobre onde o futebolista brasileiro Neymar irá jogar na temporada que está começando. Novela com ares de tragédia e comédia, que teve o seu final surpreendente, pero no mucho. Nem no PSG, time onde vem jogando há 5 anos sem muito brilho, nem no inglês Chelsea, que até o queria mas o considerou caro, nem no Barcelona, time onde jogou bem mas saiu para sair da sombra de Messi e ser ´o melhor do mundo`. Vai jogar no Al Hilal, da  Arábia Saudita, tendo fechado um acordo onde ganhará 90 milhões de euros anuais (R$ 583 milhões).

Que Neymar é craque, não se discute. Nem que sabe, ou melhor o pai dele, ganhar dinheiro, também não. Mas a vida não é só ter um dom. Nem dinheiro. O jogador, que brilhou no Santos e foi contratado pelo Barcelona onde também brilhou formando um ataque letal e campeão ao lado de Messi e Suárez, sonhava em ser o melhor jogador do mundo, ganhar títulos e uma Copa do Mundo pela seleção brasileira. Parecia um sonho possível, e até provável devido ao talento e ambição do rapaz e à maneira como sua carreira vinha se desenrolando.

Até que em 2017 o PSG fez de Neymar o jogador de futebol mais caro de todos os tempos - recorde que ele ainda detém - quando o contratou do Barcelona por 222 milhões de euros. Foi justamente para dar ao time o sonhado título de campeão da Europa, ambição maior do sheik dono do clube, e consequentemente ser escolhido o melhor do mundo. Mas depois de seis anos tumultuados na capital francesa, às voltas com lesões (o que não é culpa dele), com críticas sobre como se portava na recuperação dessas lesões (aí sim, culpa dele) e problemas fora do campo (acusação de estupro, superexposição, apoio a Bolsonaro, briga com Mbapée, que se tornou na verdade o craque do time), mostrou desejo de sair e olhando para o mercado viu o que quem acompanha futebol de alto nível já havia observado: não há mais mercado para ele. Devido ao alto salário e também pelas atitudes extra campo e fala de comprometimento com projetos sérios.

No PSG Neymar conquistou cinco títulos da Ligue 1 (o campeonato francês) além de terminar como vice-campeão da Uefa Champions League de 2020. Pouco para as ambições do clube e do jogador. Que sequer ficou entre os 20 melhores do mundo em metade desses anos. Nesse tempo viu seu colega de time ser campeão e vice do mundo em duas Copas, marcando quatro gols nas finais; viu o norueguês Haaland despontar como craque sendo campeão da Champions League. Viu também jogadores talentosos, mas essencialmente esforçados como Modric e Benzema ganharem Bola de Ouro de melhor do Mundo.

Quando escrevo que ele viu é mais uma retórica do que uma verdade. Neymar não viu que isso aconteceu, primeiro porque não gosta e não acompanha futebol. Segundo, porque é incapaz de perceber qualquer coisa além do próprio umbigo. Postura seguida à risca pelos admiradores incondicionais dele, que esão há tempos infestando as redes sociais (principalmente o Twitter) com defesa incondicional e apaixonada de tudo que ele faz e diz. O jogador e seus fãs pararam no tempo. Estão ainda em 2015 (quando Neymar tinha 23 anos e ainda podia ser chamado de menino), quando o Barcelona ganhou a Champions League com show de Neymar na reta final, mas em um time que, como já escrevi várias vezes, tinha a liderança moral e técnica de Xavi e Iniesta. E Messi. O tempo passou. Neymar e seu fã clube não viram.

Daí a aventura na Arábia do jogador ser basicamente uma questão financeira, já que seu sonho era voltar para o Barcelona ou disputar a Premier League por um time inglês. Em termos de finanças, o prisma pelo qual Neymar pai sempre vê o mundo, não há discussão. O jogador ganhará 1 bilhão de reais em dois anos, mais bônus a cada vez que divulgar nas redes sociais a Arábia Saudita, nação que vive uma ditadura e onde o cristianismo é proibido, mas sequer vou entrar nesse mérito, que daria um outro texto. O dinheiro oferecido parece irrecusável. A questão é que Neymar já recebia valores milionários em Paris e já acumulou grana para umas quatro gerações. Para os Neymar   dinheiro não é problema há muito tempo, ou pelo menos não deveria ser.

Da mesma forma que dinheiro também não é problema para outros jogadores de ponta que optaram por jogar na liga saudita. O caso mais célebre (e que abriu os caminhos) é do português Cristiano Ronaldo. Depois foram para lá os franceses Benzema e Kanté, o argelino Mahrez, entre outros. O que leva os adoradores a usarem o argumento de que a liga saudita será competitiva e de alto nível e que o brasileiro tem chances de continuar no primeiro escalão do futebol e retornar à Europa em dois anos, como o próprio jogador manifestou em entrevista recente.

É uma premissa errada. Cristiano foi para a Araábia aos 37 anos, sem espaço no Manchester United e após uma Eurocopa, 5 Champions Leagues e mais cinco Bolas de Ouro de melhor jogador do Mundo. Benzema rumou após ser o melhor do mundo e conquistar também sua quinta Champions, já tendo abdicado da seleção francesa. Enfim, são atletas que já deram o que tinham que dar em um ambiente competitivo e agora querem um fim de carreira com mais dinheiro e menos pressão. Neymar mantém o discurso de que sonha com glórias maiores. Um misto de ilusão, utopia, descolamento da realidade e não gestão da carreira no tocante à parte esportiva. Messi rumou para a tranquila liga dos EUA após ser campeão do Mundo pela Argentina e vencer tudo que podia. Neymar vai para a liga saudita sem jamais ter brilhado pela seleção brasileira ou ter disputado uma final ou semi de Copa do Mundo.

Claro que será tratado pela CBF como estrela maior do Brasil já que a entidade historicamente comunga dos mesmos valores do jogador: grana na cona. Mas, esportivamente, os melhores jogadores brasileiros atualmente com base em conquistas e competitividade são Casemiro e Vinícius Júnior. E o futuro se chama Endrick e Vitor Roque. Neymar se esforçou para ser passado ainda que queira ser relevante no presente. Sabemos todos que na Arábia seu cotidiano, além dos belos gols e jogadas de efeito, que jogar bola ele sabe, será provocações aos adversários, atritos com colegas de clube, lesões cuidadas de maneira displicente e as farras de sempre, normais para quem trai esposa grávida em pleno Dia dos Namorados e ainda se deixa filmar, como aconteceu recentemente. Resta saber se os sheiks serão complacentes com o comportamento do "menino" Neymar nas suas 1001 noites. Que ele aproveite muito a estadia nas arábias, que para o futebol de ponta ele já deu adeus.

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