Futebol feminino: RN tem apenas uma árbitra central e três assistentes
Natal, RN 13 de abr 2024

Futebol feminino: RN tem apenas uma árbitra central e três assistentes

4 de agosto de 2023
6min
Futebol feminino: RN tem apenas uma árbitra central e três assistentes

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As mulheres ainda têm acesso limitado ao futebol, seja como torcedoras, atletas ou integrantes das equipes de arbitragem. Curiosamente, o Rio Grande do Norte registra a primeira mulher árbitra brasileira do esporte majoritariamente masculino: Celina Guimarães Viana (1890 - 1972) - nome bastante conhecido por outro grande feito, o primeiro voto feminino no país, em 1932.

Em 2023, o estado tem apenas uma árbitra central, Mariana Regina de Paiva Oliveira, e três assistentes: Edilene Freire, Débora Rayane e Aldeilma Luzia.

No Rio Grande do Norte, são 58 homens na profissão, sendo 26 árbitros e 32 assistentes.

Para se tornar árbitro ou árbitra, é preciso participar de formação com duração mínima de um ano. No estado, o curso é realizado em parceria da Federação Norte-Rio-Grandense de Futebol (FNF) com o Sindicato dos Árbitros, seguindo diretrizes da Escola Nacional de Arbitragem do Futebol, da Confederação Brasileira de Futebol.

As turmas são para pessoas de ambos os sexos, com idade entre 17 e 33 anos e que tenha concluído ou esteja concluindo o terceiro ano do Ensino Médio.

Em julho deste ano, as potiguares fizeram o Curso FIFA - RAP Feminino.

O presidente da Comissão de Arbitragem de Futebol do RN, Ricardo Albuquerque, reconhece que é pequeno o número de mulheres na atividade, mas acredita que o próximo curso vai aumentar essa quantidade.

“Tem muita gente procurando saber na secretaria da Federação, inclusive o público feminino, até por causa do quadro nacional, com o destaque da Copa Feminina. Estamos fazendo divulgação nas universidades, nas escolas, e nossas árbitras aparecem bastante, atuam bastante, elas fazem parte do quadro que apita também em jogos masculinos. A população vê muito elas atuando em campeonatos”, disse Albuquerque.

Mariana

“Ser árbitra é incrível. É maravilhoso poder comandar uma partida de futebol masculina; estar no meio de um monte de homens arrogantes, machistas, preconceituosos, mas a autoridade máxima sou eu. Então, ou eles respeitam ou vão pra fora”, resume Mariana Paiva.

Ela é a única árbitra central do Rio Grande do Norte, tem 32 anos e mora no município de Monte Alegre desde os 3 anos; antes, em Natal. Jogadora profissional, passou pelo ABC, América e Cruzeiro de Macaíba. Cursou Arbitragem em 2017 por curiosidade e pelo desafio. É subcoordenadora municipal de Esporte, é treinadora do Cruzeiro Feminino de Monte Alegre, atua também em comunidades carentes e cursa Educação Física em faculdade privada.

“Depois de um ano de arbitragem, comecei a me apaixonar cada vez mais pela atividade. Hoje não vivo sem. Deixei de jogar profissionalmente, porque como é arbitragem profissional, tive que escolher. A arbitragem abriu portas pra muito mais coisas legais na minha vida. Às vezes aqui acolá que bato uma peladinha”, conta.

O futebol chegou ainda na infância. Mariana tem um verdadeiro time de irmãos: onze. São seis homens e cinco mulheres. A árbitra é a terceira mais velha. “Quando era pequena, eu jogava com eles. Eram meus maiores incentivadores!”.

Na escola, começou sendo a única no meio dos meninos. A professora responsável pela turma separava meninos para “jogar bola” e as meninas pra jogar queimada ou pular corda.

“Eu com nove anos em diante já tinha uma personalidade forte. Já escolhia o meu melhor esporte, que era jogar futebol com os meninos. As pessoas criticavam muito, me olhavam com muito preconceito, mas isso não era nada para me fazer parar. Eu amava o futebol desde pequena. Sempre tive o apoio de mainha, do meus irmãos, então o resto do mundo não me incomodava.”

O tempo foi passando, a vida mudando, mas o preconceito permanece.

“Uma coisa que me deixa muito decepcionada são as mulheres que desrespeitam meu trabalho, querem difamar minha pessoa. Por ser mulher, isso ainda me choca. Bastam o mundo contra nós, os homens. A gente não precisava de mulheres contra a gente. As mulheres têm que apoiar umas às outras. Só assim a gente vai conseguir nosso espaço.”

Ela conta que já chorou muito por causa da arbitragem e do futebol, mas se fortaleceu.

“O tempo e o trabalho fazem a gente amadurecer bem rápido, principalmente na tristeza, na dor. Hoje ninguém, nenhum preconceito, consegue me deixar pra baixo, mas no começo eu era muito xingada por ser mulher e por conta da minha cor. Mulheres me esculhambaram, diziam ‘vá pra casa, lavar louça, vá cuidar do seu marido’. Tenho nem marido. Em algumas partidas quando eu entrava tinha homem que dizia ‘não acredito que um jogo desse mandaram uma mulher’”.

Mariana diz ainda que a desvalorização do futebol feminino chega também à arbitragem nas partidas dessa modalidade. “O masculino paga melhor”. A remuneração é feita por meio da taxa de arbitragem, descontada da bilheteria dos clubes a cada jogo. A comparação também é feita entre futebol profissional e amador.

“Às vezes sou mais valorizada no amador, que abre tanto espaço pra mostrar meu trabalho. Pra mim, isso já é suficiente hoje. O mais importante é ser valorizada. Não importa o lugar onde você está trabalhando, se você estiver sendo valorizada hoje, é o melhor lugar pra você”, conclui. “Todo final de semana eu tô em algum lugar apitando, mostrando meu potencial. só quero apitar independente de ser no profissional ou não”.

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