Potiguar grávida de trigêmeas é afastada de Fernando de Noronha e mobiliza campanha
Natal, RN 20 de jul 2024

Potiguar grávida de trigêmeas é afastada de Fernando de Noronha e mobiliza campanha

28 de agosto de 2023
5min
Potiguar grávida de trigêmeas é afastada de Fernando de Noronha e mobiliza campanha

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“Eu sei que não vai ser fácil, mas desejo encarar cada fase fazendo o melhor que eu puder.” É no que se empenha a natalense Elaine Albino da Silva, de 33 anos, grávida de 8 meses de trigêmeas. “Que eu seja forte o suficiente para dar conta das três”, completa. Por causa da gestação, ela foi afastada de Fernando de Noronha (PE), onde trabalhou por um ano e meio como camareira. Agora, faz campanha de arrecadação, com apoio da Ajagun Obirin, organização de mulheres negras do Rio Grande do Norte.

Doações de fraldas podem ser feitas combinando local de entrega com a mãe pelo Instagram @babyemtriplo. Valores podem ser doados por meio da vaquinha virtual ou direto no pix [email protected].

Com pouco mais de 3 mil habitantes, Fernando de Noronha é um dos principais destinos turísticos do Brasil, santuário ecológico, Patrimônio Natural da Humanidade e não permite nascimentos. O protocolo local prevê que grávidas se mudem para Recife (a 545 km de distância) quando chegam à 28ª semana (7 meses) de gestação. Em 2004, foi desativada a única maternidade, no Hospital São Lucas, alegando que era alto o custo de manutenção diante da média de 40 partos por ano.

Não existe lei com a proibição, mas autoridades da ilha e empresários se encarregam de transferir as grávidas. O patrão de Elaine tratou de mandá-la de volta para a cidade de origem, ao saber da gravidez tripla, mantendo o vínculo empregatício.

“Então, eu tive que vir de lá pra cá. A empresa se preocupou em me afastar do trabalho porque são três e a ilha não teria como me resguardar.”, conta, ao dizer que achou precipitado o retorno ao seu estado. Gostaria de ter ficado mais, entretanto, aceitou que é o melhor, porque em Natal tem acompanhamento médico de maneira mais efetiva, mesmo com as deficiências da saúde pública municipal. O pré-natal tem sido feito na UBS do Pajuçara e na Policlínica da Zona Norte. O parto deve ocorrer no Hospital Santa Catarina. E, mãe, não pretende voltar: "Não posso levá-las comigo. Então, não irei a lugar algum sem minhas filhas."

Elaine considera a medida adotada no arquipélago um “descaso” com mulheres e bebês.

Foto: Maria Nordztna

“A ilha é riquíssima se formos pensar em impostos, taxas e todo capital que circula. Era para se ter uma assistência mais ampla e pensar nas mulheres e seus bebês de forma mais atenciosa, suprindo a ilha de equipamentos e profissionais aptos para dar um suporte às possíveis complicações de uma gravidez múltipla ou não” comenta, ao fazer um adendo: “os profissionais que me atenderam por lá, foram muito competentes e gentis, porém sem suprimentos adequados eles não têm muito o que fazer para além do que o SUS oferece na ilha”.

A gravidez não foi planejada. Elaine conta que estava em negação até a primeira ultrassonografia, quando descobriu que eram três bebês e ficou em choque por uns trinta minutos. “Apesar dos exames de sangue e de urina terem dado positivo, ainda me apegava ao fato de eu ter cistos nos ovários desde 2018, o que dizem que dificulta a gravidez. Porém, foram dois baques, um por estar grávida de verdade e o outro por serem três bebês. No momento que recebi a notícia, nem do meu nome, nem onde eu estava eu sabia mais.”, narra.

O relacionamento amoroso com o pai das trigêmeas acabou. “Temos uma relação amistosa, mas a distância complica tudo no final das contas”, diz ela.

De volta à capital potiguar, mora só com a mãe. Dela tem quatro irmãos mais novos, além de outros que não enumera filhos do pai. Em Natal, sempre moradora da Zona Norte, Elaine era cuidadora de idosos; tem formação técnica em enfermagem e a graduação em Gestão de Políticas Públicas na reta final, faltando apenas o Trabalho de Conclusão de Curso.

Elaine sabe que concluir o TCC ficará para depois, porque está lidando com muitas mudanças. Uma das inquietações é financeira. Se todo mundo fala que com uma criança os custos são altos, avalia com três. “Eu já fiz feijoada, já vendi bombom, justamente pra ajudar a reformar um quartinho que tem aqui em casa e a comprar as coisas das meninas porque é tudo em três. Os custos são bem além do que eu imaginava. As meninas da Ajagun Obirin compraram a minha causa e decidiram fazer uma campanha. Achei isso muito lindo”.

Nesse momento de alegria e um pouco de angústia, Elaine considera muito importante a participação no movimento negro da cidade, onde encontra parceria e inspiração. Isso pode ser percebido até mesmo na escolha dos nomes (cheios de simbolismo) das meninas: Ayana, Iúna e Zuri significam bela flor, rio escuro/negro e bonita/linda, respectivamente; dos idiomas suaíli (língua banta com maior número de falantes em países africanos) tupi (índígena brasileiro) e amárico (oficial da Etiópia). Para a mãe, uma revolução.

Foto: Maria Nordztna

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