Após se descobrir artista negro, Aldenor Prateiro realiza primeira exposição aos 76 anos
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Após se descobrir artista negro, Aldenor Prateiro realiza primeira exposição aos 76 anos

21 de setembro de 2023
4min

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Aldenor Gomes da Silva, ou simplesmente Aldenor Prateiro, é um professor com pós-doutorado em Ciências Sociais, com doutorado em Economia Agrícola (Unicamp),  ex-coordenador do programa Fome Zero no Nordeste e um artista recém descoberto. 

O professor, que se descobriu um artista após os 60 anos, vai levar para a Galeria Convi’art, do Núcleo de Arte e Cultura da UFRN, a exposição “Nem tudo que reluz é ouro” nesta quinta-feira (21) às 18h. O artista vai exibir 31 peças feitas à mão que usam elementos da cultura popular e do artesanato e que enfrentam temas como racismo, machismo, homofobia e colonialismo. 

O artista se inspirou na sua própria história para produzir as obras. Nascido em Mossoró, ex-seminarista, sentiu a fome de perto e viveu situações pessoais que lhe marcaram muito e que estão estampadas nas obras de arte que resgatam sua vivência e a aceitação da negritude. 

Aldenor, durante grande parte de sua vida ignorou a questão da negritude, até que em 2016 uma professora comentou que ele era o único professor negro que ela tinha tido. A partir disso, o artista deu início a um processo de autoconhecimento e passou a reproduzir essas questões na suas obras. 

“Descobri-me artista aos 66 anos foi uma estratégia que utilizei ao decidir me aposentar da academia. Depois de 40 anos de estudo, pesquisa, docência, militância sobre os Estudos Rurais, com ênfase na composição e dinâmica dos atores rurais, decidi dar um novo enfoque aos problemas sociais rurais com que estive sempre envolvido”, comenta o artista. 

Momentos da vida professor foram marcantes para o seu descobrimento como artista

Em 2014, Aldenor fez um curso de como forjar jóias em prata. A partir do estudo, ele aproveitou a parte técnica para iniciar suas peças, inspiradas nas folhas da caatinga. Depois disso, foi uma visita da sua filha mais nova Mariana do Vale, que também é artista visual, que incentivou o pai a continuar fazendo arte. 

A caçula não conhecia a arte do pai e quando descobriu esse dom que ele tinha, recomendou várias leituras para ele estudar e o incentivou nesse novo caminho. Inclusive, essa nova exposição conta com a curadoria de Mariana do Vale, da artista visual Lara Ovídio e da pesquisadora Ana Paula Ottoni. 

Além de tudo, outro fato importante para o aposentado, é a identificação com o poeta Manoel de Barros e a exploração sua do rural. “Debrucei-me sobre a história e poesia de Manoel Barros, o poeta mato-grossense das coisas insignificantes, como ele definia. E comecei a descobrir que meu status de cidadão tinha um outro que fazer.”, pontua.

Através do poeta, Prateiro sentiu inspiração para explorar o quintal de sua casa, seu passado de criança, jovem e adulto. “Coisas que me definiram e me moldaram e que permaneciam aprisionadas em baús escondidos, num quintal qualquer, como que nem em Manoel Barros”, desabafa. 

Exposição individual pretende desvendar, denunciar e intervir racismo e machismo 

Desses encontros e desencontros, comigo mesmo, afloram questões de cunhos familiares, religiosos, políticos e históricos que me atravessam”, avalia o professor que conclui: 

“Através de um conjunto de obras elejo como questão motivadora do fazer artístico a busca de entender a persistência da escravidão/racismo enquanto prática social e econômica contra uma população afrodescendente e também, nesse mesmo sentido, procuro destacar o lugar da cultura patriarcal que ao mesmo tempo tenta camuflar seu caráter simbólico de violência e enaltecimento da supremacia branca.”

[caption id="attachment_82674" align="alignnone" width="1001"] Na obra "Pé de Pau", Aldenor usou alguns abridores de garrafa no formato de pênis, para discutir o machismo| foto: Mariana do Vale[/caption]  

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