100 anos de Fernando Sabino
Natal, RN 28 de nov 2023

100 anos de Fernando Sabino

12 de outubro de 2023
4min
100 anos de Fernando Sabino

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Neste 12 de outubro de 2023, celebram-se os 100 anos de Fernando Sabino!

Viva!

Assim como ele foi em vida, são plurais as possibilidades para se refletir ao seu respeito por conta desta ocasião: do gênero crônica à prática do cancelamento, das sutis nuances entre autor e personagem ao ofício cotidiano da escrita, o nome de Fernando Sabino pode ilustrar qualquer um desses e outros tópicos sobre a cultura literária. Fernando Tavares Sabino (Belo Horizonte, 1923 - Rio, 2004) iniciou-se muito cedo, publicando contos policiais ainda na adolescência. Quando lançou seu primeiro livro, “Os Grilos Não Cantam Mais”, pela Pongetti em 1941, recebeu de Mário Andrade uma crítica elogiosa e a dica preciosa: que assinasse ou como Fernando Tavares ou como Fernando Sabino. Daí em frente, não parou mais: escreveu e publicou crônicas, contos, novelas e romances, além de um dicionário de lugares-comuns, uma autobiografia e as cartas trocadas com Mário de Andrade, Clarice Lispector, Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos. E não se contentou só em ser escritor: lançou-se também na aventura de ser editor, com a Editora do Autor (1960 a 1966) e a Editora Sabiá (1967-1972), junto a Rubem Braga, outro gênio da crônica. Não bastando, foi ser também cineasta, fundando com David Neves a Bem-Te-Vi Filmes. E ainda sobrava tempo para seu lado boêmio e baterista de jazz. Como leitora e escritora, Fernando Sabino é meu xodó. Era com ele que eu buscava consolo na difícil idade dos 14 anos, quando voltava do colégio e passava as tardes me deliciando com seus livros. Naquele tempo, eu começava a me aventurar nas minhas próprias histórias e também já era um tanto quanto delirante: imaginava que haveria de um dia esbarrar casualmente com ele nas ruas de Fortaleza. Não esbarrei, mas um dia me atrevi e escrevi para a editora Record pedindo que lhe encaminhassem a minha correspondência. Numa tarde de julho de 1992, tive a grande alegria de receber sua carta em resposta. Trocamos mais algumas e recebi dele alguns livros gentilmente autografados. Tudo isso na época em que uma sombra passava por sua vida: a repercussão negativa do livro “Zélia, uma paixão”, a separação da companheira e musa Lygia Marina e o ostracismo social e literário. Eu nem imaginava o quanto ele certamente estava triste enquanto me fazia tão feliz. Por isso, nestes 100 anos do meu mestre na escrita, prefiro celebrar com leveza e alegria sua lembrança. Fernando Sabino nos legou pérolas como romances como o “O Encontro Marcado” ou “O Grande Mentecapto” ou crônicas como “A última crônica” ou O Homem Nu” (que até virou filme). E para fechar essa minha pequena homenagem, relembro um trecho de uma crônica deliciosa em que Sabino reflete sobre a escrita em geral e sobre a insanidade que era fazer uma crônica diária para os jornais do Rio. Em “O estranho ofício de escrever”, relembra algumas situações em que às vezes se via junto a amigos também cronistas, quando se valiam de pedir “emprestado” algum texto: (...) numa hora de aperto, Rubem (Braga) perdeu a cerimônia: – Será que você teria uma crônica pequenininha para me emprestar? Procurei nos meus guardados e encontrei uma que talvez servisse (...) Chamava-se “O Preço da Sopa”. Rubem deu uma melhorada na história (...) pôs o título mais simples de “A Sopa”. Tempos mais tarde chegou a minha vez – nada como se valer de um amigo nas horas difíceis: – Uma crônica usada, de que você não precisa mais, qualquer uma serve. – Vou ver o que posso fazer. Acabou me dando de volta a da sopa. – Logo esta? – protestei. – As outras estão muito gastas. Sou pobre mas não sou soberbo. Ajeitei a crônica como pude, toquei-lhe uns remendos (...) e liquidei de uma vez com ela, sob o título: “Esta Sopa Vai Acabar” (Fernando Sabino, “A falta que ela me faz”. Editora Record, 1990, p. 20-21). Viva Fernando Sabino!
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