Quando a verdade é a grande vítima
Natal, RN 20 de jun 2024

Quando a verdade é a grande vítima

30 de outubro de 2023
16min
Quando a verdade é a grande vítima

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É conhecida a frase de que a primeira vitima de uma guerra é a verdade, embora não haja consenso quanto a sua autoria, de Ésquilo (524 A.C. – 455 A.C.), dramaturgo da Grécia Antiga, Samuel Johnson (1709-1784), escritor e pensador inglês e até mesmo o político britânico Philip Snowden (1864-1937).

O fato é que a frase contém uma verdade incontestável: as guerras e as mentiras e muitopresentes nas duas guerras atuais, como Ucrânia x Rússia e mais recente entre Israel e o Hamas, iniciada no dia 7 de outubro de 2023. São tantas versões, mentiras e manipulações que fica difícil saber o que de fato é verdade. No livro Tornar-se palestina(Belo Horizonte, Relicário edições, 2019), a escritora chilena Lina Meruane (1970) diz algo que se aplica ao atual cenário de guerra: “Em zonas de conflito, nos momentos mais críticos do combate, a primeira coisa a desaparecer são as nuances, os meios-tons do discurso aparecem como suspeitos. O controle é assumido pelas versões únicas e verdades simplificadas: é necessário que exista apenas um lado da história para garantir uma adesão inquestionável, para erguer bandeiras próprias, entoar aos berros palavras de ordem contra os outros, a voz martelando nas sílabas do ódio. Para ver os detentores de ideias contrárias ou identidades diferentes como inimigos. Para aceitar leis destinadas a destruí-los. As versões únicas tornam-se indispensáveis em tempos de guerra e são impostas mediante seu constante bombardeio pela imprensa”. (p.152).

A dicotomia do bem contra o mal acaba por impossibilitar a compreensão de toda complexidade (e de todo pensamento crítico), com generalizações, estereótipos e simplificações. São como disse a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie em uma palestra proferida no TED Talk em 2009, o perigo de uma história única (publicada no Brasil pela Editora Companhia das Letras em 2019).

Um aspecto relevante do atual conflito, do noticiário que chega ao Brasil sobre Israel e o Hamas é a forma como vem sendo usada, em especial nas redes sociais, para consolidar a polarização existente na sociedade. Há um volume enorme de noticias circulando sobre o conflito, com tanta desinformação que fica a pergunta: onde está a verdade? E em especial, quando se usa a guerra para fins políticos e ideológicos?

Neste conflito a extrema direita tem usado em especial as redes sociais, para atacar o governo Lula e o PT (e alguns dos seus dirigentes e apoiadores) como se fossem coniventes com os atos do Hamas.  Um estudo da Escola de Comunicação da Fundação Getulio Vargas, divulgado pela agência de checagem Lupa mostrou que a perspectiva apresentada na plataforma X (antigo Twitter), com mais de dois milhões de postagens, foi majoritariamente pró-Israel e mais do que isso, buscando estabelecer associações entre o presidente Lula e o Hamas. A Lupa também fez um levantamento do Telegram e no qual foi observado o uso político da guerra para “capitanear apoio a pautas como armamento da população (...) ou convencer as pessoas de que a esquerda apoia o terrorismo”.

E nesse sentido, as mentiras são divulgadas sem que haja preocupação por parte de quem divulga (e também por parte de quem recebe) ou interesse em confrontar com fontes confiáveis de informação e evidencia o papel de agências de checagem, embora com pouca chance de atingir quem tenha convicções em defesa de um dos lados. É o que na psicologia chama de viés de confirmação, também conhecido como “coleta seletiva de evidências” no qual as pessoas procuram informações que confirmem suas crenças e opiniões e descarta aquelas que não o fazem.

Em relação ao conflito entre Israel e Hamas, levantamentos de quem está acompanhado as redes sociais, mostra que a extrema direita tem aproveitado para atacar Lula e o PT, construindo e divulgando mentiras, e entre os muitos conteúdos falsos que foram checados pela agência Lupa apenas na primeira semana do conflito, estão a de que o embaixador de Israel não disse que Netanyahu não atendeu ligação de Lula; que é falso que Lula assinou decreto de cooperação com Hamas; que uma foto divulgada de um homem com Lula e líderes do PT não é integrante do Hamas; que um vídeo de uma mulher sendo espancada e pintada com tinta verde não é do atual conflito em Israel; que o ministro Paulo Pimenta não declarou apoio ao Hamas em vídeo; e também é falso que líder do Hamas ordenou morte de judeus no mundo inteiro; que uma foto de bebê amarrado a granadas não é do atual conflito de Israel; que crianças em gaiolas não são de Israel, nem foram capturadas pelo Hamas; que é falso que homens que deram camiseta da Palestina a Lula são do Hamas, assim como é falso que Lula doou terreno para base do Hamas e mais R$ 25 milhões.(A matéria, contendo as datas de publicaçãodas receptivas notícias está no site da Lupa do dia 10 de outubro de 2023, portanto, em apenas três dias do inicio do conflito). Certamente tem se multiplicado desde então.

Um levantamento feito pelo Instituto Democracia em Xeque, publicado na revista Veja mostra o volume de postagens e interações sobre a guerra em diversos perfis, entre os dias 7 e 19 de outubro de 2023 e constatou que foram mais expressivas em volume e alcance em perfis ligados ao bolsonarismo e que os políticos e influenciadores e páginas de extrema direita fizeram 1.190 publicações sobre o tema com 9,9 milhões de visualizações só no Instagram. No mesmo período no Youtube foram 650 vídeos com mais de 16,4 milhões de visualizações, enquanto os perfis de esquerda foram 825 posts com 2,7 milhões de interações no Instagram e 271 vídeos com 2,1 milhões no Youtube.

A narrativa predominante nos canais de extrema direita associa Lula e a esquerda com o Hamas. A questão é: como evitar conteúdos falsos seja amplamente compartilhado nas redes sociais? Como evitar o uso político de uma tragédia com narrativas intencionalmente enganosas? As agências de checagens, que existem tanto em Israel como na Faixa de Gaza, tem enorme trabalho de estabelecer a verdade e além do fato de que seus integrantes estão emocionalmente envolvidos no conflito.

E mais: quem defende um dos lados, seleciona o que quer divulgar.  Quem vai checar e expor a verdade? Em relação à cobertura jornalista, uma informação divulgada no dia 20 de outubro de 2023 pela Sana, agência estatal de notícia da Síria  (Syrian Arab News Agency), em seu perfil no X (ex-twitter) informa que “todos os funcionários da BBC na Cisjordânia demitiram-se devido à contínua recusa da BBC em divulgar informações verdadeiras sobre os acontecimentos em Gaza e em continuar a espalhar informações falsas”.

O que fazer em relação aos conteúdos que circulam através das plataformas digitais sem qualquer controle? Diversos fatos no mundo evidenciam que discursos que se disseminam nas redes sociais, através das plataformas digitais, são ameaças à própria democracia. Na Europa, uma proposta de Regulamento de Serviços Digitais foiaprovada pela Comissão Europeia, em dezembro de 2020, com normas que deveriam ser seguidas pelos provedores e em outubro de 2022 foi aprovada em Resolução que estabelece novas regras para as plataformas digitais chamadas de “Regulamento de serviços digitais do Parlamento Europeu” e visa “garantir um ambiente seguro e responsável” para os usuários, e obrigações e a responsabilidade das plataformas, maior controle democrático e melhor supervisão das plataformas, combatendo a desinformação. Trata-se de um novo ato legislativo que estabelece um conjunto de regras aplicáveis em toda a União Europeia.

Como desdobramento, no dia 25 de abril de 2023, a UE publicou uma lista de 19 plataformas digitais entre elas o Google, Amazon, Instagram, Microsoft e Twitter  que deveriam passar por uma regulação muito mais rígida a partir do final de agosto de 2023.  E no dia 19 de outubro, depois do início de mais um conflito entre Israel e o Hamas, iniciou investigações sobre desinformação no Facebook, Instagram, e TikTokrelacionadas, com a disseminação e a amplificação de conteúdos ilegais. 

Mas, essas poderosas empresas serão de fato punidas? E a desinformação que circulou e continua circulando em suas plataformas? A questão é: como, especialmente numa guerra, ter o controle do “fluxo desenfreado” de desinformação online que circula nas redes sociais? O que não pode e nem deve é continuar  a isenção de responsabilidade das plataformas.

Segundo as estimativas da Comissão existem na União Europeia mais de dez milplataformas, as quais mais de 90% são pequenas e médias empresas. Atualmente os serviços digitais têm que lidar com 27 conjuntos diferentes de regras nacionais, que a Resolução unifica, valendo para todos.

Quanto ao que tem circulado nas redes sociais sobre conflito Israel x Hamas (não apenas na Europa) estão sujeitos a todo tipo de manipulações e mentiras, facilitadas pelo uso de tecnologias (como o deepfake, por exemplo, divulgação de vídeos manipulados, de outros momentos e que não tem nada a ver com o conflito e que são amplamente compartilhados etc.,) e também sem qualquer contextualização e checagem das informações. Informar, por exemplo, da complexidade e do histórico desses conflitos, de que o que está ocorrendo hoje não é um fato isolado, circunstancial, mas parte de um problema que se alastra pelo menos desde a formação do Estado de Israel em 1948 e a situação do povo palestino.

Há uma extensa bibliografia nesse sentido, muitos livros inclusive publicados no Brasil. Um dos autores que tem pesquisado e publicado sobre isso é Ilan Pappé, filho de imigrantes judeus alemães, nascido em Haifa em 1954, que publicou vários livros, entre outros, The Modern History Palestine, One Land, Two People; The Idea of Israel: A History of Power and Knowledge; Ten Myths about Israel (Dez mitos sobre Israel, publicado no Brasil pela editora Tabla em 2022) e A limpeza étnica da palestina (Editora Sundermann, São Paulo, 2016) no qualanalisa o processo levou a expulsão de mais de 750 mil palestinos de suas casas, além da destruição de centenas de vilarejos.

Os conflitos continuaram e  em 1967 com a Guerra dos Seis Dias, Israel ocupou a Cisjordânia e a parte oriental de Jerusalém. 

O que houve desde então foram desdobramentos, consequências que continuam até hoje, com a ampliação da ocupação da palestina e crescimento de assentamentos judaicos.

A jornalista brasileira Guila Flint publicou em 2009 pela Editora Civilização Brasileira o livro Miragem de paz: Israel e Palestina, processo e retrocesso no qual reúne uma seleção de artigos, reportagens e entrevistas que fez entre 1995 e 2009 principalmente para a BBC Brasil e outros veículos da imprensa brasileira, para a internet, rádio, televisão, revistas e jornais .

E com a experiência de 14 anos de cobertura dos conflitos afirmava naquele momento que não só a paz com o próprio processo de paz parecia ser uma miragem, mesmo que com eventuais reuniões de líderes dos dois países, emissários norte-americanos e europeus, declarações da ONU etc., afirmando que “nada muda, a paz não se torna mais concreta, ao contrário, parece se distanciar cada vez mais” e a conclusão é a de que todos esses anos de violências e fracassos nas negociações só criaram mais ódios e desconfianças entre os dois povos.

Em resumo, por mais força e poder que tem Israel, mesmo que consiga destruir o Hamas, como pretende, o conflito continuará se não forem resolvidas questões essenciais, como um efetivo Estado Palestino e a desocupação da faixa de Gaza,considerada como uma prisão a céu aberto (ver Viagem à palestina: prisão a céu aberto de Adriana Mabilia, Editora Civilização Brasileira, 2013, que considera a Faixa de Gaza como “um gueto sufocante”). 

Um ano depois da publicação do livro, na madrugada de 18 de julho de 2014, forças israelitas e carros blindados entravam na Faixa de Gaza. Era o início da segunda fase do que foi chamada de Operação Margem Protetora. Uma matéria publicada no jornal El País no dia 28/12/2014 por Carmem Rangel afirma que “A faixa de terra palestina foi submetida durante 51 dias a mais dura ofensiva militar por parte de Israel desde 2005(...) com 2.205 palestinos mortos durante os bombardeios e a incursão terrestre, dos quais 1563 eram civis, incluindo 538 menores de idade e no lado israelense, os foguetes das milícias e fogo de morteiro terminaram com 71 vidas, seis civis”.

As consequências, os dramas que uma guerra traz para a população em geral e crianças em particular, como no caso específico da Faixa de Gaza, está muito bem expressa no documentário Nascido em Gaza, lançado em 2014, escrito e dirigido pelo cineasta ítalo-argentino Hernán Zinacompanha dez crianças que vivem na Faixa de Gaza, relatando os horrores da ofensiva israelense, os escombros de uma cidade e os efeitos da violência da guerra em crianças. 

E apesar do grande número de vítimas em 2014, é menor do que nos primeiros 19 dias de guerra em outubro de 2023. Segundo a ONU, desde o início dos bombardeios 2.360 crianças morreram e 5.364 ficaram feridas na Faixa de Gaza que representa quase 40% de todos os mortos no território, cerca de 6.500, sendo considerada a escalada mais mortífera na Faixa de Gaza (e também em Israel) desde 2006. 

O que é Hamas e o que ele quer? Trata-se de um grupo palestino que governa a Faixa de Gaza desde que ganhou as eleições em 2006 (e assumiu o poder em 2007) e que defende a destruição de Israel, como não consegue e nem conseguirá (há uma desproporção de forças militares, armas, o apoio dos Estados Unidos a Israel etc.), os conflitos continuarão e esta é mais uma guerra com Israel desde que o Hamas assumiu o poder. Ao longo do tempo, houve uma ampliação da ocupação, se construíram muros - como na Cisjordânia, com mais de 700 quilômetros - e em Gaza, não um lar, mas um espaço de uma asfixiante ocupação.

Os conflitos antecedem à formação do Hamas. Pelo menos desde o assassinato de Itzhak Rabin em 1995 há, como diz Guila Flint, um quadro cíclico de conflitos de Israel com o mundo árabe, particularmente com os palestinos “que já dura mais de cem anos” (ver livro de James Gelvin, professor de História Moderna do oriente Média na Universidade da Califórnia (Los Angeles) Israel x Palestina: 100 anos de Guerra, Edipro, 2017) e The Arab Uprisings: What Everyone Needs to Know (Os levantes árabes: o que todos precisam saber), 2012 e afirmava algo que se aplica ao atual conflito: a ausência de um horizonte de solução pacífica, que gera uma radicalização cada vez maior, tanto em Israel como nos territórios palestinos. A propalada necessidade de segurança para garantir a paz, não conduziu e nem está conduzindo nem a segurança nem a paz.

Existe um caminho que possa levar a paz, a uma solução justa e durável do conflito? O retorno do primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu empossado em 29 de dezembro de 2022 com apoio dos partidos ultraortodoxos e de extrema direita torna isso mais distante  e certamente não ocorrerá sem o reconhecimento do direito à autodeterminação (soberania) palestina em seu próprio estado, o fim da expansão de assentamentos ilegais que constituem um grande obstáculo para alcançar a paz, assim como o fim da ocupação como condição indispensável e mais: a impossibilidade de negociar uma paz dá continuidade a espiral de violência, como está ocorrendo e no caso da Faixa de Gaza com o uso de uma força desproporcional, sem distinguir entre a população civil, incluindo crianças, vítimas dos bombardeios e os combatentes do Hamas.

Quanto ao papel das redes sociais nesse processo, com a polarização e descontextualização, mostra que mesmo com a existência de leis de combate a desinformação, como nos países da União Europeia, é muito difícil de ser aplicada. Como fazer isso em grupos de WhatsApp, por exemplo? Ou no Telegram? Como,especialmente numa guerra, ter o controle do “fluxo desenfreado” de desinformação online que circula nas redes sociais? 

De qualquer forma, em que pese às dificuldades, há a necessidade de uma lei que regulamente as redes no Brasil. A lei que a regulamenta é o Marco Civil da Internet, aprovada em 2014, mas a legislação, por exemplo, não responsabiliza as plataformas pelas publicações feitas por terceiros, ainda que esteja sendo divulgadas informações falsas.

É de fundamental importância combater o impulsionamento de publicações antidemocráticas e as mentiras nas redes sociais, e não apenas em momentos de guerra se esta pode ser uma excelente oportunidade de retomar a discussão e aprovar uma regulação das redes sociais, algum tipo de vigilância e não permitir as mentiras, fake news, manipulações e crimes de ódio como o antissemitismo e a islamofobia. Nesse sentido, é importante destacar como informa uma matéria publicada no Congresso em Foco por Lucas Leiva no dia 26 de outubro de 2023 que entidades judaicas no Brasil, como o Instituo Brasil-Israel, alertam para aumento da islamofobia “Movimentos de representação da comunidade judaica no Brasil publicaram alertas para a escalada de crimes tanto de antissemitismo quanto de islamofobia em decorrência da polarização decorrente da guerra Israel-Hamas. Além de repudiar a islamofobia, as entidades ressaltam que tais atitudes acabam afetando as duas comunidades, nenhuma delas envolvida com o andamento do conflito” (.).

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