Convivendo com a Diabetes: a luta por tratamento adequado em Natal
Natal, RN 20 de jun 2024

Convivendo com a Diabetes: a luta por tratamento adequado em Natal

5 de novembro de 2023
7min
Convivendo com a Diabetes: a luta por tratamento adequado em Natal
Mônica Ciríaco Fernandes, 38 anos, descobriu a diabetes tipo 1 há 10 anos

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Estranhamento, negação, rebeldia, até a aceitação e a convivência. Estas são algumas das diversas fases do diagnóstico da diabetes, uma doença crônica que afeta mais de 16 milhões de pessoas no Brasil, mas ainda requer conscientização sobre prevenção e cuidados. Somente no Rio Grande do Norte, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde realizada em 2018 pelo IBGE, existem cerca de 135.000 pessoas diagnosticadas com diabetes. No Novembro Diabetes Azul, a Agência Saiba Mais traz relatos de potiguares sobre a vivência com a doença e as dificuldades em encontrar tratamento adequado na capital potiguar.

Por se tratar de uma condição crônica, o acompanhamento é para a vida toda e requer uma rotina de escolhas, cuidados constantes, atenção rigorosa, atividade física e, essencialmente, a administração regular de insulina. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) é o responsável pelo tratamento da doença, reconhecendo que a regularidade é fundamental para uma vida sem complicações. Mas na capital potiguar, o fornecimento de insulina de maneira descontinuada pela prefeitura tem colocado a vida de diabéticos em risco. Há quase três meses, os pacientes portadores da Diabetes Mellitus tipo 1 (DM1) estão sem receber a insulina Tresiba.

Ao longo do tempo, e principalmente se a doença não estiver bem controlada, o diabetes pode causar complicações como problemas nos olhos, nos rins, perda de sensibilidade nos pés, acidente vascular cerebral (AVC) e infarto. Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, o diabetes é uma das maiores causas de cegueira, uma das maiores causas de falência dos rins e necessidade de diálise, a maior causa de amputação não traumática de membros inferiores e é um grande fator de risco de doenças vasculares no cérebro e no coração. Existe também risco aumentado para outras complicações, como depressão, demência, câncer, alterações dentárias, fraturas dos ossos e insuficiência cardíaca.

Por isso, “a falta de insulina e insumos trazem muitos problemas”, denuncia Mônica Ciríaco Fernandes, 38 anos. Ela foi diagnosticada em 2013 com diabetes tipo 1, caracterizada por pouca ou nenhuma produção de insulina, hormônio produzido pelo pâncreas que regula o nível de glicose no sangue. Ela já vinha apresentando sintomas da doença, como sede excessiva, micção frequente, dificuldade para enxergar e fortes dores no estômago. Já deu entrada no hospital em estado de coma. Ainda assim, a falta de realização de um exame de glicemia prolongou o problema com a prescrição de soro glicosado.

“Só quando o médico cubano entrou no plantão pediu para que fosse verificada minha glicose, que estava acima de 800 mg/dl. Pararam de dar soro glicosado e tomei insulina. Foi aí que descobri a diabetes”, revela Mônica.

Mãe de dois filhos, a história de Mônica é um retrato das lutas diárias que os diabéticos enfrentam na cidade de Natal, desde o diagnóstico até a manutenção de uma vida saudável com uma condição crônica.  

“As pessoas não entendem o que é a diabetes, não respeitam o diabético”, desabafa Ciríaco.

A vida de Mônica após o diagnóstico é uma história de mudanças radicais. Como portadora de diabetes tipo 1, ela se viu confrontada com a necessidade de restringir sua dieta e dependência de insulina para se manter viva e saudável. A transição para um estilo de vida focado na gestão da glicose não foi fácil. A paciente relata o desafio de renunciar a muitos de seus alimentos favoritos e se adaptar a um novo padrão de vida, onde a glicose no sangue e a administração de insulina dominam seu cotidiano.

Quanto mais descompensado estiver o diabetes, maior os riscos de desenvolver complicações que, em geral, vão aparecendo de modo silencioso. Por isso, Mônica avalia que o maior obstáculo enfrentado por ela é o acesso limitado a tratamentos e medicamentos. A falta de fornecimento regular e consistente de insulina pela Prefeitura de Natal, essencial para seu controle de glicose, a forçou a enfrentar uma série de problemas de saúde, incluindo micro derrames nos olhos, infecções de pele e problemas de visão. Ela destaca como a luta para obter insulina suficiente se tornou uma batalha diária, com visitas frequentes a médicos, dificuldades em comprar medicamentos e lutas constantes para obter tratamento adequado.

“Eu estou preocupada. Sou uma pessoa razoavelmente jovem, só tenho 38 anos, e já tenho sequelas da diabetes. Já estou com dificuldade de enxergar, se passo o dia inteiro em pé trabalhando sinto os pés e mãos dormentes, muitos inchaços, infecções urinárias e na pele”, revela Mônica.

As dificuldades no controle da diabetes têm acarretado obstáculos ao mundo do trabalho. “Eu estou hoje extremamente triste, sem poder trabalhar”, reclama. Para ela, o estigma e a falta de compreensão sobre a doença frequentemente tornam difícil encontrar e manter um emprego estável.

Sua história traz à tona questões críticas do sistema de saúde na capital do Rio Grande do Norte, como a falta de acesso a tratamentos e medicamentos essenciais, e o impacto social e emocional que isso causa. Mônica enfatiza a importância de uma abordagem multidisciplinar para o tratamento da diabetes e o apoio aos pacientes portadores da doença em todas as etapas de suas jornadas. Ela também chama a atenção para a necessidade de uma maior conscientização pública sobre a diabetes e a necessidade de recursos apropriados para o tratamento dessa condição crônica.

PROSUS

Pacientes que dependem do Prosus, um serviço administrado pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Natal, têm enfrentado, desde 2012, um dilema constante devido à falta de regularidade na distribuição de insulina.

Em agosto de 2022, representantes da Associação Potiguar Amigos dos Diabéticos (APAD), do Ministério Público, da Defensoria Pública, da Secretaria Municipal de Saúde e de um dos fornecedores de insulina se reuniram para abordar a grave escassez de insulina ocorrida no ano anterior. Ao longo de 2022, a prefeitura distribuiu insulina em apenas dois meses. O Ministério Público entrou com uma denúncia, alertando que a falta de regularização poderia resultar em acusações de improbidade contra o prefeito e o secretário municipal de saúde.

Com a reiterada descontinuidade no fornecimento de insulina, a APAD está questionando as ações futuras do Ministério Público: irá denunciar ou demonstrar complacência mais uma vez?

Dentro do Prosus, os funcionários não conseguem explicar as razões por trás dessa interrupção no fornecimento de insulina e não podem fornecer informações sobre quando a entrega será normalizada. Os pacientes que procuram o serviço não têm acesso a um canal de comunicação adequado e são forçados a comparecer pessoalmente para obter informações sobre a falta contínua de insulina.

Desde outubro, a agência Saiba Mais tem solicitado esclarecimentos da Secretaria Municipal de Saúde sobre a interrupção no fornecimento da Tresiba e o prazo para resolver essa questão. Até o momento, a gestão municipal ainda não forneceu respostas para um problema que persiste há vários anos.

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