Esquerda domesticada e direita indomável 
Natal, RN 17 de abr 2024

Esquerda domesticada e direita indomável 

5 de novembro de 2023
3min
Esquerda domesticada e direita indomável 

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Umas das ideias da esquerda que me atraiu foi a de movimento. Fui tomado, sobretudo, no movimento estudantil, por um sentimento “de que uma nova mudança em breve vai acontecer". Como um jovem advindo da lentidão e conservação dos hábitos interioranos, fazer militância política transformou as ideias de mundo e de tempo.  

Logo de cara, percebi que havia mundos.  E não o mundo único de até então. Mundos estéticos diversos: Caetano, Chico, Gil, Rita Lee, Pink Floyd, etc. E não só Luiz Gonzaga, Trepidant´s, Sidney Magal, Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Renato e seus Blue Caps, Roberto Carlos e Erasmo que eu curtia quando menino.

Nesta atmosfera política e moral, adentrava mundos fantásticos. Aprendi que eu podia expressar o que pensava e sentia sobre o país e, também, experimentar novos modos de vida. O país inaugurava uma nova gramática construída pela prática de amores que antes não ousavam dizer o nome, pois jovens tomavam para si a máxima "é proibido proibir". Cuspiam na estrutura corroída do patriarcado e das instituições políticas autoritárias da República. Foi assim que rompi com conservadorismos arraigados. Como nos versos do poeta Arthur Rimbaud, "adentrei cidades esplêndidas" e, assim, acessei outros mundos da existência. 

Por isso, sempre concebi a esquerda como movimento, mudança, revolução, metamorfose e transformação! Um movimento que ousa e não se prende aos pragmatismos das circunstâncias. Esquerda como significado de não domesticação. Infelizmente não é mais o que vivenciamos hoje.

As disputas eleitorais e a lógica das conveniências da governabilidade transformaram a esquerda numa ideia domesticada.  Basta que observemos as composições políticas dos governos estadual e federal.  Cabem Lira, Álvaro Dias, Garibaldi e cia… a lógica é não ousar. Vale o discurso da adaptação aos "novos" tempos da ampla composição política.

Desejo que as candidaturas de Natália Bonavides (Natal) e de Guilherme Boulos (São Paulo), em 2024, enfrentem o marasmo do mesmo e reinaugurem a ideia de esquerda que ousa e que funda valores para além das circunstâncias e conveniências eleitorais.

Afinal de contas, assistimos a uma direita indomável pautada pela agenda de costumes. O que significa que, nesta luta, devemos levar a sério a gestação intelectual de uma cultura crítica. Mais ainda, valorizar a importância dos intelectuais e artistas nesta agenda.

A história tem demonstrado que esquerda não domesticada é aquela que tem por base um pensamento crítico e que não só aperta parafuso. 

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