“A Edição do Nordeste”: uma jornada pela identidade e luta de classes
Natal, RN 5 de mar 2024

“A Edição do Nordeste”: uma jornada pela identidade e luta de classes

3 de dezembro de 2023
13min
“A Edição do Nordeste”: uma jornada pela identidade e luta de classes

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Usar o cinema como ferramenta de reinvenção para oferecer perspectivas diversas sobre uma região já tão estereotipada. É assim que o filme "A Edição do Nordeste", dirigido e escrito por Pedro Fiuza, mergulha na essência do cinema brasileiro para reeditar obras fundamentais na construção do imaginário nordestino. Inspirado no livro e peça "A Invenção do Nordeste", o documentário é uma jornada não apenas da identidade cultural da região, mas sobre luta de classes.

A fala sobre identidade coletiva nesses trabalhos é um alerta de como essa identidade coletiva imposta pode ser apenas mais um “avatar” de opressão”, alerta o diretor Pedro Fiuza.

Fazendo uma homenagem-manifesto ao cinema brasileiro, o filme tem circulado em importantes festivais como o Festival do Rio e recebeu o Prêmio da Crítica na 10ª Mostra de Cinema de Gostoso, realizada no município de São Miguel do Gostoso, distante 102 km da capital potiguar, entre os dias 24 e 28 de novembro. Com produção da Casa da Praia Filmes, o documentário reforça o lugar de importância do Nordeste na cinematografia nacional.

A Edição do Nordeste" chegou em São Miguel do Gostoso junto com 5 outros filmes e 9 direções do Rio Grande do Norte. Teve filme dirigido por Alice Carvalho, Larinha R. Dantas e Vitória Real (Navio), Jefferson Cabral (Moventes), Maísa Tavares Soares e Clara Leal (Nós do Audiovisual), Cristina Lima e Juliana Bezerra (Maremoto) e Gustavo Guedes (Diálogos Indígenas do Nosso Tempo).

O documentário do produtor, diretor e membro fundador da Casa da Praia Filmes, Pedro Fiuza, é construído com cenas de 28 longas e curtas brasileiros, de 1938 a 1980, que retratam o Nordeste sob diferentes aspectos. A obra traz reflexões sobre como o cinema contribui para a criação do imaginário sobre a região e seu povo.

Confira na íntegra entrevista que a Agência Saiba Mais fez com o diretor Pedro Fiuza.

SAIBA MAIS: Como surgiu a ideia de criar o documentário "A Edição do Nordeste" e reeditar filmes essenciais para o imaginário nordestino?

PEDRO FIUZA: Surgiu logo após a estreia do espetáculo “A Invenção do Nordeste”, do Grupo Carmin, do qual faço parte, para dar continuidade à pesquisa artística acerca da obra homônima de Durval Muniz, o qual nós estávamos em contato a vários anos. Portanto já tínhamos feito a peça e queríamos fazer também um filme sobre seu trabalho. O filme se inspira tanto no livro de Durval quanto na peça, dirigida por Quitéria Kelly e escrita por Henrique Fontes e Pablo Capistrano.

SAIBA MAIS:  Pode nos falar sobre o processo de seleção dos filmes que foram reeditados? Quais critérios foram considerados para escolher essas produções?

PEDRO FIUZA: O plano inicial era selecionar os 33 filmes citados na filmografia do livro de Durval. Mas na pesquisa por visualizar esses filmes, não encontramos 8 deles, filmes perdidos e que não existem mais ou só restaram trechos, reduzindo o recorte para 25. Ainda nesse processo de busca em acervos, nos deparamos com várias outras obras que poderiam complementar nosso documentário, atualizando o debate, pois originalmente a filmografia compreendida no livro vai de 1938 a 1969. Então nos parecia indispensável opinar sobre o que o cinema brasileiro após esse período falou sobre o Nordeste. Contudo, ficou inviável inserir todo o material que queríamos e o trabalho já estava se encaminhando para virar um longa-metragem, então resolvemos voltar ao plano inicial, utilizando os 25 filmes encontrados e apenas atualizando com: dois exemplares que abrangessem o Rio Grande do Norte, estado de origem de nossa obra que são "Boi de Prata", do potiguar Augusto Ribeiro Jr. (1980) e "Theodorico, O Imperador do Sertão", de Eduardo Coutinho (1978), filmado aqui; além de "O Mestre de Apipucos", de Joaquim Pedro de Andrade (1959), importante por retratar Gilberto Freyre, muito presente nas pesquisas. Chegamos então aos 28 filmes finais, expandindo ainda o período das obras até 1980.

SAIBA MAIS: Qual é o papel que você vê para "A Edição do Nordeste" na preservação da cultura e memória audiovisual da região?

PEDRO FIUZA: Eu acho que o filme joga uma luz acerca da preservação das obras ao mostrar que nós temos uma rica história do cinema brasileiro e ilustrar com filmes que sofreram diferentes tratamentos de preservação, dos muito bem cuidados até aqueles que foram perdidos. As diferentes qualidades de imagens das obras contidas evidenciam como estamos lidando com a memória do nosso cinema e, consequentemente, nossa cultura. Como muitos dos filmes não foram produzidos no Nordeste, mas sim sobre o Nordeste por produtoras sobretudo paulistas ou cariocas, creio que estamos falando de uma preservação não apenas Nordestina, mas nacional, e da importância de conservar todos os nossos filmes. Eu estou falando de preservação audiovisual dessas obras, já que a preservação cultural é algo mais amplo e que "A Edição do Nordeste" encara de outra forma.

SAIBA MAIS: Como foi o trabalho de pesquisa e restauração para dos filmes selecionados?

PEDRO FIUZA: Para a pesquisa nos dividimos em quatro, eu, Matteus Cardoso, Henrique Fontes e Pablo Capistrano para fazer o visionamento das obras. Com isso decupamos todos os filmes a fim de selecionar os pontos de interesse pré-acordados, desde os temáticos que estão na obra de Durval aos do ponto de vista da forma, particulares dos filmes, como o sotaque de alguns atores que claramente não eram do Nordeste ou imagens que repetidamente apareciam nas obras. Nós vimos e revimos os filmes, acumulando muitas horas de trabalho compreendidas em seis anos. As decupagens foram um processo contínuo e que era sempre atualizado a cada visionamento, gerando uma enorme planilha com todas as minutagem que nos interessavam, resultando em um copião de oito horas. Com este copião iniciamos o processo de montagem, utilizando as melhores cópias que conseguimos nos acervos oficiais, algumas restauradas e outras não.

SAIBA MAIS: “A Edição do Nordeste" busca desconstruir estereótipos ou reforçar narrativas já existentes sobre a região? Como você abordou a representação do Nordeste nos filmes escolhidos?

PEDRO FIUZA: Eu pensei no filme justamente para desconstruir alguns clichês reducionistas sobre nós e mostrar como o cinema é uma ferramenta poderosa para ajudar a inventar o que quer que seja, nesse caso uma região e sua cultura própria. É claro que o filme pode também ser lido como uma homenagem ao regionalismo, como tantas vezes ouvimos na circulação da peça, mas isso fica à cargo de cada espectador. Para mim o interessante mesmo é mostrar as engrenagens por trás do espetáculo e cada pessoa decide o que fazer com essa informação. Também não é a minha intenção em atacar a estética regionalista, mas mostrar que ela não é nem de longe a única opção para falar do Nordeste.

SAIBA MAIS: Qual foi a maior dificuldade que você enfrentou durante o processo de produção do documentário?

PEDRO FIUZA: Além do desafio que foi o tempo de pesquisa e o recurso que tínhamos, de R$ 40 mil do edital Cine Natal 2018, a maior dificuldade foi a paralisação da Cinemateca Brasileira durante a pandemia, sofrendo ainda descaso do governo Bolsonaro que queria desmontá-la. O não acesso às obras prejudicava não só o nosso filme mas toda uma memória do cinema brasileiro. Se quando começamos partimos de 8 filmes perdidos, eu tinha medo que nesse tempo mais obras, e não só as que pesquisamos, pudessem se perder, como foi o caso daquelas que estavam no prédio da instituição que sofreu um incêndio. Felizmente, após a pandemia e o governo Bolsonaro, a Cinemateca se reergueu e voltou a suas atividades e pudemos este ano ter acesso a algumas cópias que havíamos pedido anos antes.

SAIBA MAIS: Como você enxerga a contribuição do documentário para o entendimento do papel do cinema na construção da identidade cultural do Nordeste?

PEDRO FIUZA: Eu acredito que esse filme possa ser uma porta de entrada para o assunto, sabendo que uma obra audiovisual tem grande alcance no público, mesmo que muita gente já conheça a obra de Durval. Mas a capacidade do cinema e da comunicação de massa em expandir o que é pensado na academia é imensa, como comprova o próprio Durval em sua obra. E o filme objetivamente informa como o Nordeste foi inventado, com base em seu livro, primeiro pelo IFOCS, IBGE e a elite e finalmente pelas artes, comunicação de massa e o cinema. Contudo, subjetivamente acho que o filme também pode passar essa mensagem, ao ilustrar com imagens tão marcantes que por si só comprovam a força que tem para construir ideologias. Eu espero com esse filme devolver através do cinema esse entendimento, de que o cinema tem essa força e que, de acordo com a forma que organizamos suas imagens ela pode dizer uma coisa, mas se reorganizadas elas podem dizer outra. Se o cinema construiu uma identidade coletiva, investigar como isso foi feito, ou seja, olhar as engrenagens por trás, pode nos fazer questionar essa própria identidade. Eu acho que identidades individuais existem, mas uma identidade coletiva pode ser reducionista e prender numa só coisa, muito mais do que nos emancipar. Como eu não acho que a arte seja o lugar de respostas definitivas, eu espero que esse filme apresente possibilidades do que pode o cinema enquanto ferramenta.

SAIBA MAIS: Os filmes reeditados abordam questões sociais, culturais ou históricas específicas do Nordeste. Como você espera que o público receba essas narrativas atualizadas?

PEDRO FIUZA: Como esse filme é de imagens de arquivo e olha para as obras que ajudaram a construir essas questões, eu espero que o público faça essa leitura também por comparação: do que foi dito por esses filmes e do que se pensa hoje sobre os mesmos temas. Outra coisa interessante é que nesses mesmos filmes há muitas cenas, imagens e temáticas que não são nem regionalistas e nem clichês, mas que não foram lembradas com o passar do tempo. E as jogamos no filme também para mostrar que as obras em si possuem uma complexidade e por isso são filmes importantes para nossa história. Então há nessas próprias obras discussões e narrativas já muito atuais.

SAIBA MAIS: “A Edição do Nordeste" tem o objetivo de alcançar um público mais amplo ou, de alguma forma, provocar uma reflexão mais profunda sobre a cultura nordestina?

PEDRO FIUZA: Tem o objetivo de fazer essas duas coisas. Eu gosto de trabalhar em obras que considerem o público na equação de sua feitura, o chamando para jogar junto e não o deixando de fora. E acredito que a reflexão pode ser profunda na mesma medida, não acho que são coisas opostas e antagônicas. É um chamado para reorganizar essas imagens, para devolver pelo próprio cinema a ideia de que ele pode construir e desconstruir, inventar, desinventar e reinventar de novo. E finalmente de olhar para o passado mas pensar em que cinema nós vamos fazer daqui pra frente, que eu espero que seja de novas e outras construções de imaginários.

SAIBA MAIS: Como diretor do filme, qual mensagem ou impacto você espera deixar na audiência após assistirem a "A Edição do Nordeste"?

PEDRO FIUZA: Para mim esse filme é uma homenagem ao cinema brasileiro e também um manifesto. As imagens que o nosso cinema produziu são absolutamente revolucionárias e apaixonantes. Se deleitar com elas e embarcar numa viagem poética é absolutamente possível. Mas também é possível ao mesmo tempo ficar com uma pulga atrás da orelha ao pensar como, por quê, e a quem serviu essas imagens. O cangaço, por exemplo, foi muito utilizado por narrativas politicamente opostas quem viam o fato a partir de sua ótica e interesse e que produziram imagens para construir e servir a esses interesses. Me parece então que com o passar dos anos nós vamos nos esquecendo como as coisas foram criadas e vamos adotando algumas narrativas como verdades absolutas e que não podem ser questionadas. A identidade coletiva nordestina me parece pontualmente interessante quando ela significa um aumento na nossa autoestima, um antídoto contra a xenofobia. Mas a longo prazo pode significar um aprisionamento de ser a única forma de uma pessoa nordestina se comportar. E a gente sabe que o nordeste, o norte, ou seja, tudo que não está no centro, é inferiorizado de forma intencional. Então, essa intenção de coletivizar a identidade é reducionista e sugere uma dominação. E uma das formas de dominar é através dessa homogeneização, dessa generalização do que um povo pode ser, sem deixar que esse povo seja outras coisas e possua uma diversidade de comportamento. E logicamente, quando se pretende generalizar é sempre para diminuir: uma das coisas que nunca querem que o povo nordestino seja é protagonista, que ocupe os postos de decisões e que tenha poder sobre os recursos. E obviamente quem não quer abrir mão disso é que já está no topo, é a elite, seja ela de qualquer lugar, inclusive do próprio Nordeste. Então, eu acredito que esse filme, a peça, a pesquisa de Durval e muitas outras obras que procuram refletir o tema, não são apenas sobre identidade, mas sim sobre luta de classes. E a fala sobre identidade coletiva nesses trabalhos é um alerta de como essa identidade coletiva imposta pode ser apenas mais um "avatar" de opressão.

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