Santa punheta
Natal, RN 20 de jul 2024

Santa punheta

8 de janeiro de 2022
3min
Santa punheta

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Tocar punheta, bater uma bronha, descabelar o palhaço: muito além de conhecidas expressões para um simples e corriqueiro hábito adolescente, ou que começa a acontecer nessa fase da vida, para André, tal prática era algo impensável e impossível de se concretizar.

Ele já era aquele garoto que ia mudar o mundo, mas ainda não frequentava as festas do "Grand Monde". Tinha então pouco mais de 24 anos, e vontades que não cabiam em si, mas que, aos olhos da igreja católica, a qual era cegamente devotado, significavam pecados.

Desde tenra idade, calores lhe consumiam até mesmo nas noites mais frias daquelas Minas Gerais. Sequer podia imaginar prazeres, ao menos em sã consciência, porque não se permitia sentir, tamanho era o temor de queimar no fogo do inferno. Mas sonhava, que afinal os sonhos não possuem rédeas ou limites.

Sofria imensamente se acordava com as marcas do pecado extravasadas nas roupas íntimas. Aos poucos conseguiu controlar seus instintos até mesmo no subconsciente, porque o gozo, ainda que involuntário, não valia as incessantes penitências feitas na inútil tentativa de aplacar o remorso e o arrependimento de um pensamento vil, apesar de humano.

E foi pela religião, por sua crença e devoção, que desde adolescente aceitou então a triste condição que lhe trouxe até os quase 25 anos com uma só certeza: a de que era proibido se masturbar. Não sabia se era pecado mortal, nem em que trecho exato das escrituras constava expresso o impedimento.

Havia quem dissesse que era contra a natureza, pois o ato sexual individual não tinha a mesma finalidade do sexo admitido pela igreja, que é o sexo para procriação. Outros tantos fiéis chegavam a espalhar uma das primeiras fake news relacionadas ao assunto: a de que o ato repetitivo e constante fazia crescer pêlos nas mãos.

Só sabia que era considerado um pensamento imoral, porque estimulado por uma intenção impura que contamina o homem. Talvez tivesse lido algo em Mateus, no Salmo 24:3 e 4, que o fez interpretar assim: “Quem subirá ao monte do Senhor? Quem há de permanecer no Seu santo lugar? O que é limpo de mãos e puro de coração… “

Foi quando foi surpreendido, num dia qualquer da sua rotina como jornalista, por uma notícia que lhe roubou sua total atenção: o Vaticano anunciou que o papa João Paulo II havia liberado a masturbação, que o autoprazer não era mais pecado. Nem acreditou na novidade! Buscou checar as fontes, ter certeza de que a informação era oficial. E à medida em que confirmava a boa nova, imediatamente uma ereção incontida se pronunciava na sua calça jeans, e não deu tempo nem de finalizar a matéria. Precisou aliviar-se ali mesmo, no banheiro da redação.

Em cinco minutos, uma manchete se transformou em duas. No dia seguinte, as capas estampavam: “Papa autoriza a masturbação” e “Inundação por substância desconhecida e pegajosa atinge cidades mineiras”. Tirou até férias, pra reparar o tempo perdido, e, um mês depois, André reapareceu mais magro, sem tantas espinhas, litros mais leve e centenas de vezes mais alegre.

E até hoje reza um terço diariamente, assim como bate punheta, sem jamais esquecer de dedicar um momento para agradecer ao santo papa que, finalmente, lhe permitiu viver.

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