A fabricação do consenso e os meios de comunicação
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A fabricação do consenso e os meios de comunicação

17 de dezembro de 2023
11min
A fabricação do consenso e os meios de comunicação

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O termo fabricação do consenso foi usado pelo escritor e jornalista Walter Lippmann (1889-1974), autor do influente livro Opinião Pública (publicado em 1922 e no Brasil em 2008 pela Editora Vozes). Um dos seus argumentos, elitista e em conformidade com as classes dominantes dos Estados Unidos é quanto à impossibilidade de uma verdadeira democracia, que não pode ter como fundamento a soberania popular. Para ele, o povo é como um rebanho (rebanho popular, nos seus termos) que se conquista facilmente usando as emoções, medo, e assim, incapazes de uma reflexão crítica sobre os conteúdos a que são expostos, são enquadrados, controlados e devem ser guiados por uma elite. E como se faz isso? Fabricando o consenso.

Jessé Souza no livro Contra o Brasil – como os EUA se uniram a uma organização criminosa para destruir o sonho brasileiro (Editora Estação Brasil, 2020) ao analisar a fábrica do consenso e mais especificamente na parte A produção do consentimento: a ideologia americana e a guerra contra o próprio povo, considera o livro A opinião pública de Lippmann como “um dos mais influentes do século XX no campo da psicologia social e da arte de fabricar consentimento” (p.68) e entre outros aspectos, cita sua ajuda na criação de uma poderosa agência de propaganda do governo (presidente Woodrow Wilson), o Creel Committee, que conseguiu em seis meses tornar “uma nação de pacifistas em fanáticos belicistas”, manipulando o medo, convencendo as pessoas pela propaganda, fabricando o consenso.

Esse consentimento, essencialmente, significa ganhar a adesão e apoio da opinião pública criando o que Lippmann chamou de ilusões necessárias. Elas podem ser de criação de necessidades artificiais ou ao contrário a criação do medo, insegurança ou mesmo o terror.

No final dos anos 1920 e início dos anos 1930, o pensador marxista italiano Antonio Gramsci (1891-1937) em seus escritos do cárcere, formulou o conceito de hegemonia, que resumidamente, afirma que nas sociedades capitalistas (foco de suas análises) o poder se constrói muito mais pelo consenso do que pela coerção, pelo uso da força. A ideia subjacente é a de que não se trata de controlar a população pela força, como nos regimes nazifascistas (do qual ele foi um dos milhões de suas vítimas), mas pela doutrinação e o controle do pensamento, que é mais sutil e eficaz, porque há a legitimação da dominação e nesse sentido os meios de comunicação tem um papel importante.

A concepção de ‘fabricação do consenso’ foi retomada, do ponto de vista crítico, por Noam Chomsky. Nascido em 1928 (Filadélfia, EUA) foi professor do MIT (Massachusetts Institute of Technology), é considerado um dos intelectuais mais importantes do século XX (e continua em atividade) e além de suas análises sobre a mídia, em especial nos Estados Unidos - um dos alvos principais de suas críticas é a manipulação midiática e o seu papel no que ele chamou de fabricação do consenso na sociedade - tem sido também há décadas um dos mais duros críticos da política externa do seu país, além de ter se tornado internacionalmente famoso pelas suas pesquisas em linguística e suas teorias revolucionárias sobre estrutura da linguagem (detalhes sobre a vida e a trajetória intelectual e política de Chomsky está no livro Noam Chomsky: a vida de um dissidente de Robert F. Barsky, São Paulo, Conrad Editora, 2004). 

Em 1988, ele eEdward S. Hermann publicaram o livro Fabricando Consenso: A política econômica das mídias de massa no qual analisam como a mídia manipula a opinião pública, ajudando a fabricar o consenso.

Quatro anos depois, em 1992, a análise foi retomada por Chomsky em vídeo no documentário Consenso Fabricado (o título original é Manufacturing Consent: Noam Chomsky and the Media) dirigido por Mark Achbar e Peter Wintonick (disponível no Youtube). 

Ao analisar os meios de comunicação nos Estados Unidos ele diz que se conhecemos bem os mecanismos de dominação ideológica das ditaduras, o mesmo não se dá sobre como funciona o controle do pensamento em uma sociedade democrática e é exatamente isso que ele procura analisar: o triunfo da lavagem cerebral na democracia liberal que, essencialmente, visa obter, sem violência, sem tortura, a adesão e o consenso.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), se refere à violência simbólica que substitui a violência física e se torna uma arma muito mais letal. Como afirma Alejandro Garcia Mingrone no artigo Violência simbólica de Pierre Bordieu “ao contrário da violência física ou verbal direta, a violência simbólica opera por meio de sistemas de significados, símbolos e valores que são internalizados pelas pessoas e que moldam suas percepções, comportamentos e identidades” https://br.psicologia-online.com/violencia-simbolica-de-pierre-bordieu-1584.html

Para Chomsky os principais meios de comunicação pertencem às grandes corporações que obtém a maior parte de sua receita com publicidade (de governos e empresas) e suas publicações reproduzem notícias que refletem os seus interesses econômicos e políticos,  desejos e  expectativas.

Embora defendam esses interesses, as linhas editorias, como regra, não são explicitadas. Como diz Chomsky “jamais é anunciada como tal; ela é subliminar”. Realizam o que ele chama de uma lavagem cerebral em liberdade.  Para ele “na grande mídia, mesmo os debates apaixonados se situam na esfera dos parâmetros implicitamente consentidos, o que mantém na marginalidade muitos pontos de vista contrários”.

Ao se referir à liberdade de imprensa, por exemplo,  indaga: os jornalistas escrevem com total liberdade ou só o que é permitido pelos donos dos meios de comunicação?

O sociólogo Jessé Souza, em entrevista ao programa Voz Ativa, da TV Cultura afirma que “Ninguém nasce imbecil ou sem noção no mundo. Existem forças que têm interesse nisso, existem forças econômicas que tem interesse na distorção sistemática da nossa realidade e é exatamente isso que ocorre com a nossa mídia”. Para ele, não há pluralidade, divergências de opiniões e que ela é apenas o que ele chama de boca do capital financeiro que distorce a realidade “enquanto a fração financeira organiza o assalto à população”  e faz o seu papel, de distorcer, de fraudar e de mentir o que acontecendo para o público (...) a nossa dominação social, econômica e política está resumida nisso”.

Chomsky cita o caso da Alemanha dos anos 1930 então “o país mais avançado da Europa, na vanguarda em matéria de ciência, técnica, arte, literatura e filosofia” e que depois se tornou “o mais letal, o mais bárbaro Estado da história humana”. O que aconteceu? Entre outros aspectos, o uso muito eficaz da propaganda (rádio, cinema etc.) com o controle total dos meios de comunicação, espalhando o medo (dos bolcheviques, dos judeus, dos ciganos, etc.) e que “bombardeou a população com esse tipo de mensagem, usando as mesmas técnicas de marketing utilizadas por publicitários norte-americanos”.

No documentário Chomsky e Cia, dirigido por Daniel Mermet e Olivier Azam (disponível no canal Curta - https://canalcurta.tv.br/series/chomsky-e-cia) ao analisar como funciona a fabricação do consenso e a manipulação da opinião pública, ele dá exemplo de dois padres da década de 1980, um da Polônia e outro de El Salvador. O polonês se tornou nos meios de comunicação uma espécie do símbolo mundial do terror soviético, enquanto o de El Salvador, o assassinato brutal do padre Oscar Romero não teve muito destaque. Ele foi assassinado no dia 24 de março de 1980 enquanto rezava uma missa. E teve a coragem de lutar contra a ditadura apoiada e imposta pelos Estados Unidos em seu país. Seu assassinato causou muito menos comoção que o de seu colega, o padre Popieluszko assassinado pela polícia em 14 de outubro de 1984. A mídia se mostrou (seletivamente) muito indignada (como em relação a outros  assassinatos). O  do padre polonês chegou às manchetes, e segundo Chomsky, foi 10 vezes  capa do The New York Times,  com muito mais destaque  do que o padre de El Salvador.  

Há muitos exemplos citados por Chomsky de manipulação da opinião pública e da fabricação do consenso nos Estados Unidos. Ele cita dois exemplos. Um sobre a Guerra do Vietnã. Para declarar guerra, o então presidente Lyndon Johnson a justificou dizendo que um navio americano (Maddox) tinha sido “atacado pelos comunistas”. Um relatório oficial, só tornado público muitos anos depois do fim da guerra comprovou que o navio não havia sido atacado. O outro é a guerra contra o Iraque. Aproveitou-se do 11 de setembro de 2001 para dizer (e mentir) que eles possuíam armas de destruição em massa. Fizeram a guerra, com apoio de vários países, dos meios de comunicação, mataram milhares de pessoas, a imensa maioria de civis e inocentes, e depois se descobriu que não havia as armas químicas que usaram como pretexto para a guerra.

E a manipulação com o uso dos meios de comunicação existe não apenas para usar como pretexto para atacar e invadir outros países. Entre outros exemplos podem ser citados como da poderosa indústria do tabaco. No livro Roucos e sufocados. A indústria do cigarro está viva, e matando de João Peres & Moriti Neto (Editora Elefante, 2018), ao analisarem a forma de atuação da indústria do cigarro, afirmam que se trata de “oligopólio em rede que se apropria de culturas, espaços institucionais e mesmo de afetos territoriais para neles introduzir uma lógica cruel de individualismo e consumismo” (p.30), e como faz isso? Pela propaganda, convencendo as pessoas a fumarem, desconsiderando todos os seus malefícios.

Outro exemplo é em relação aos transgênicos. A maior empresa fabricante de sementes transgênicas do mundo, a Monsanto, contratou agências de publicidade para veicularem mensagens positivas sobre transgênicos etc., omitindo dados e posicionamentos inclusive de cientistas, contrários à sua liberação (ver livro O mundo segundo a Monsanto (Editora Radical Livros, 2008), de Marie-Monique Robin, resultado de três anos de pesquisas em diversos países, entre os quais o Brasil, analisa a forma como usou cientistas, políticos, jornalistas etc., para manipular a opinião pública.

Chomsky cita também às mudanças climáticas. Com apoio de cientistas contratados por empresas, e como a Exxon Mobil, que financiou um grupo de lobistas e a promessa de dar US$10 mil a cientistas que escrevessem artigos que diminuíssem a importância das mudanças climáticas, entre eles, Patrick Michaels (1950-2022), que passou a discordar dos cientistas que se referiam as consequências danosas do aquecimento global e teve ampla cobertura nos meios de comunicação.

Ele afirmava que havia não um aquecimento, mas um esfriamento global e a mídia divulgava como se fosse à verdade. Uma matéria publicada no Expresso 50 diz “Nos Estados Unidos a indústria dos lobbies é, provavelmente, a maior indústria de todas. Adiante esta hipérbole, é inegável o contributo que pessoas como Patrick Michaels deram à pseudociência ambiental: este “cientista” era pago pela indústria do carvão para disseminar mentiras sobre o aquecimento global em relatórios bem disfarçados (https://expresso. pt/podcasts/desastres-naturais/2022-08-05-Patrick-Michaels-o-cientista-negacionista-da-emergencia-climatica-pago-pela-industria-dos-combustiveis-fosseis--1950-2022--a47d32a3).

Para Chomsky existem fatores estruturais para essa fabricação do consenso e no caso dos meios de comunicação decorrem do fato de que eles estão inseridos no sistema de mercado. Não são instituições públicas, mas empresas privadas em busca do lucro. Numa sociedade capitalista, a lógica é o lucro, a acumulação e a concentração da propriedade.

Assim, três décadas depois o documentário Fabricando o consenso segue atual e o que restam como forma de resistência são os meios alternativos e independentes, especialmente na mídia digital, que mesmo com dificuldades, em meio a crescente difusão de fake news, mentiras e manipulações, contribuem para a construção do pensamento crítico e de enfrentamento da mídia hegemônica , do consenso fabricado que “determina, molda, manipula e restringe”. Como diz Chomsky, a imagem do mundo que é apresentada à população pelos grandes meios de comunicação tem apenas uma pálida relação com a realidade, onde a verdade dos fatos “encontra-se enterrada debaixo de montanhas e montanhas de mentiras”.

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