Ah, o natal com boneco de neve, urso polar e calor de 40 graus!
Natal, RN 22 de fev 2024

Ah, o natal com boneco de neve, urso polar e calor de 40 graus!

21 de dezembro de 2023
8min
Ah, o natal com boneco de neve, urso polar e calor de 40 graus!

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Dia desses postei nas minhas redes sociais um comentário bem humorado, mais para passar o tempo e me divertir com os amigos, lembrando que muita gente que critica o Halloween por ser uma festa "gringa" ou "importada", celebra com naturalidade o natal, festa que comemora o nascimento de um menino messias no Oriente Médio e que tem na sua formatação atual decoração que remete a bonecos de neve, urso polar e chaminé. Isso num país como o Brasil, em que boa parte das cidades vive calor de quase 40 graus.

Isso não é problema nenhum em um país "novo" como o Brasil (discutir a colonização e a vida dos povos originários é um outro assunto, de importância, mas para outro texto) e a política de "importar" festas e tradições culturais é milenar, vide os povos que foram dominados pelo Império Romano etc e tal. O curioso mesmo é a atitude de "dois pesos duas medidas" para celebrações distintas. E também o non sense de tradições enraizadas que mal conseguimos detectar o quanto são desconectadas de nossa realidade (o que também não é problema, o problema real é achar que elas fazem parte da realidade).

Mas comecemos pela "importação" de festas. O Halloween, como se sabe, consolidado no Brasil apenas nas últimas décadas com a expansão dos cursos de inglês, filmes de Hollywood e internet, nasceu de tradições celtas, povo que habitava as Ilhas Britânicas séculos antes da entrada do cristianismo na região, entre 500 e 1.100. Em um festival, conhecido como Samhain, celebrava-se a passagem do verão para o inverno e tinha uma conotação sobrenatural já que os celtas acreditavam que, na época do Samhain, as barreiras existentes entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos deixavam de existir. Sendo assim, os mortos do último ano peregrinariam pela terra antes de irem para o seu destino final. Com o cristianismo consolidado na Europa, a festa foi incorporada, em 1º de novembro, passou a ser comemorado o All Saints’ Day, o Dia de Todos os Santos, e no dia 2 de novembro, instituiu-se o All Souls’ Day, um dia reservado para oração pelas almas dos mortos que se encontravam no purgatório. Em meio a essas celebrações, o dia 31 de outubro acabou transformando-se no All Hallows’ Eve, ou véspera do Dia de Todos os Santos. Com a popularização do Halloween nos Estados Unidos a partir do século 19, com a grande migração de irlandeses para lá, a festa ganhou o mundo. E o Brasil, inclusive.

E também o Carnaval, tornado tão brasileiro, digamos, é uma festa que remete ao Egito antigo e à cultura greco-romana, de celebrar a colheita e a inversão de papéis (reis e mendigos "trocam" de lugar por alguns dias, homens se vestem de mulheres). Nas festas de origem greco-romana, havia as bacanais (festas dionisíacas, para os gregos) dedicadas ao deus do vinho, Baco (ou Dionísio, para os gregos), marcados pela embriaguez e pela entrega aos prazeres da carne. O cristianismo, resolveu incorporar a festa em vez de tentar eliminá-la. Durante a Alta Idade Média, foi criada a Quaresma, num período de 40 dias antes da Páscoa caracterizado pelo jejum. Tempos depois, as festividades realizadas pelo povo foram concentradas nesse período e nomeadas carnis levale, do latim, cujo significado é “retirar a carne”.  A Igreja pretendia, dessa forma, manter uma data para as pessoas cometerem seus excessos, antes do período da severidade religiosa. No Brasil, o carnaval entrou numa mescla do entrudo, uma brincadeira de origem portuguesa que, na colônia, era praticada pelos escravos, onde pessoas saíam às ruas sujando umas às outras jogando lama, urina, com a organização dos cordões e ranchos,  festas de salão, os corsos, e, por fim, as escolas de samba. Afoxés, frevos e maracatus também passaram a fazer parte da tradição cultural carnavalesca brasileira. 

Enfim, todas as festas vieram em maior ou menor escala da Europa ou mesmo do Oriente (berço da civilização e anterior à "civilização europeia") no que chegamos então à festa de Natal. 

O Natal teve origem em festas pagãs que eram realizadas na antiguidade. Nessa data, os romanos celebravam a chegada do inverno (solstício de inverno) e cultuavam o Deus Sol. Outros povos da antiguidade também celebravam a data, seja pela chegada do inverno ou pela passagem do tempo. É o caso dos mesopotâmicos, que celebravam o Zagmuk, uma festa pagã em que um homem era escolhido para ser sacrificado. Somente a partir do século 4, e com a consolidação do Cristianismo, a festividade foi oficializada como Natale Domini (Natal do Senhor, e o termo Natal tem origem na palavra do latim “natalis” que, por sua vez, é derivada do verbo nascer). Como não se sabe ao certo o dia em que Jesus nasceu, essa foi uma forma de cristianizar as festas pagãs romanas, dando-lhes uma nova simbologia, e a escolha da data foi determinada pelo Papa Julius I (337-352) e, mais tarde, foi declarada feriado nacional pelo Imperador Justiniano, em 529. Com o passar dos séculos, a festa se consolidou como a principal festa cristã, e em diversos países foi se criando uma mitologia em torno dela (o presépio, elementos como a sagrada família, os três reis magos, o anjo, a estrela de Belém.

Nada anormal que no Brasil "herdemos" celebrações e mitologias de outros povos. Mas, vamos nos deter em aspectos práticos de ornamentação e costumes.

Árvore de natal surgiu na Europa porque em meio à neve e ao inverno intenso, as famílias reunidas queriam lembrar que havia lá fora uma floresta e que o verão iria chegar. A celebração da ceia em casa remete mais à impossibilidade de sair na neve do que a qualquer outra coisa. Nesse cenário invernal, nada mais natural que o símbolo de entrega de presentes (Papai Noel, o Santa Claus, antigo São Nicolau) ande agasalhado em um trenó (ainda que voador) e puxado por renas, animais que só vivem em temperaturas frias.

Porém, se é normal que europeus e estadunidenses celebrem com esses elementos a festa de natal, o que dizer de nós moradores de um país tropical abençoado por deus e bonito por natureza? De tanto copiar ipsis litteris a festa alheia, nos vemos hoje com decorações de algodão simulando neve em lojas de rua onde entramos já pingando de suor. Colocamos árvores de plástico nas casas quando qualquer família poderia passar a festa em meio a árvores reais, seja em condomínios, casas, parques etc.

Recordo uma vez que recebi um amigo australiano para passar o fim de ano em Ponta Negra e ele se chocou com o fato das pessoas ficarem arrumadas (ou melhor, vestidas demais) dentro de casa para a ceia de natal, já que no clima quente daqui o ideal seria camiseta bermuda e chinelo (como, aliás, ele se vestiu e curtiu - pingando de suor ainda assim - a festa). Parece chique as pessoas bem vestidas e usando cachecol no natal, como vemos nos filmes "natalinos", mas como diz minha irmã Rosa, que mora em Londres há anos, "elas estão apenas agasalhadas e tentando não sentir frio". Nesse aspecto o calor tropical é uma benção que aproveitamos enquanto celebramos uma neve que a maioria de nós nunca viu e um velhinho que desce pela chaminé, coisa que nem existe no Nordeste. Urso polar? Boneco de neve? Assim como o caviar da música de Zeca Pagodinho, nunca vi, só ouço falar, assim como você. Ainda assim, me permiti, a título de bom humor e certa zombaria, bater uma foto ao lado de um deles em noite que conferia a decoração natalina (muito bonita, por sinal) em Ponta Negra, bairro mais turístico de Natal. Pena que não havia nenhum elemento que remetesse ao Nordeste. Mas como estava todo mundo se divertindo, eu que sou o chato mesmo. Ho ho ho, feliz natal então e prepare seu peru ou tender e limpe sua chaminé para o bom velhinho deixar seu presente.

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