Gabriela Biló: “O fotojornalismo retrata a narrativa, não a realidade”
Natal, RN 5 de mar 2024

Gabriela Biló: “O fotojornalismo retrata a narrativa, não a realidade”

2 de dezembro de 2023
5min
Gabriela Biló: “O fotojornalismo retrata a narrativa, não a realidade”
Foto: Mariana Ceci / Agência Saiba Mais

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“Vós que entrais, abandonai toda esperança”. Na Divina Comédia, de Dante Alighieri, essa é a frase cravada nos portões do inferno. Foi ela que o professor Alex Galeno, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), usou para descrever o contexto que se desenhava em torno da chegada de Gabriela Biló a Brasília. 

A fotógrafa paulistana chegou à capital brasileira para cobrir a chegada ao poder do presidente Michel Temer, na madrugada que marcaria o golpe contra a presidente Dilma Rousseff, em 2016. Retornaria anos depois, em um cenário ainda mais incerto para o país: a ascensão ao poder do presidente Jair Bolsonaro e a chegada da Covid-19 ao Brasil. 

Do deboche com as pessoas mortas pela Covid-19 à reuniões com a equipe ministerial marcada por símbolos de arminhas feitos com as mãos, Biló realizou um dos mais completos registros desse momento da história brasileira a partir do Planalto Central. 

Auditório da UFRN ficou lotado / foto: Mariana Ceci

Ela esteve em Natal na última quarta-feira, 29 de novembro, para o lançamento local de seu livro “A verdade vos libetará” (Editora Fósforo), que reúne os principais registros de sua carreira, que começou cobrindo os protestos de 2013 - intimamente relacionados à situação política que se desdobraria no país nos anos seguintes.

Em um debate organizado pela Cooperativa Cultural no Núcleo de Estudos e Pesquisas em Ciências Sociais (NEPSA) da UFRN, Biló dividiu a mesa com o podcaster Cristiano Botafogo, do “Medo e Delírio em Brasília”, que junto com Pedro Dalto se dedicou a registrar em áudio o diario político “dessa badtrip escrota que a gente se meteu”; o professor Alex Galeno, o presidente do Adurn Sindicato, o sanitarista Oswaldo Negrão, e o presidente da Cooperativa Cultural, José Correia. 

“O Brasil tem um problema bastante sério, de rapidamente esquecer de suas tragédias. São tantas tragédias semanais, diárias, que tendemos a esquecer o que aconteceu um ano ou dois para trás, imagine uma década. Esse livro é fundamental porque traz várias questões que não devem e, principalmente, não podem ser esqueceidas”, destacou Oswaldo. 

A SAIBA MAIS conversou com Gabriela Biló antes da palestra da UFRN. Na entrevista, Biló falou sobre sua visão sobre a relação dos acontecimentos que marcaram o início de sua carreira, em 2013, e o cenário que viu se desenrolar em Brasília nos anos seguintes; sobre o papel do fotojornalismo no mundo da Inteligência Artificial generativa, e destaca: “o fotojornalismo não retrata a realidade. Ele retrata uma narrativa. Ele tem lado e é político, como tudo que fazemos”.

Confira a entrevista:

SAIBA MAIS: Sua trajetória no fotojornalismo começa na cobertura dos protestos em 2013 em São Paulo. Em Natal, esses protestos também foram muito significativos, inclusive tendo começado aqui. Como você avalia esse momento e seus impactos nos acontecimentos que você viu se desdobraram nos anos seguintes em Brasília?

Para mim, em 2013, foi o começo de manifestações populares de rua junto com a internet, um novo momento. E aí, no finalzinho de 2013, a gente vê umma apropriação de pauta e uma troca de narrativa. O que até então era Movimento Passe Livre acabaria sendo tomado pela extrema direita para virar um movimento pelo impeachment da Dilma, e eu acho que nesse momento foi quando a gente perdeu a noção de como a extrema direita já dominava as redes, né? E aí, a gente acaba tendo um presidente eleito por redes sociais. Acho que é um pouco por aí que o livro pensa nesse momento. 

SAIBA MAIS: Você mencionou a questão da internet. Hoje, nós vivemos uma realidade em que isso é indissosciável da política e, quando falamos em jornalismo e, em especial, o fotojornalismo, novas tecnologias aparecem para fazer inclusive disputas de realidade, como a Inteligência Artificial generativa de imagens. Como você enxerga esse novo momento?

O fotojornalismo nunca esteve tanto em evidência, né? Eu acredito que a internet é uma ferramenta de revolução, e a inteligência artificial é só mais uma ferramenta, não acho que ela veio para estragar nada. Acho que ela, se bem dominada, pode ser usada a nosso favor. Sou uma tecnocrata, a favor dos avanços tecnológicos. 

As pessoas dizem "ah, as máquinas vão roubar seu emprego", e eu não faço questão de trabalhar, entende? Uma coisa é você existir, outra é você trabalhar, então encaro a tecnologia apenas como uma ferramenta, e cabe a nós saber dominar essa ferramenta, não é?

Eu penso que o fotojornalismo e sua credibilidade nunca estiveram tanto em pauta, em um mundo onde a gente consome tanta imagem. Então hoje em dia, quando você vê uma foto que tem uma assinatura que mostra que aquilo é real, isso dá ainda mais importância ao fotojornalismo. 

SAIBA MAIS: Queria que você falasse um pouco sobre o novo momento político que vivemos. Como está sendo cobrir Brasília após a eleição de Lula? O que não podemos perder de vista nesse momento de mudança?

O que eu acho é que esse sistema já faliu, a gente vê ele se debatendo como um peixe fora d'água. A gente vê a extrema direita indo e voltando, ainda é um processo mundial. Vemos por exemplo o que aconteceu no caso de Milei, na Argentina. Lula ganhou, mas foi uma diferneça muito pequena, né? 

Acho que precisa haver uma distribuição do poder, porque não dá para ficar focado em uma figura só. Ninguém é eterno. Acredito que qualquer líder que centraliza em sua figura o poder enfraquece a política, e com Lula não é diferente. Eu acho que ele tem um nome muito forte, ele ganhou as eleições, mas ele não é eterno e precisamos fortalecer a política, e não a pessoa, caso contrário, vamos sempre acabar retornando para os mesmos cenários. 

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