Nota 1000 na redação do Enem
Natal, RN 24 de fev 2024

Nota 1000 na redação do Enem

18 de janeiro de 2024
6min
Nota 1000 na redação do Enem

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Sou docente desde o dia 10 de setembro de 1997 e já trabalhei da educação básica ao doutorado. Talvez, por ter sido um aluno bastante normal, sem brilhantismo nenhum, sem nenhuma magia e sem que os resultados da minha tese de doutorado não conter informações que revolucionassem o mundo, na minha prática docente, até hoje, costumo tratar igual os melhores alunos e aqueles com mais dificuldades de aprendizado. Aliás, se tenho que dar atenção especial a algum aluno, busco me aproximar daqueles alunos que percebo que possuem maiores dificuldades de aprendizado.
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Recentemente, saiu o resultado do ENEM 2024 e começam a pipocar os resultados dos melhores estudantes. Chama-se muito a atenção os holofotes da mídia direcionados aos estudantes que obtiveram nota 1000 na redação, uma nota máxima de excelência. Das 60 notas 1000 no país, 25 delas foram da região Nordeste e 6 delas de estudantes do Rio Grande do Norte, estado que eu moro.
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Esses dias têm me causado surpresa, estranheza, e até receio, a divulgação dessas notas de excelência em redação do último ENEM. Candidatos a gênios começam a aparecer na mídia e nas postagens de grupos de rede social. Instituições de ensino, as públicas, começam a ser elevadas à categoria de excelência devido ao fato desses candidatos a gênio terem estudado nelas, com todas as dificuldades possíveis. Só para citar um caso, LOUVÁVEL, um rapaz do Rio Grande do Norte, aluno do IFRN, precisava se deslocar 100 km cada dia para poder ter o seu direito constitucional garantido que é o de estudar enquanto menor de idade. Esse rapaz, BRILHANTE, foi um nota 1000 na redação do ENEM 2024.
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Disso tudo, duas questões me veem à cabeça e uma delas é: por que não celebramos o resultado daqueles estudantes que tiraram média 500 e poucos na redação do ENEM e estão suando para tentar uma vaga num curso de média baixa em alguma instituição pública? Por que esses alunos de média baixa, amigos do candidato a gênio nota 1000, que também se deslocavam 100km por dia para estudar não são alvos dos holofotes da mídia, tampouco das celebrações dos grupos de rede social? Há como mensurar quem se esforçou mais, numa situação que ambos estão em desvantagem, sendo desrespeitados pelo Estado?
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Outra questão que me coloca a pensar é se devemos mesmo celebrar tais resultados visto que nossa educação passa por um momento delicado. Desde o desgoverno Temer que orçamento público direcionado à educação vem diminuindo vertiginosamente. No desgoverno Bolsonaro, o orçamento para a educação caiu a taxas anteriores ao ano de 2010 e, portanto, sem orçamento e gestão, não podemos fazer uma educação de qualidade. Mais ainda, no âmbito acadêmico, onde conheço mais por estar inserido numa instituição pública, a UFRN, mas não somente na UFRN, cada vez mais educação está sendo moldada como sinônimo de indicadores e percebo um perigo nessa postura visto que, contaminado por Paulo Freire, no meu entendimento, a educação deve ser libertadora e não uma arena de disputas por mais publicação em revistas de alto quilate, por exemplo.
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Sigo defendendo o mesmo desde o dia 10 de setembro de 1997, esses prêmios acadêmicos e menções honrosas só servem para levantar debates fúteis e celebrações espalhafatosas. Sinto falta de debater o cerne da questão que é o fracasso da educação no Brasil. Consultemos os indicadores da nossa educação e constatamos esse fracasso; a proposta do novo ensino médio, se aprovada será uma pá de terra na educação e, embora sejamos contrários a essa nefasta proposta de reforma, louvamos os pontos fora da curva que são as notas 1000 na redação do ENEM…
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Na minha prática docente, cada semestre me aparecem vários estudantes relatando dificuldades para estudar devido problemas psicológicos, pressão para entrar no mercado de trabalho, competição por notas no próprio curso, dentre outros relatos de caráter pessoal deles que ouço. Há um adoecimento entre os jovens ingressantes nas escolas e, enquanto isso, celebramos a exceção e não buscamos a política pública, apresentamos como heróis aqueles que lograram a nota 1000 e não entendemos que uma educação de qualidade não faz com gênios, mas como uma média ampla e elevada.
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Se eu fosse pai desse rapaz nota 1000, que cada santo dia se deslocava 100km por dia para estudar, eu iria ao público me indignar com a hiper exposição dada a um adolescente que por anos foi desrespeitado, humilhado pelas instituições públicas, que teve o seu direito constitucional caçado muitas vezes e que somente foi possível chegar ao seu nível de excelência por ser uma exceção à regra que é a formação de jovens com dificuldades de aprendizado. Eu também bradaria que as instituições públicas parem de celebrar as exceções e desenvolvam estratégias para que a evasão escolar diminua, que os jovens possam cursar uma educação pública, gratuita e de qualidade, onde o humano se sobressaia ao indicador. Ainda, como pai de um candidato a gênio, eu demandaria mais atenção para aqueles que tiveram nota 500 e poucos já que eles são a maioria e eles representam a realidade da educação no país.
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Parabéns aos nota 1000 da redação do ENEM 2024, mas parabéns aos nota 500 e poucos da redação do ENEM 2024 também! Paulo Freire: “a educação não transforma o mundo, a educação transforma as pessoas e as pessoas transformam o mundo!”

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