A sanha sensacionalista e o caso das professoras
Natal, RN 16 de abr 2024

A sanha sensacionalista e o caso das professoras

20 de fevereiro de 2024
4min
A sanha sensacionalista e o caso das professoras

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Nos primeiros dias de 2024, uma grave denúncia chamou a atenção nas redes sociais: um casal de mulheres estaria escravizando duas crianças por elas adotadas. As mulheres seriam professoras, vivendo na grande Natal. A princípio, mesmo lamentando a  situação triste, as coisas pareciam tomar o devido rumo. O caso estava sendo investigado, as crianças estariam sob cuidado do conselho tutelar e a investigação ocorreria sem mais alarde, algo salutar para as jovens.

Em situações como essa, o sigilo e o cuidado na disseminação de informações não apenas seria condição para a rigorosa e equilibrada investigação, também garantiria o bem estar de quem já sofreu e é mais vulnerável. Contudo, algo destoou e em poucos dias, foi decretada a prisão preventiva das mulheres, ambas com residência, trabalhos fixos sem condições de oferecer obstáculos às averiguações. As crianças já tinham sido separadas das mães, estando sob a guarda do Estado. 

Conforme a Constituição e o nosso regramento jurídico, que deveriam nortear os procedimentos de todos os operadores do direito, as acusadas deveriam ser consideradas inocentes, até a conclusão das investigações e do devido processo. Porém, tão logo a prisão foi decretada, uma nova onda de desinformação digital se levantou. Imprecisões, açodamentos e mentiras ajudaram a alimentar um leviatã de pré-julgamentos.

A crise do jornalismo cobrou o óbolo: a notícia foi divulgada da forma mais superficial e irresponsável que se poderia esperar, atiçando o esgoto digital, expondo as meninas e pré-julgando as mães. Parte significativa da sociedade, manietada pelo fascismo, se deleitou, explorou o sofrimento alheio para se esbaldar na lesbofobia e atacar a UFRN. Foi mais uma cena da cruzada obscurantista, que insiste em criminalizar uma instituição essencial, num caso exclusivamente privado. O ódio à educação e à ciência se entrelaça com a misoginia.   

O que preocupa é a exaltação do punitivismo, a ideia de que penalizar pessoas afobadamente resolveria qualquer dos nossos problemas, como se não ostentássemos a terceira população carcerária do mundo, mesmo que o Brasil seja o sétimo país mais populoso. Pessoas bem intencionadas, muitas até na esquerda, incorrem nesse erro, clamando por execração pública de criminosos e até de suspeitos. Piora quando a justiça ouve rumores digitais, como se fosse a voz da verdade. Nada mais distante do factual do que o subjornalismo que sobra em nossas telas. 

Nem ousemos falar em justiça restaurativa, mediações ou prevenção ao crime. Seria pedir muito num momento em que o comportamento de manada já julgou e já condenou. Parece que pouco aprendemos com a Escola Base, o caso Evandro ou caso dos irmãos Naves. Ou com os seguidos linchamentos ocorridos na grande Natal, que em nada contribuem para a paz e o bem estar. E já há rumores de tentativas de agressões na cadeia contra essas mulheres, assim como informações de que tentativas de extorsão e intrigas entre vizinhos teriam levado a denúncias caluniosas. O fato é que qualquer solução passa pelo equilíbrio e pelo respeito aos direitos de todas as pessoas, o que não é entrave para o rigor na investigação, muito pelo contrário. É garantia de que estaremos no caminho da justiça verdadeira.

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