Afeitas e Afoitas
Natal, RN 18 de mai 2024

Afeitas e Afoitas

27 de abril de 2024
3min
Afeitas e Afoitas

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Afeitas às migalhas afetivas e amorosas, aos olhares de desejo e repugnância, às caras de encantamento e repulsa, às realizações fetichistas e muitas vezes ao deboche público, vivem as Travestis.

Apontadas na rua como não-homens, não-mulheres, não-dignas, não-humanas, parece correto e natural nos contentarmos com o que sobra: inclusive os maridos e namorados usados de outras mulheres e o que resta de afeto neles. (Resta algo, além da tara?!)

Quem sabe, acreditar em um tanto pouco de amor que pode ser entregue nessas ocasiões de relações clandestinas e ocultadas, seja possível... mas é pouco provável de que ele seja o mínimo real. De preferência, esses instantes são esquecidos. Somos esquecidas. Devemos esquecer. “Você não me conhece! Nunca me viu!” E o tanto pouco de amor que poderia ter sido entregue se esvai... escorre para a sarjeta.

Afeitas à essa falta de... a esse reconhecimento em ser... ao direito de abundante amor, carinho e transparência afetiva, vivem as Travestis. E para sobreviver a tudo isso, tornamo-nos afoitas.

Feito criança dentro d’água. Sem medo de perigo algum, sem noção de que “água não tem cabelo”, nos afoitamos. Somos afoitas quando nos atiramos ao sol, ao sal, de biquíni na praia... Somos afoitas quando, para não nos sentirmos sós, entregamo-nos aos maridos e namorados alheios, nem que seja só pra matar a tara. Somos afoitas quando, afeitas a essas migalhas, as transformamos em banquete e deleite.

Somos afoitas quando fincamos pé em nossos direitos de existir, de ser, de andar na rua ao sol, de nos banharmos ao mar. Somos afoitas quando escrevemos, quando cantamos, quando transamos, quando fazemos ponto em uma esquina qualquer.

Somos afoitas porque, mesmo afeitas às migalhas afetivas e amorosas, aos olhares de desejo e/ou repugnância, às caras de encantamento ou de repulsa, às realizações fetichistas e muitas vezes ao deboche público, saímos do mar com a pele bronzeada, deixando a água escorrer sobre nossa pele de gente.

Afoitas porque não concordamos que seja correto e natural nos contentarmos com o que sobra. Queremos mais. Queremos muito. Não queremos ser esquecidas, não queremos esquecer, e não queremos um tanto pouco de amor. “Quero um amor maior, um amor maior que eu”, cata Jota Quest e eu repito aqui, porque eu nasci afoita demais pra me contentar só com a beira da praia. E porque me recuso a ser afeita às migalhas.

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