Eu te amo
Natal, RN 26 de fev 2024

Eu te amo

13 de abril de 2018
Eu te amo

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

O homem que nunca dissera nem ouvira palavras de amor bateu a porta e morreu, não existe mais. Saiu de casa às 7h para enfim dizer: “Eu te amo”. É verdade que ainda amaciava a fala na garganta, ainda desconhecia as consequências do amor que jurava sentir. Mas sobre sentir tinha alguma experiência. E, de repente, no meio de tudo o que sentia, abriu a boca, ainda mordeu as palavras, mas falou:

- Eu te amo!

Dito. E, para seu espanto, retribuído. Talvez agora precisasse de uma cartilha. Algo que lhe ensinasse os afazeres do amor. Quem sabe se fosse lei? Constitucionalmente e desesperadamente, precisava garantir a permanência do amor no país.

Foi buscar nos livros, na gente mais velha. Uns não souberam ajudá-lo. Outros disseram-lhe que era coisa complicada, melhor não se envolver. Mas não adiantava. Feito criança, não aceitava que a brincadeira pudesse acabar.

Nesses tempos era só isso. Tinha horas que o amor se escondia, ninguém achava. Tinha horas que era uma correria só, chegava a machucar. Mas não desistia de brincar. Um dia deram-lhe um empurrão. Cuspiu um pouco de sangue que a poeira da rua logo cobriu. De repente, tudo o que sentia estava assim: coberto pela poeira fina. Parecia que a brincadeira havia enfim acabado.

Lembrou-se do dia em que saiu de casa para dizer “Eu te amo”. Fosse hoje, acordaria mais tarde. Agora o amor era só um rastro e ele ainda tinha o dia todo pela frente. Amor é bicho livre, até nasce em ambiente fechado, mas não se cria. Não vinga. Se transforma e vai em busca de outro peito pra morar. O amor não cabe na Constituição. Não se submete, mas se conjuga, no passado ou no presente. Do futuro, ninguém sabe.

O homem que não tinha medo de palavras de amor chegou em casa já tarde da noite. O amor tomou todo o seu dia, mas não fez alarde. Nada trouxe, nada disse. Era só um resto de gente. Juntou-se ao silêncio da casa, enquanto todos dormiam. Amanhã seria diferente. Sentaria à mesa e, em silêncio, iria saborear todo o amor que sentia pelos seus, enquanto juntava-se ao barulho da casa.

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.