OPINIÃO

E Iemanjá é negra?

A retirada da antiga estátua de Iemanjá (Natal/RN), que foi por várias vezes alvo de racismo religioso, deu lugar não apenas a uma nova estátua, mas também a uma grande discussão sobre a religiosidade de matriz africana.

E no fim, Iemanjá é negra?

Antes de responder essa pergunta, é preciso fazer algumas considerações. A primeira delas é que as religiões de matriz africanas são religiões essencial e fundamentalmente negras. O sequestro dos africanos para as Américas não trouxe apenas uma força de trabalho, mas vários povos com línguas, hábitos, corpos, culturas e religiosidades.

Portanto, ser de religião de matriz africana nos faz cultuar um sagrado negro, que tem cor, que tem origem, tem diversidade e que tem uma história. Essa história precisa ser recontada, para que nunca esqueçamos como chegamos ao hoje.

Assim como jogar capoeira, tocar nossos tambores foi crime há bem pouco tempo. Íamos para dentro das matas cultuar nosso sagrado. E quando não havia mata, como cultuar nossos orixás sem que terminasse na violação física e simbólica do nosso sagrado?

O racismo religioso e a imposição do catolicismo nos levou a encontrar novas formas de vivenciar nossa fé e, daí, surge o sincretismo. Os negros não cultuavam as imagens brancas do cristianismo por que gostavam ou por que estavam se convertendo. Era resistência. Era sacralizando aquela imagem não como Nossa Senhora dos Navegantes, mas como Iemanjá. Não era sobre São Sebastião, era Oxóssi. Nunca foi sobre Jesus Cristo, era sobre Oxalá.

O sincretismo religioso surge sim a partir do racismo religioso, obrigando os negros a reinventar sua fé e sua forma de cultuar o sagrado. E esse sincretismo é, ainda hoje, muito presente nas religiões afrobrasileiras, especialmente na Umbanda e na Jurema.

Dizer que a Iemanjá que os nossos irmãos da Umbanda cultuam, a partir da imagem de Nossa Senhora dos Navegantes, está errada pois é uma imagem branca, viola profundamente a forma de culto desse povo que teve que reaprender a vivenciar o sagrado.

Hoje, começamos um processo muito importante de altenativa ao sincretismo. O candomblé vive um momento de retomar a africanidade do nosso sagrado, reivindicando que o nosso sagrado é de fato negro. Mas falar de religião de matriz africana é falar de diversidade.

Como dizem os mais velhos, “há muitas receitas para o mesmo bolo”. E na receita do sagrado, não cabem palpites — principalmente de quem nunca encostou na farinha de trigo, nunca quebrou ovos ou nem untou uma forma. Cabe aos mais velhos o que cabe aos mais velhos, e a nós, cabe o respeito.

Por fim, a Estátua foi trocada. A primeira, feita de cimento em uma forma, foi colocada por nossas irmãs e irmãos da Umbanda. A nova, feita em pedra sabão, foi esculpida à mão por um artista potiguar, similar à anterior para conservar a história e a memória dos que lutaram contra a intolerância religiosa antes de muitos de nós ter nascido.

Quem presenciou o 2 de fevereiro percebeu que o povo de terreiro reverenciou a nova estátua, que nossa Rainha do Mar se alegrou com a festa e que a nossa luta é contra o racismo religioso. Que esse seja o foco da luta das irmãs e irmãos que não são religiosos de matriz africana.

 

 

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo