Família de paciente intubado faz vaquinha para comprar sedativos
Natal, RN 15 de jul 2024

Família de paciente intubado faz vaquinha para comprar sedativos

9 de março de 2021
Família de paciente intubado faz vaquinha para comprar sedativos

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Com apenas um dia de internação, Karlo Scheneider, de 40 anos, foi intubado e, desde então, luta contra a covid-19 na UTI do Hospital São Luiz, em Mossoró. O gerente de hotel foi atendido na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro Belo Horizonte, transferido para o Hospital São Luiz e intubado, logo em seguida.

Nesse pequeno intervalo de tempo, uma possível escassez dos anestésicos utilizados para manter o paciente em coma passou a, também, preocupar a família de Karlo. A recomendação para que os parentes tentassem comprar Propofol e Rocuronio por conta própria partiu de um médico da unidade. A família fez uma campanha nas redes sociais para conseguir o dinheiro para aquisição dos medicamentos e, desde então, vêm fazendo uma busca nas unidades de saúde, inclusive da rede privada, mas sem sucesso. Atualmente, o estoque adquirido é suficiente para manter a sedação de Karlo por apenas mais três dias.

“É uma medicação muito cara e difícil de encontrar. Nós estamos tentando em todo lugar, os públicos não têm. Até conseguimos alguma coisa, mas em uma quantidade muito baixa, até porque como os hospitais estão todos lotados, dificilmente algum venderia correndo o risco de ficar sem. A questão é que a medicação precisa ser ministrada várias vezes ao dia”, desabafa Olga Morais, amiga da família de Karlo, cuja única comorbidade apresentada era a pressão alta, que estava sob controle quando ele adoeceu.

A responsabilidade pela compra de medicação da unidade é da direção do próprio Hospital São Luiz, que funciona de maneira pactuada com 70% de financiamento dos leitos de UTI pago pelo Governo do Estado e 30% pela Prefeitura de Mossoró, que garantiu que todas as UPA’s e Unidades Básicas estão abastecidas. Segundo familiares de Karlo Schneider, caixas de sedativos chegaram ao Hospital nesta terça (9).

No âmbito estadual, o abastecimento dos hospitais é feito pela Unidade Central de Agentes Terapêuticos (Unicat), que garantiu que não há falta de sedativos utilizados na intubação de pacientes e os estoques de medicamentos necessários ao atendimento em UTI´s vêm sendo monitorados diariamente. Ainda segundo o diretor da Unicat, Ralfo Cavalcante de Medeiros, todos eles já possuem processo de reposição de estoque, alguns com empenho já emitido, e outros em finalização de aquisição.

“A dopamina está em processo de aquisição, porém a Unicat dispõe de medicamento substituto, a noraepinefrina. Com exceção do propofol (aguardando entrega do fornecedor), todos os demais medicamentos estão em estoque, a maioria com disponibilidade para uso por três meses, desde que mantido o perfil atual de consumo, podendo variar com a abertura de novos leitos”, traz a nota da Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap).

Com uma longa duração e aumento dos casos de covid-19, o médico Alderley Torres, que atua desde o início da pandemia na linha de frente do Hospital Municipal de Natal, explica que a doença tem a característica de esgotar os estoques e recursos dos hospitais.

"A gente não consegue manter essa estrutura, a sensação é a de que estamos em uma guerra", relata o médico Alderley Torres.

“Tem algumas medicações, faltam outras, chega estoque, mas rapidamente acaba. É característica dessa doença cessar os recursos. Você olha para um paciente, entuba outro e ainda tem mais dois ou três que também precisam e, assim, os recursos cessam. A gente não consegue manter essa estrutura, a sensação é a de que estamos em uma guerra. Só quem vivencia, sabe o que está acontecendo. Nunca imaginei que fosse passar por isso na vida”, desabafa o médico.

Outro problema enfrentado por algumas unidades da capital tem sido a falta de bombas de infusão, que permitem a distribuição mais precisa do medicamento de sedação nos pacientes intubados. Sem esse equipamento, o remédio tem que ser colocado manualmente gota a gota.

"A vazão que deveria ocorrer em uma hora, acontece em 15 minutos ou nem ocorre! Às vezes a gente fecha e tenta diminuir porque tá caindo muito rápido no gota a gota e, quando olhamos, o paciente acorda e tá com o tubo na mão!"

“Quando induzimos o coma no paciente para que ele seja intubado, precisamos ter muita precisão na medida do medicamento que fazemos. Para se ter ideia, ministramos de 5ml a 10ml por hora do sedativo. Se você muda de 10ml para 15ml em uma hora é uma diferença enorme que pode gerar hipotensão (pressão abaixo do normal que pode resultar em tonturas e desmaios porque o cérebro não recebe sangue suficiente) e uma série de problemas. Com a bomba de infusão conseguimos ajustar para que isso não aconteça. Vinte gotas equivalem a 1ml e quando a gente ajusta para cair uma ou duas gotas, caem três ou quatro, não conseguimos controlar. A vazão que deveria ocorrer em uma hora, acontece em 15 minutos ou nem ocorre! Às vezes a gente fecha e tenta diminuir porque tá caindo muito rápido no gota a gota e, quando olhamos, o paciente acorda e tá com o tubo na mão! É um estresse enorme porque um paciente que já foi estabilizado minimamente e que precisaria ficar induzido na bomba de infusão, acorda, retira o tubo e tem que passar por todo o processo de intubação de novo”, lamenta Alderley Torres.

A improvisação também chegou à Ventilação Não Invasiva (VNI), desenvolvida durante a pandemia para retardar, ao máximo, a intubação dos pacientes. Em algumas unidades, relata o médico, a VNI têm sido improvisada com ataduras para poder funcionar.

Sobre o tratamento precoce para covid-19 defendido pelo prefeito de Natal, Álvaro Dias, que também é médico, Alderley Torres relata que os pacientes que ainda conseguem falar descrevem, em sua quase totalidade, a adoção do tratamento, mas sem qualquer resultado..

“Aqueles que ainda conseguem falar contam que foram a uma UPA e fizeram o tratamento covid com ivermectina, corticoide, que é a prednisolona, e azitromicina. É sempre assim, depois de quatro a cinco dias eles pioram e voltam à unidade de saúde com insuficiência respiratória. São esses pacientes que estamos pegando, é incrível. Quando vemos a evolução na ficha, está lá: iniciou o tratamento precoce e após piora, retorna ao atendimento de urgência. Eles têm a impressão que estão medicados e acabam até se expondo mais”, relata.

No início da noite desta terça (9), 16 hospitais dos 23 hospitais no Rio Grande do Norte com leitos críticos para pacientes com covid-19, estavam com 100% de ocupação. Além desses, outras três unidades estavam com 90% ou mais d e taxa de ocupação. Na região Oeste, a ocupação dos leitos críticos é de 100%, na região metropolitana de Natal de 93,8% de 88,9% no Seridó e de 95% em todo o Rio Grande do Norte. O estado tem, até o momento, 175.703 casos confirmados do novo coronavírus, 48.060 casos suspeitos e 113.435 de Síndrome Gripal Não Especificada, que são casos suspeitos, mas considerados inconclusivos para os quais não foi possível realizar diagnóstico laboratorial. O RN tem 3.777 óbitos confirmados e outros 799 sob investigação da Sesap.

Imagem: Reprodução Regulação Lais/ UFRN

Como ajudar à família de Karlo Schneider:

Imagem: cedida
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